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Escrito por Rodolfo Salm   
Segunda, 08 de Setembro de 2014
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Se vocês pensam que a Marina coloca a floresta e os rios em primeiro lugar, não se enganem: o que ela prioriza sempre são suas pretensões políticas. Quem acompanhou sua trajetória no Ministério do Meio Ambiente sabe que ela usa o ambientalismo como bandeira, mas, na hora que a coisa aperta, relativiza tudo em nome de seus projetos políticos. Dito isso, acho bom esclarecer de início que vi com muitos bons olhos a subida meteórica de Marina Silva nas pesquisas de opinião. No mínimo, ela, que trouxe alguma emoção a uma disputa que se prometia polarizada entre candidatos do PT e PSDB (nos quais eu não votaria de jeito nenhum), ganha meu voto no segundo turno. Isso apesar de ela ter me dado muito mais decepções que alegrias ao longo dos anos em que venho acompanhando seu trabalho na área ambiental.

 

Compartilho meio envergonhado o que escrevi sobre ela quando foi escolhida para o Ministério do Meio Ambiente, no início de 2003, na formação ministerial original do primeiro governo Lula: “Marina, da linhagem de Chico Mendes, com quem aprendeu política, cresceu nos seringais do Acre. Conhece a mata de fazer varação, que é entrar na floresta, tomar um rumo e, mesmo sem a ajuda de trilhas, sair longe, bem onde se deseja. Uma inteligência rara que só os índios e caboclos possuem”. Quanta ingenuidade (“Do mogno a Marina: as trilhas do governo Lula”)!

 

Dos seus problemas, o menos grave é a ambiguidade resultante, de um lado, da visão liberal de vários de seus apoiadores e, de outro, dos aspectos cerceadores de sua visão evangélica de mundo. As futuras gerações, quando olharem para trás, lembrarão do nosso tempo como a época em que a Floresta Amazônica foi mais retalhada, perfurada e queimada. Levada a um ponto em que a degradação saiu de controle, avançando sobre suas áreas centrais, para aniquilá-la quase que completamente de forma irreversível. Essa tragédia será lembrada não somente pela perda da beleza cênica ou da biodiversidade fascinante, mas, sobretudo, pelos seus efeitos sobre o clima do Brasil e do mundo.

 

Então, junto dessa questão tão urgente para a humanidade, que é a devastação da Amazônia, com consequências para todo o futuro do planeta, pouco importa se o casamento gay será totalmente legalizado agora ou somente dentro de mais alguns anos. E se a problemática das drogas terá um tratamento mais decente que aquele dado pela polícia ou se essa mudança que inevitavelmente virá ainda demorará alguns anos para chegar ao Brasil.

 

Mais grave são as indefinições de Marina relativas ao que promete ser o seu prato principal: o ambientalismo. Em primeiro lugar, ao invés de enfrentar com todas as forças o problema do desmatamento, ela se focou quando ministra em uma luta infrutífera contra os transgênicos, que resultou, hoje, sabe-se lá no quê. Era uma coisa tão despropositada que um dos seus maiores opositores na época é, hoje, o seu companheiro de chapa. E ela diz que fora mal entendida, que defendia apenas o convívio de “transgênicos e não-transgênicos”. Não é a impressão que eu tinha. O que ficou para mim é que ela se agarrou a esta polêmica para evitar um embate maior e mais complexo, que seria a luta pelo fim do desmatamento.

 

Questionada em um debate recente na televisão quanto aos efeitos econômicos de sua visão de mundo conservacionista, Marina se defendeu dizendo que as principais licenças ambientais dos últimos anos foram conseguidas durante sua gestão no Ministério do Meio Ambiente. Infelizmente, é verdade. Ela liberou autorizações para a construção das hidrelétricas no Madeira, para o asfaltamento da BR-163 e deixou tudo pronto para a aprovação de Belo Monte pelo seu sucessor, Minc, o palhaço-de-coletes. A irresponsabilidade das autorizações do Madeira ficou clara recentemente com as cheias em Rondônia e a destruição feita pelas águas às margens do rio abaixo das barragens.

 

Quando Marina Silva anunciou oficialmente o licenciamento para a pavimentação da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), criando ao mesmo tempo o “Parque Nacional do Juruena”, disse que este seria o “tijolo final” de uma sequência de unidades de conservação e terras indígenas que acompanha quase toda a extensão da divisa do Mato Grosso com o Pará e o Amazonas, supostamente protegendo a entrada da floresta na fronteira dos estados do avanço da frente de desmatamentos. Recorreu a uma metáfora de muro (ver A metáfora do muro) para tentar nos convencer de que os desmatamentos não se alastrariam logo ao longo da estrada por uma área de centenas de quilômetros de largura. Eu já sabia que aquele muro seria mais do que furado.

 

Recentemente, a Folha de S. Paulo (de 31 de agosto de 2014) publicou: “Virou fumaça, ou poeira, o plano BR-163 Sustentável, principal tentativa de Marina Silva quando era ministra de Lula para evitar o desmatamento induzido por estradas na Amazônia. Não se vê outra coisa – além de pó e fumaceira – nos cerca de 200 km que ainda falta pavimentar da rodovia no sudoeste do Pará”. O engraçado é que quando foi lançado o plano, e o negócio era a liberação da estrada, a Folha parecia engolir a mentirinha.

 

Justamente ela, Marina, que lutou no Acre ao lado de Chico Mendes contra a pavimentação de estradas pela preservação das florestas, autorizou a pavimentação de uma das estradas mais danosas para a preservação da Amazônia. Pobre Chico Mendes! Que virou nome de um instituto criado em uma manobra para facilitar os licenciamentos ambientais no que sobrou do IBAMA: o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

 

Mas o mais grave para mim foi seu descaso com Belo Monte, cuja represa alagará terras a menos de 100 metros da minha casa. Logo vi que Marina Silva seria uma decepção para aqueles que tinham esperanças na luta contra a barragem. “Basicamente, ela nunca disse abertamente que as hidrelétricas não são uma alternativa sustentável, e não produzem energia limpa, não sendo uma alternativa inerentemente melhor sob o ponto de vista ambiental do que qualquer outra. Não apenas pelas trágicas consequências ecológicas e sociais, mas porque seus lagos produzem grandes quantidades de metano, um poderoso gás do efeito estufa”.

 

Restringiu-se a algumas críticas sobre a forma como a coisa foi feita, mas, como concluí, “o Serra também fez e nada demais”. Aliás, falando nas eleições 2014, nem mesmo Luciana Genro criticou as barragens em si, cobrando apenas o cumprimento das condicionantes. Pedindo simplesmente que se cumpra a lei assinada pelos barrageiros, a candidata do PSOL não fez nada para conseguir o meu voto no primeiro turno. Saudades do Plínio!

 

Assistindo ao debate da TV Bandeirantes, um pequeno detalhe me chamou a atenção: ao fim do programa, o primeiro assessor que chegou correndo ao lado da candidata me pareceu familiar. Era Tasso Azevedo, com quem tive, nos idos do ano 2000, um debate no Correio da Cidadania sobre a viabilidade (na visão dele) ou não (na minha) do manejo florestal madeireiro em áreas de florestas nativas da Amazônia (ver “Amazônia: negócios e devastação”, meu; “Manejar para conservar”, dele, e “Queda nos desmatamentos?”, meu). Tasso depois tornou-se o diretor de florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), na gestão de Marina, e trabalhou pela aprovação do Projeto de Lei da gestão de florestas públicas, criticado por Rogério Grassetto Teixeira da Cunha em uma série de artigos ao Correio da Cidadania (edições 450 a 456, de 2005).

 

Nesses textos, Rogério demonstrou que o PL tinha problemas fundamentais e deveria não só não frear, mas também contribuir para acelerar os desmatamentos na Amazônia. Dito e feito. Recentemente, Tasso Azevedo, que ainda pouca gente conhece, mas pode ter uma grande importância em um possível governo Marina, tem falado muito menos de sustentabilidade das madeireiras na Amazônia, mas especificamente de clima: de emissões de gases de efeito estufa e seus efeitos.

 

Nesse momento de debates pré-eleitorais eu gostaria de perguntar a ele: “o senhor continua sem temor algum quanto às consequências ecológicas conhecidas da exploração madeireira nas florestas tropicais? Nenhum medo do incomparável aumento de sua vulnerabilidade ao fogo, que tende a se tornar progressivamente um fator mais e mais grave de degradação da floresta amazônica, sobretudo pelo aumento da temperatura e diminuição das chuvas devido ao aquecimento global? E, finalmente, à frente da questão das florestas, o senhor pretende entregá-las amplamente à exploração madeireira mesmo sabendo dos imensos danos causados pela atividade?”

 

Muitos já devem estar se perguntando por que pretendo votar em Marina apesar de ter tantas críticas e decepções com ela na condução da área ambiental. Votarei na Marina porque, se por um lado ela já mostrou que cede às pressões, de outro, a presidente Dilma é a própria pressão, por Belo Monte e todas as hidrelétricas da Amazônia, a pavimentação de todas as estradas e a trágica e destrutiva “ocupação produtiva” de todo aquele espaço.

 

 

Leia também:

‘Se Marina for ao segundo turno, teremos guerra de foice pra ver quem acalma primeiro o capital’ – entrevista com Ricardo Antunes

‘Marina é a terceira via dentro do sistema; não visualiza outro modelo de desenvolvimento’ – entrevista com Jose Correia Leite


Rodolfo Salm é PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Atualmente é professor da Universidade Federal do Pará, por onde desenvolve o projeto Ecologia e Aproveitamento Econômico de Palmeiras.

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Última atualização em Segunda, 15 de Setembro de 2014
 

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