Indispensável discernimento

 

 

Com tantos apelos em tempo de campanha eleitoral, não é o caso de fazer mais um.  Mas se torna urgente, isto sim, discernir o que estes apelos representam.

 

As promessas já não impressionam.  Inclusive, já fazem parte do folclore eleitoral. Mesmo assim, é bom conferir qual o critério para acreditar. Se partem de candidatos que demonstram o que já fizeram, nesta medida podem merecer a confiança no que prometem.  No tempo de Cristo, o povo simples sabia distinguir:  “Ele fala como quem tem autoridade, e não como os escribas e fariseus!”.

 

Mas o ambiente eleitoral tem outros ingredientes, que o tornam muito complexo, e que exige um esforço redobrado de vigilância.

 

Um fato que preocupa, com evidência, são as enormes somas de recursos financeiros empenhados nas campanhas. Este ambiente se transforma em águas turvas, propícias para a pesca, e perigosas para os incautos.

 

Esta grande soma de recursos financeiros, gastos nas campanhas eleitorais, se constitui no ingrediente mais comprometedor do nosso sistema político. São eleitos os que dispõem de muito dinheiro.

 

Por isto, o primeiro item da tão sonhada, e sempre adiada, reforma política é limitar o uso de poder financeiro nas campanhas eleitorais. É urgente diminuir a influência do dinheiro no resultado das eleições.

 

Mas não é só.

 

Alguns procedimentos infringem a ética, e se tornam perniciosos para a democracia.  Aproveita-se o clima de liberdade, para lançar acusações não comprovadas, que atingem a moralidade das pessoas, e causam desgastes irreparáveis nas vítimas destas artimanhas perversas.

 

Tomemos o caso da dita “delação premiada”, expediente de investigação,  que a lei prevê, mas que exige procedimentos éticos para atingir os seus verdadeiros objetivos. Dadas as circunstâncias em que se encontra o tal delator, que tenta negociar o que sabe em troca de compensações em suas penas, antes de divulgar como verídico o que ele relata, se faz necessária uma rigorosa investigação, para conferir quanto de mentira ele propaga, e quanto de verdade ele revela. Por isto, a divulgação da “delação premiada” só deveria ser feita depois de confrontada com uma rigorosa averiguação do conteúdo apresentado.

 

Sua divulgação antecipada é tanto mais grave, quanto mais diminuto o tempo para a devida reparação dos prejuízos causados.

 

Em cima deste episódio, vale fazer outra constatação. O clima de legítima confrontação de propostas políticas, próprio da campanha eleitoral, é instrumentalizado por pessoas sem escrúpulo, que lançam versões bombásticas, para assim obterem alguma vantagem com a divulgação de suas versões, que aparecem revestidas de indícios de verossimilhança, para assim afirmarem, com desembaraço, o que mais lhes  interessa.

 

Mas a reincidência destes obreiros da mentira em seus métodos, aos poucos, vai expondo suas manobras, e os eleitores saberão neutralizá-las com seu voto.

 

 

D. Demetrio Valentini é bispo da diocese de Jales-SP.


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