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Quem é a esquerda que a direita gosta? Imprimir E-mail
Escrito por Valerio Arcary   
Segunda, 15 de Setembro de 2014
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“Não importa o tamanho da montanha,
ela não pode tapar o sol”
Sabedoria popular portuguesa.

 

A campanha eleitoral de 2014 é a mais imprevisível desde 1989. É natural, por isso, que seja a mais ríspida. A aspereza das reações polêmicas é proporcional à incerteza de quem vencerá as eleições presidenciais. A insegurança é inimiga da serenidade. Não foram poucos os artigos dedicados a diminuir e desqualificar a oposição de esquerda e, em especial, o PSTU, durante o último mês.

 

Valter Pomar afirmou, por exemplo, concluindo um texto recente: "no atual período histórico, quem acha possível derrotar ao mesmo tempo a direita e o PT, acaba geralmente virando linha auxiliar da direita” (1).

 

Outros militantes da esquerda petista têm asseverado que o PSTU seria um partido irrelevante porque Zé Maria não superou 1% das preferências de voto nas pesquisas de opinião. Breno Altman, por exemplo: “Mas não é apenas a influência eleitoral desses partidos que é pífia. Também são forças de pouca envergadura no movimento sindical, estudantil e camponês. Não passam de franjas isoladas na intelectualidade (...) Ainda que se possa criticar os governos de Lula e Dilma pela eventual opção por um reformismo fraco, no dizer de André Singer, o fato é que se constituíram em ferramentas de resistência ao neoliberalismo em todos os terrenos. (...) A insistência nessa política sectária faz da ultraesquerda um aliado objetivo das forças reacionárias nos momentos de grande polarização e disputa”(2).

 

Os quatro argumentos podem impressionar, mas são falsos. Primeiro, a acusação de que a oposição de esquerda cumpre o papel de uma linha auxiliar da oposição de direita é indigna. Não vale tudo na luta política. Linha auxiliar da oposição burguesa é uma denúncia pesada. Qualquer pessoa pode compreender que na luta política existem mais do que dois campos, situação e oposição. Existem as classes sociais, e elas se expressam através de vários partidos.

 

Com esta insinuação absurda - “aliados objetivos de forças reacionárias” – os dirigentes da esquerda petista não estão ofendendo somente a oposição de esquerda. Estão, também, desafiando a inteligência da sua própria militância, porque estão agredindo a história do PT.

 

O amálgama da oposição de esquerda com a de direita pode parecer, politicamente, eficaz, mas é desonesto. Um mínimo de decência na polêmica de ideias exige reconhecer que os partidos da oposição de esquerda têm atacado, implacavelmente, a oposição de direita, seja Marina ou Aécio. Tanto, ou até mais do que a candidatura do governo. Zé Maria deu a palavra a Osmarino Amâncio para denunciar que Marina Silva não era herdeira dos ideais de Chico Mendes.

 

Se este critério fosse para ser levado a sério, o PT não poderia ter nascido. Porque o PT surgiu desfiando a liderança do MDB e, portanto, dividindo a unidade das oposições à ditadura. Por este critério, a candidatura de Lula em 1982 contra Montoro e Reynaldo de Barros, homem de Maluf, era ilegítima, porque favorecia a vitória do partido da ditadura. Foi essa a acusação que o PCdoB e o MR-8 fizeram durante quase uma década, nos anos 80, ao PT.

 

A premissa de que quem não está conosco, objetivamente, é aliado dos nossos inimigos é falsa. Mas o pior é que este raciocínio binário vem associado a outro mais perigoso. Realmente, ainda há quem pense que só o PT representa os trabalhadores e seus interesses? Não parece bizarra esta conclusão, se a esquerda petista não pode deixar de admitir que, durante doze anos, os grandes grupos capitalistas não pararam de ver os seus lucros crescerem? Alguém poderia explicar, por exemplo, se o PT é o único partido que defende os trabalhadores, por que o Ministro da Justiça do governo Dilma e dirigente do PT, José Eduardo Cardozo, quando da greve dos metroviários contra Alckmin em São Paulo, declarou: “Seja para o que for, o governo do estado pode contar com o apoio instrumental do governo federal” (3).

 

Em segundo lugar, ser maioria não é o bastante para demonstrar quem tem razão em uma polêmica política. Apenas evidencia qual é a proposta, ou o partido, ou a candidatura que tem maior apoio, em determinada circunstância. O apoio que uma proposta, um projeto, uma candidatura pode ter não prova nada, absolutamente nada, sobre a correção da política defendida.

 

Os bolcheviques, uma referência que compartilhamos, foram ínfima minoria na Segunda Internacional em 1914. Foram, também, minoria na Rússia até agosto de 1917, portanto, durante mais de vinte anos. Parece até um pouco cruel ter que recordar para lideranças da esquerda petista que são minoria, há pelo menos duas décadas, dentro do PT - que o fato de terem sido, sistematicamente, derrotados não invalida as propostas que defenderam.

 

Um partido pode sair derrotado, eleitoralmente, e ainda assim obter uma vitória política. Ou o contrário, sair derrotado, politicamente, apesar de uma vitória eleitoral. O PT saiu derrotado das urnas, em 1989, mas fortalecido. Um partido que renuncia ao seu programa para surfar uma onda eleitoral, absorvendo as ideias de outros partidos, pode ter uma excelente votação, mas sairá das eleições derrotado. Em outras palavras, uma avaliação séria com o objetivo de compreender se um partido foi ou não, politicamente, vitorioso deve ter como critério um exame da defesa ou não do seu programa. Não somente o sucesso eleitoral.

 

A audiência do PSTU não é tão residual quanto pensa a esquerda do PT. Os trotskistas estiveram presentes e com um papel destacado em grande parte das lutas recentes mais importantes: construção pesada em Belo Monte no Pará, Comperj no Rio de Janeiro, petroleiros em mais de uma dezena de Estados, professores por todo o país, rodoviários de Porto alegre e Pernambuco, garis e bombeiros no Rio, metroviários e USP em São Paulo etc. Ao defender uma saída socialista para o Brasil, ainda que tenha poucos votos, o PSTU será politicamente vitorioso, porque esta proposta corresponde às necessidades da revolução brasileira. Derrotados serão os socialistas cujos partidos não estiveram nas lutas, e nas eleições não defenderam o socialismo.

 

É fácil compreender por que deve ser aconchegante para dirigentes da esquerda do PT saborearem a perspectiva de uma derrota eleitoral do PSTU como uma confirmação de sua estratégia de hibernação secular. Só que não é. Trata-se de mais um caso clássico de autoengano: uma alegria ilusória. A possível vitória de Dilma, que permanece incerta, se acontecer, significará uma derrota, não uma vitória da esquerda petista. Porque será para a esquerda petista uma vitória de Pirro (4). Pomar, que é um observador mais lúcido, já sentiu o cheiro do perigo (5).

 

Os primeiros cem dias de um possível segundo mandato de Dilma serão suficientes para que fique claro o tamanho do ajuste fiscal que vem por aí, entre outras medidas reacionárias. Claro que uma derrota de Dilma será uma irrevogável derrota da esquerda petista. Mas a dialética do processo é que uma possível vitória de Marina será, também, uma derrota dos trabalhadores, porque Marina fará um ajuste tão grande, senão maior, do que o de Dilma, com as trágicas consequências de aumento do desemprego e queda do salário médio. Em resumo, 2015 não parece nada promissor.

 

Em terceiro lugar, a explicação da provável pequena votação das candidaturas presidenciais do PSTU, PSOL e PCB não reside no seu posicionamento como oposição de esquerda. Aliás, é surpreendente que, um ano depois de Junho de 2013, ainda exista tanta teimosia em admitir que uma parcela majoritária da juventude assalariada urbana com escolaridade mais elevada tenha se deslocado para a oposição.

 

Como ficou evidente em sucessivas pesquisas, é na faixa etária até 35 anos, nos setores sociais com renda entre dois e cinco salários mínimos e entre aqueles com ensino médio completo e superior incompleto que a candidatura Marina Silva tem maior vantagem em relação à de Dilma. Imaginar que essa votação corresponde à velha classe média reacionária é, simplesmente, cegueira indefensável. É obtuso. Não foi, portanto, pelo seu posicionamento como oposição ao governo de coalizão com o PMDB de Renan Calheiros, dirigido por Dilma, em nome do PT, que a oposição de esquerda tem poucos votos.

 

A baixa votação remete a temas muito mais complexos, e que exigem diferentes níveis de análise para serem compreendidos, mas que o marxismo inspirado em Leon Trotsky caracterizou com a crise de direção do proletariado. Porém, como este conceito é muito mal interpretado, para resumir, portanto, simplificando, repousam ainda, entre outros fatores:

 

a) na avalanche de votos que se dirigiram para Marina como uma mediação que, embora esteja em uma aliança com a oposição de direita, não é assim percebida por esta parcela da juventude trabalhadora que a vê como uma alternativa e, para não poucos, até à esquerda de Dilma;

 

b) no estágio de imaturidade política desta geração de trabalhadores jovens, um processo no qual o PT, depois de 12 anos no poder, tem responsabilidades, como ficou mais uma vez escancarado com o novo escândalo da Petrobras e as “relações perigosas” com o PP de Maluf, o PMDB de Sarney etc.;

 

c) na falta de confiança dos batalhões mais maduros dos trabalhadores em suas próprias forças, que leva a que as propostas da oposição de esquerda, ainda que indispensáveis, pareçam demasiado radicais, e o voto no PT, apesar do reformismo quase sem reformas, um mal menor;

 

d) no fenômeno mais amplo das ilusões no próprio processo eleitoral como via indolor para a transformação econômico-social do país, o que, evidentemente, não é possível.

 

Por último, em quarto lugar, o argumento de que os governos do PT foram um período de resistência ao neoliberalismo é uma fantasia exagerada, portanto, insustentável, em um debate sério. Em outras palavras, pensamento mágico. Expressão pura da força do desejo.

 

Resistência ao neoliberalismo? O eixo central da estratégia neoliberal foi o tripé macroeconômico que Lula preservou dos governos de Fernando Henrique. Até as pedras das calçadas da Avenida Paulista sabem que a política de Palocci foi um sonho de consumo da burguesia brasileira. Que a preservação das metas inflacionárias, do superávit fiscal e do câmbio flutuante, para garantir a segurança da rolagem da dívida pública na mão dos rentistas, foi a estratégia central para blindar a governabilidade dos governos de coalizão dirigidos pelo PT. Não por acaso o governo manteve relações amigáveis com o agronegócio, com as montadoras e a FIESP, com os banqueiros etc.

 

A tentativa de redução da taxa de juros, durante dois anos dos quatro do mandato de Dilma, foi o bastante para levar a esquerda petista, e até o MST, a sonhar com um novo curso desenvolvimentista. Foi, como o último ano demonstrou, só um ensaio, rapidamente interrompido.

 

É verdade que o crescimento entre 2004 e 2008, com uma retomada em 2010, no contexto de uma recuperação do capitalismo mundial depois da crise de 2000/01, favoreceu uma redução do desemprego, e esta pressão permitiu uma recuperação do salário médio para os níveis de 1990, antes da posse de Collor. Não houve reformas progressivas durante os últimos doze anos? Sim, houve. Mas muito poucas.

 

Reformismo fraco é uma conceituação muito benigna da parte de André Singer. O aumento do salário mínimo acima da inflação, a elevação do crédito popular com os empréstimos consignados e a expansão do Bolsa Família como política de emergência assistencial explicam a sensação de alívio depois da degradação das condições de vida pela superinflação dos anos 80, e estagnação dos anos 90. Mas não são o bastante para definir os governos do PT como reformistas. Porque foram muito mais numerosas as contrarreformas.

 

Como dizem os portugueses, não importa o tamanho da montanha, ela não pode tapar o sol.

 

Notas:

1) POMAR, Valter. Ser de esquerda não é profissão de fé, nem serviços prestados. 10/09/2014, In http://valterpomar.blogspot.com.br/2014/09/ser-de-esquerda-nao-e-profissao-de-fe.html

2) ALTMAN, Breno. Por que a ultraesquerda brasileira é residual? 11/09/2014. In https://www.facebook.com/breno.altman

3) Fonte: CBN (09/06/2014)

4) Trata-se de uma expressão que explica como há vitórias que se transformam em derrotas. Por exemplo, quando uma vitória é conquistada ao custo de prejuízos irreparáveis.

5) POMAR, Valter. Eles têm um plano C. 12/09/2014. In  http://valterpomar.blogspot.com.br/2014/09/eles-tem-um-plano-c.html

 

Leia também:

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Valerio Arcary é professor titular no IFSP – Página na web: http://marxismo21.org/wp-content/uploads/2014/09/Val%C3%A9rio-Arcary-dossie.pdf

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Última atualização em Qui, 18 de Setembro de 2014
 

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