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A tragédia é estrutural, não podemos individualizar e linchar Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Sexta, 05 de Setembro de 2014
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Após condenar massivamente atos de racismo no futebol mundial, nos mais diversos países, o Brasil finalmente se viu obrigado a olhar para o umbigo e tratar de frente mais um caso em seu próprio quintal. Tudo graças à coragem e consciência particulares do goleiro santista Aranha, após ofensas vindas da torcida do Grêmio em sua nova Arena.

 

É preciso ressaltar o mérito particular do goleiro, porque somente neste ano o futebol nacional registrou um bom número de casos iguais, nos quais nada de efetivo foi feito, muito menos alguém punido. A própria torcida do tricolor gaúcho é reincidente, mas não está sozinha.

 

Dessa forma, esta coluna é obrigada a se declarar, pela primeira vez na vida, feliz com uma decisão do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), que ao julgar o caso decidiu pela eliminação da equipe da casa da Copa do Brasil.

 

 

Olhar pra dentro e pra frente

 

Muita gente reagiu indagando se a punição não desataria a sangria no futebol brasileiro, faria pessoas se infiltrarem em outras torcidas para prejudicar determinado clube.  Lembrou-se ainda a hipocrisia do tribunal, principalmente após aparição de postagens de mau gosto, relativas a tal questão, de um dos auditores do caso.

 

Mas nada disso importa, nem agora, menos ainda no futuro, que é para onde devemos olhar quando queremos superar iniquidades cotidianas. "Essa é uma noite histórica, ela não se limita somente ao fato ocorrido, ela atinge um clube com 111 anos de existência, com uma escolinha de 1.100 crianças, das quais 1/3 são de cor. O prejuízo causado ao mais elevado valor do clube, que é a imagem, é irreparável. Se a pena ocorrer, deve ter sentido pedagógico e não ultrapassar limites", disse Fabio Koff.

 

Como diriam os italianos, neste país que tratou suas distintas ondas de migrantes e imigrantes de maneiras nada equânimes, capite? Se o presidente gremista contesta a punição, sua singela declaração de que o clube abarca crianças “de cor” já mostra como ela é justa e necessária, além de escancarar a profundidade cultural da discriminação, seja ela diretamente violenta ou essa que se expressa em sutilezas.

 

A exclusão do Grêmio da competição não deve servir como (mais uma) catarse coletiva, satisfeita logo após tomarmos nota de que a menina que xingou Aranha se deu mal, está sendo processada, perdeu o emprego, não consegue sair de casa etc.

 

Não é de bode expiatório que precisamos. Mas de um novo, e definitivo, parâmetro de como devem ser tratados tais casos. Doa a quem doer. E sem sofismas de ocasião ou a hipocrisia de quem apenas finge se indignar com a discriminação, como se vê claramente no dia a dia brasileiro.

 

Pois já passou da hora de ficarmos revoltados só quando brasileiros ou africanos são discriminados em jogos do Campeonato Russo, Espanhol ou Italiano. Afinal, onde estava aquele “povo bananeiro”, que transformou a ofensa racial contra Daniel Alves, em Villarreal x Barcelona, em campanha de marketing que quase glamourizava a banana atirada ao jogador?

 

Quando se trata de denunciar aquilo que está longe e parece alheio a nossa sociedade, até colunista de revista associada e financiada por grupo empresarial que sustentou o apartheid sul-africano vem dar uma de ativista antirracista. Enquanto por aqui são contra as cotas e negam a existência de uma violenta perseguição do Estado brasileiro aos mais pobres.

 

Não é necessário inundar esse texto de números sobre como os negros brasileiros são tapeados em todas as esferas da vida e têm acesso a uma educação, e consequentemente a empregos, salários, cargos importantes, reconhecimento social, saúde, expectativa de vida, sempre, absolutamente sempre, em taxas menores que os brancos, correto? E que dessa forma habitam os bairros e vilas mais precários e destratados pelo próprio Estado, com sua polícia notoriamente adepta de métodos de tortura, extermínio e manipulação de provas, certo?

 

Nesta mesma semana do julgamento do caso – aliás, não dá pra entender por que a menina concentrou tanto os holofotes se as imagens mostram mais alguns homens fazendo até pior –, circulou vídeo de um pai negro que, após pagar uma compra à vista no shopping, foi enquadrado por policiais ao lado do filho. Pelo menos dessa vez, sua reação indignada triunfou e recebeu apoio das testemunhas.

 

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Recomendações de abordagem da PM de Campinas, divulgadas no início de 2013.

 

Uma reflexão maior

 

O caso que envolveu a torcida gremista, e toda a notoriedade conferida pelo futebol, precisa servir para uma reflexão sobre como, no maior país negro fora do continente africano, é imenso o racismo e as mazelas diárias que produz. Para reconhecer e acelerar o pagamento da dívida histórica, que vem da escravidão, coisa que no tempo-espaço da história não está tão longe assim...

 

Está na moda, mas não nos interessa, nem um pouco, promover um linchamento público ao Grêmio ou à garota, até porque, se tem alguém que tem tudo pra aprender algo, é ela mesma, enquanto muita gente esperta continuará em silêncio. Ou tentará construir teorias cretinas sobre como não há racismo no Brasil, como alguns "chatos" reclamariam, de modo que, por exemplo, as cotas nas universidades e serviços públicos seriam totalmente descabidas nos atuais tempos “democráticos” e meritocráticos.

 

Temos indiscutíveis tensões e injustiças sociais. Estas costumam recair sobre grupos muito facilmente identificáveis em seus traços de cor e etnia. E um dos pontos centrais é que ainda se tem muita dificuldade em reconhecer tamanha obviedade numa sociedade de classes, regida por relações que ainda misturam frequentemente o moderno e o arcaico, o oficial e o paralelo.

 

“É ali que estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo o que não presta, ali está aninhado, e eles têm a direção e o comando do governo”, disse, neste mesmo 2014, o deputado-latifundiário Luís Carlos Heinze, mais um membro da bancada ruralista que monopoliza a atenção do governo e promove uma sempre crescente violência contra povos originários – entre outros crimes que cometem contra o país diariamente, mas que não cabem no recorte deste texto.

 

Foi preso? Claro que não. Continua intocável, mamando privilégios econômicos enormes num país que continua incapaz de promover e respeitar os direitos indígenas. A atual presidente, festejada por ser a primeira mulher no cargo máximo da República, dá guarida total a tais correntes, pois em momento algum de seu mandato aceitou sequer se reunir com os representantes indígenas em Brasília, e claramente considera a política indigenista um “entrave ao progresso”, ainda que não o declare em público.

 

Sem meio termo. O que sofrem os índios brasileiros é uma opressão racial tão violenta quanto a que aflige os negros, senão pior, pois seus modos de vida não são adaptáveis à sociedade urbana, industrial e mercadológica. E nenhum candidato a presidente da República está, neste exato momento, a promover um debate decente a respeito da questão indígena e a necessidade de terem seu pedaço de terra e subsistência.

 

Nem Marina, que cresceu com os povos da floresta, sinaliza qualquer coisa. Só o contrário, uma vez que o agronegócio, capitaneado por figuras como o deputado Heinze, também terá proeminência em um eventual governo seu.

 

Parar de negar a humanidade alheia


Somos um país que não reconhece, simplesmente, a humanidade no índio. Sobra gente que ainda se esforça em desconstruir e desmerecer sua identidade. Mas, claro, jamais questionará a moralidade, por exemplo, do descendente que possui um passaporte que lhe permite circular na Europa como cidadão pleno de direitos.

 

E não nos enganemos. Foi assim também com os negros. Já caíram por terra, mas existiram teorias que alegavam sua ausência de condição humana, associando-os a animais selvagens, o que justificaria a escravidão e tranquilizaria as mentes de seus exploradores.

 

Portanto, seria bom lembrarmos dos primeiros habitantes do país, valiosos em qualquer aspecto que se queira discutir, quando falamos de racismo no Brasil. Aqui, não é apenas com os negros.

 

“Com a homofobia comparada ao racismo, se cantarem 'gaúcho gay' e 'gremista gay', quer dizer que podemos paralisar o jogo. Essa é uma extensão da decisão”, alegou o dirigente gremista Nestor Hein.

 

Lamento informar, mas não é assim. Por isso é bom vivermos atentamente os processos políticos ao nosso redor, ao invés de apenas choramingar sobre a "velha" política.

 

Infelizmente, ainda há uma enorme diferença. Basicamente pelo fato de que o Estado brasileiro já reconheceu de forma muito mais concreta o racismo, tipificou-o criminalmente e o inseriu no Código Penal.

 

Quanto ao projeto de criminalização da homofobia, temos de procurá-lo em alguma gaveta do Congresso. Mas não vamos encontrá-lo, uma vez que, de novo neste exato momento, vemos um show de horrores dos grandes candidatos a presidente em seus pronunciamentos sobre o tema, desesperados em angariar apoio político de uma bancada que introduz, cada vez mais, o fundamentalismo religioso. Além de, descaradamente, incitar o ódio ao povo LGBT brasileiro, o que culmina no deplorável fato de sermos o país que mais registra crimes homofóbicos no mundo.

 

Essa mesma turma, aliás, induz seus fieis a repelirem, com violência até, outras confissões religiosas, leia-se as de matriz africana. Amigo meu está apurando ataques a terreiros de candomblé no Rio de Janeiro e em breve publicará sobre o tema. Posso adiantar que os dados serão de assustar.

 

Porém, para citar outro fato da semana, repercutiu bastante a notícia do menino que foi proibido de entrar na escola (pública) pela diretora, por usar guias de candomblé no pescoço. Teve de mudar de escola, e não se noticiou até agora a demissão da “educadora”.

 

Chegamos a esse estado de coisas porque continuamos miseráveis na reflexão e afirmação dos direitos humanos, sob variadas e até repugnantes justificativas, que no fim das contas desumanizam o outro, como se todos tivéssemos acabado de brotar da terra sem herança histórica alguma a incidir em nossas trajetórias de vida.

 

Comentaristas e jornalistas de sofá, invariavelmente brancos em nossa grande mídia, vociferam diuturnamente contra as classes relegadas do país. Com a eterna alegação de defesa da “família e pessoas de bem”, incentivam toda sorte de violência estatal (ou até paralela, como em casos recentes de linchamento) e agora querem apresentar uma menina qualquer como a grande pária racista do país. Ela nada mais é do que a legítima filha de nossa realidade.

 

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania. Escreve semanalmente e apresenta os programas Central Autônoma e Conexão Sudaca na Central - http://central3.com.br/author/gabriel/#sthash.T293CQA4.dpuf, onde este texto foi também publicado.


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Última atualização em Quarta, 10 de Setembro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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