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Lenin e o revisionismo Imprimir E-mail
Escrito por Miguel Urbano Rodrigues   
Sexta, 12 de Setembro de 2014
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Os dirigentes da União Europeia – nomeadamente Merkel, Hollande e Cameron – intensificaram nas últimas semanas as suas críticas à Rússia. O pretexto são os acontecimentos da Ucrânia. Um alvo prioritário é Vladimir Putin. Um dos absurdos dessa campanha é a insistência em apresentarem o presidente da Rússia como um ditador que estaria empenhado numa política que visaria a reconstituição parcial da União Soviética.

 

Um anticomunismo transparente é identificável em crônicas de influentes analistas ocidentais. Não obstante a Rússia ser hoje um país capitalista, slogans bolorentos da guerra fria são retomados.

 

Putin é acusado de recorrer a métodos e à linguagem de comunistas históricos. Até a realização da parada da vitória em Moscou, a 9 de maio, para comemorar a derrota do Reich nazista, foi interpretada como uma ameaça em Washington e algumas capitais da União Europeia.

 

Uma estranha febre ideológica ganha subitamente atualidade e destacados intelectuais do sistema capitalista divulgam a despropósito entusiásticas apologias do neoliberalismo e exorcizam o marxismo como velharia obsoleta.

 

É nessa atmosfera que se insere o novo discurso anticomunista que, agitando fantasmas, falsifica a História.

 

Na tentativa de apresentarem Marx e Lenin como inimigos da democracia, intervêm figuras exponenciais de uma ideologia inseparável da engrenagem liberticida que ameaça a humanidade e é responsável por crimes monstruosos.

 

Em Portugal os comentadores de serviço na TV, na rádio e nos jornais de “referência” cumprem com zelo a sua tarefa, debitando asneiras no combate ao suposto renascimento do “saudosismo comunista” na Rússia.

 

Creio por isso oportuno e útil recordar fatos e situações históricas que desmontam a atual campanha ideológica do imperialismo.

 

Começarei por chamar a atenção para a falsidade das teses de acadêmicos anticomunistas que atribuem a Lenin um dogmatismo rígido na utilização do marxismo para a compreensão e transformação do mundo. Trata-se de uma grosseira mentira. O fundador do primeiro Estado socialista não via no marxismo uma ciência imobilista, de fronteiras definitivas.

 

“Não consideramos de modo algum – escreveu – a teoria de Marx como algo de acabado e intocável, estamos, pelo contrário, convencidos de que ela apenas assentou a pedra angular da ciência que os socialistas devem fazer avançar em todas as direções, se não querem atrasar-se em relação à vida. Pensamos que para os socialistas russos é especialmente necessária a elaboração independente da teoria de Marx, pois esta teoria oferece apenas postulados gerais orientadores que em particular à Inglaterra se aplicam de maneira diferente da França, à França de maneira diferente da Alemanha, à Alemanha de maneira diferente da Rússia (1).

 

Lenin repetiu incansavelmente que sem teoria revolucionária não pode triunfar qualquer movimento revolucionário. Mas conseguiu, com imaginação e talento, ser simultaneamente flexível na aplicação do método marxista e intransigente no combate às ideias e manobras daqueles que, afirmando ser marxistas, assumiam na prática posições incompatíveis com a ideologia do autor de O Capital.

 

Contrariamente à convicção de muitos jovens que identificam nos “renovadores” que contribuíram para a social democratização de muitos PCs europeus um fenômeno relativamente recente, o revisionismo do marxismo mergulha as raízes no século XIX.

 

Principiou ainda em vida de Marx e foi permanente. Em 1894, quando Lenin preparava a fundação do futuro partido bolchevique, teve de travar uma luta dura contra os “marxistas legais”, tendência liderada pelo alemão Struve que procurava “tomar do marxismo tudo aquilo que é aceitável para a burguesia liberal, incluindo a luta por reformas, abrangendo a luta de classes (sem a ditadura do proletariado), incluindo o reconhecimento ‘geral’ dos ideais socialistas e a substituição do capitalismo por um ‘novo sistema’ e rejeitar ‘somente’ a alma viva do marxismo, o seu caráter revolucionário”.

 

A segunda ofensiva dos oportunistas para desvirtuar o marxismo em benefício da burguesia teve o seu epicentro no partido Social Democrata Alemão, ao tempo muito prestigiado, quando o seu dirigente Edward Bernstein publicou em 1899 uma série de artigos em que revia teses fundamentais do marxismo. Na sua apologia do reformismo lançou uma palavra de ordem famosa: “o movimento é tudo, o objetivo final quase nada” (2).

 

Lenin e Rosa Luxemburgo arrancaram-lhe a máscara, denunciando-o como um deturpador do marxismo. Para os comunistas “o objetivo final” era tudo e o reformismo de Bernstein apontava para uma conciliação com a burguesia. Na prática, Bernstein retomava teses reacionárias da filosofia de Kant. Mas a sua pregação influenciou um amplo setor do Partido Social Democrata Alemão, então marxista, com repercussões negativas na Rússia (3).

 

Uma terceira grande ofensiva do revisionismo ocorreu em 1908. Dois filósofos, o austríaco Ernst Mach e o alemão Richard Avenarius, que negavam a existência objetiva do mundo material, difundiram a chamada filosofia da “experiência crítica”, mais conhecida pelo nome de Empiriocriticismo. Segundo eles, os corpos seriam somente “complexos de sensações”. Os trabalhos de ambos deram origem a uma corrente de pensamento que se popularizou com o nome de “machismo”. Mach, sobretudo, embora pretendendo ser marxista, rejeitou o essencial do materialismo histórico e do materialismo dialético.

 

Uma parcela ponderável da intelectualidade progressista europeia aderiu com entusiasmo a essa nova filosofia, aceitando-a como escorada na ciência. Kautsky, abrindo as colunas do órgão central da socialdemocracia alemã à apologia do Empiriocriticismo, contribuiu para aumentar a confusão gerada.

 

Os mencheviques aderiram imediatamente, mas a propaganda machista perturbou também quadros da fração bolchevique do Partido Operário Social Democrata da Rússia-POSDR-b. Essa influência negativa levou inclusive à formação de um grupo oportunista, os “otzovistas”, que defendia a retirada do Parlamento russo (a Duma) dos deputados bolcheviques, afirmando que o Partido deveria realizar apenas atividades ilegais.

 

Foi então que Lenin declarou guerra a essa perigosa modalidade de revisionismo, primeiro através de artigos, depois num livro, “Materialismo e Empiriocriticismo”, ensaio filosófico que com o tempo se tornou um clássico do marxismo como obra teórica. Demonstrou que Mach e os seus seguidores, simulando realizar um trabalho científico inovador, se limitavam afinal a colar um novo rótulo a velhas teses idealistas (4).

 

Os esforços para destruir o marxismo foram permanentes em vida de Lenin e prosseguiram após a sua morte.

 

O moderno revisionismo

 

Desde o início da I Guerra Mundial, uma onda de falso patriotismo varreu a Europa. Tripudiando sobre os seus programas, e violando compromissos assumidos em nome do internacionalismo proletário, partidos que pretendiam ser socialistas votaram os créditos de guerra das grandes potências envolvidas no conflito, tornando-se cúmplices da hecatombe que atingiu a humanidade. Essa opção foi decisiva para o descrédito e agonia da II Internacional. A luta contra o imperialismo perde muito do seu significado, dizia Lenin, se não “estiver indissoluvelmente ligada à luta contra o oportunismo”. O grande revolucionário foi, portanto, implacável na denúncia do social-chauvinismo, desmentindo que a defesa da liberdade e dos verdadeiros interesses nacionais fosse a motivação da guerra.

 

A vitória da Revolução Russa criou, entretanto, as condições que permitiram a criação da III Internacional. Mas, como era de esperar, a existência da União Soviética foi por si só um incentivo a uma ofensiva permanente em múltiplas frentes contra o marxismo.

 

Finda a II Guerra Mundial, a luta contra o comunismo assumiu facetas muito diferenciadas. Os partidos comunistas europeus tinham desempenhado um grande papel na luta contra o fascismo. Enfraquecê-los, instalar neles o divisionismo, empurrá-los para o antissovietismo e o afastamento do marxismo foi uma constante nas campanhas das burguesias e do imperialismo.

 

No auge da guerra fria, o Manifesto de Champigny, na França, em 1968, quando Waldeck Rochet era secretário-geral do PCF, cumpriu importante papel em debates ideológicos que abriram a porta ao eurocomunismo. Invocando a necessidade de renovar o marxismo, dirigentes como os franceses Georges Marchais, Roger Garaudy e Louis Althusser, o italiano Enrico Berlinguer, o espanhol Santiago Carrillo e outros serão lembrados como arquitetos de um revisionismo que encaminhou os seus partidos para a socialdemocratização. No caso do PCI, a guinada à direita funcionou, aliás, como etapa rumo à sua autodestruição.

 

O revisionismo atuou, porém, sob máscaras muito diferentes. Após a desagregação da União Soviética, surgiram em muitos partidos dirigentes que, apresentando-se como empenhados em renovar o marxismo, passaram rapidamente ao ataque ao leninismo e ao centralismo democrático. Alguns acabaram ingressando em partidos socialistas integrados no sistema capitalista.

 

As universidades produziram uma geração de acadêmicos que, principiando por leituras perversas de Marx, não tardaram a procurar justificações para a defesa de políticas neoliberais.

 

Ganharam também alguma notoriedade revisionistas (oportunistas de esquerda) que, pretendendo exibir uma suposta pureza marxista, recorreram a textos de Gramsci e de Che Guevara para lhes deturparem o pensamento em obras de cariz antissoviético, aplaudidas pelo imperialismo.

 

Uma modalidade de anticomunismo, mais sutil, é a praticada por intelectuais que, criticando o capitalismo, identificam nos movimentos sociais a força revolucionária vocacionada para salvar a humanidade (John Holloway, Bernard Cassen, Ignacio Ramonet, Boaventura Sousa Santos, Hans Dietrich etc.), negando aos partidos protagonismo na luta contra o sistema.

 

Aceitar em Marx o economista e rejeitar o ideólogo é atitude frequente em cenáculos de intelectuais que satanizam Lenin.

 

O perigo oportunista

 

A palavra oportunista tornou se incômoda para muitos dirigentes de partidos comunistas europeus e latino-americanos. Essa atitude traduz a consciência de estratégias e táticas que afetaram a unidade do movimento comunista internacional.

As suas últimas reuniões confirmaram a existência de discordâncias profundas que o debilitaram.

 

O panorama atual é muito complexo. Na Europa, a maioria dos partidos está hoje integrada ao Partido da Esquerda Europeia, ombro a ombro com partidos burgueses como o Die Link alemão, o Syriza da Grécia e o Bloco de Esquerda de Portugal.

 

A função inconfessada desse partido é neutralizar os trabalhadores, dificultando a sua participação nas grandes lutas contra o imperialismo e as políticas neoliberais impostas na União Europeia. Não surpreende que o PEE conte com a simpatia da mídia controlada pelo capital e a benevolência dos governos que o representam.

 

Muitos partidos comunistas foram contaminados nas últimas décadas. Alguns participaram na orquestra do antissovietismo. Robert Hue, quando secretário geral do PCF, teve o descaramento de afirmar que “tudo foi negativo na União Soviética”.

 

O Partido Comunista Italiano desapareceu depois de mudar de nome. Fausto Bertinotti, que foi secretario geral da Rifondazione Comunista, desce hoje à abjeção de renegar o comunismo.

 

O Partido Comunista Francês, em rápida metamorfose, renegou o passado e transformou-se numa caricatura de partido operário. O Partido Comunista da Espanha, hoje antileninista, diluiu-se numa Esquerda Unida inofensiva.

 

Uma epidemia de oportunismo instalou-se no movimento comunista internacional.

Uma das suas manifestações é a crítica – ostensiva ou indireta - a partidos que, na fidelidade aos princípios, continuam a assumir-se como marxistas-leninistas. São visados entre outros o Partido Comunista da Grecia (KKE), o Partido Comunista do México (PCM), e o Partido Comunista Brasileiro (PCB).

 

Não cabe neste artigo comentar a estratégia desses partidos revolucionários. Não me identifico com todas as posições que assumem. Mas eles me fazem recordar que o Partido Comunista Português, pela fidelidade aos princípios e à sua história, resistiu vitoriosamente com firmeza à vaga de anticomunismo, que, sobretudo no início dos anos 90, descaracterizou ou destruiu outros.

 

Hoje, é precisamente essa fidelidade aos princípios do KKE, do PCM e do PCB, a sua firmeza no combate ao revisionismo e na denúncia do oportunismo que me inspiram respeito e admiração.

 

Eles e outros fundadores da Revista Comunista Internacional são hoje uma minoria no Movimento Comunista Internacional. Mas a coerência demonstrada na fidelidade ao pensamento e obra de Marx e a coragem com que assumem a herança de Lenin contam com a minha solidariedade fraterna.

 

Notas:

(1) V.Lenin, O Nosso Programa, Obras Completas, in Tomo 4, pág. 184

(2) V.I.Lenin, A Falência da II Internacional, idem, Tomo 26, pág. 227

(3) V.Lenin, Uma Orientação Retrógrada na Socialdemocracia Russa, idem, Tomo 4, pág. 265

(4) V.I.Lenin, Materialismo e Empiriocriticismo, Edições Avante! 1982, Lisboa.

 

Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor português.

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Última atualização em Segunda, 15 de Setembro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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