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‘Se Marina for ao segundo turno, teremos guerra de foice pra ver quem acalma primeiro o capital’ Imprimir E-mail
Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito, da Redação   
Terça, 02 de Setembro de 2014
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A eleição à presidência da República esquenta semana após semana, debate após debate, sempre com novidades que podem incidir no voto de um eleitorado de perfis variados. Para analisar o momento, em que Marina parece nadar de braçada, mas começa a ser acossada pelos outros candidatos, o Correio da Cidadania entrevistou o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes.

 

“Se a Marina for ao segundo turno, teremos um festival eleitoral. O realismo fantástico latino-americano. Como são duas candidaturas com perfis de centro-esquerda, pois Dilma e Marina têm passado de esquerda, teremos uma guerra de foice para ver quem torna ainda mais fluido o seu programa, no sentido de trazer a direita, acalmar o capital financeiro, o capital industrial, o grande agronegócio... A disputa vai ser pesada para conseguir ‘galvanizar’ setores mais refratários, à direita”.

 

Antunes crê que a “candidata verde” terá de mostrar a mesma habilidade conciliatória do postulante original, Eduardo Campos, que em seu arco de alianças conseguia colocar em diálogo setores do agronegócio, muito influentes no PSB, e seguidores da Rede de Marina, desde aqueles afeitos ao ambientalismo, até setores urbanos ávidos pela “nova política”. Sem contar, é claro, a base evangélica, marcada por seu forte conservadorismo.

 

“É esse o desenho, o qual penso não se poder chamar de terceira via, nem mesmo de alternativa reformista. É uma terceira alternativa política frente ao dualismo PT x PSDB. O mais curioso e triste de tudo é que, em termos de programa, todos estão no mesmo diapasão do neoliberalismo”, ressalta Antunes.

 

Quanto ao horizonte posto à classe trabalhadora, o professor da Unicamp não tem dúvidas: “se não houver forte resistência, será devastação”, inclusive com Marina. Antunes lamenta ainda a “espetacular oportunidade perdida” pelos partidos à esquerda da disputa, incapazes de se articularem de modo que as bandeiras levantadas nas manifestações de junho chegassem ao pleito eleitoral com forte apoio social e dos movimentos de “novo perfil”.

 

A entrevista completa com Ricardo Antunes pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Marina é agora a grande ‘novidade’ da eleição. O que pensa do fato em si, de ser ela a escolhida para substituir Campos como candidata presidencial no PSB, após ter sido impossibilitada de se candidatar pelo seu partido, a Rede?

 

Ricardo Antunes: Talvez pudéssemos começar dizendo que, do ponto de vista da coligação PSB/Rede/demais partidos, a morte do Eduardo Campos, em termos eleitorais, acabou gerando uma alternativa eleitoralmente muito mais forte. Campos, por certo, era jovem e lançava a candidatura pra ter seu nome nacionalmente conhecido. Só uma mudança muito grande de rota poderia fazer o nome dele se consolidar em 2014. Já a Marina, não. Ela traz 20 milhões de votos da eleição passada, o que lhe dá um cacife eleitoral forte, como mostrou a pesquisa do Ibope. Em termos de perspectiva eleitoral, ela tem potencialidade.

 

O segundo elemento interessante é que, a tomar pelo que vemos hoje – fins de agosto, início de setembro –, ela jogou a candidatura do PSDB no limbo. A Marina pega o eleitor descontente com o atual o governo, que queria votar na oposição, mas conhece o caráter antissocial do tucanato. Aécio sofreu, portanto, um abalo razoável. A morte do Campos o afetou muito.

 

A candidatura Marina, na substância, é independente de seu passado, bonito, marcado por lutas e grandes batalhas em seu tempo, que a converteram, ao longo dos anos 80 e 90, em líder ambientalista muito qualificada. E, em certo sentido, socialista, em seus primeiros momentos de militância na esquerda e depois no PT, inspirada na relação com o Chico Mendes.

 

Tristemente, como ocorre com muita frequência na história brasileira, alguns dos melhores quadros dos movimentos populares e sociais acabam sendo abocanhados e cooptados pela ordem, pelos interesses dominantes. Em 2010, ela já tinha como vice o presidente de uma grande empresa capitalista, de perfil transnacional, mostrando que já tinha feito um pacto. Sua defesa ambiental se tornava a defesa do meio ambiente feita por setores do capital.

 

Correio da Cidadania: Marina carrega hoje, como não é segredo, estas ambiguidades: dialoga com setores progressistas e avança em alguns temas ambientais ao mesmo tempo em que compõe com a velha política e resvala no messianismo e fundamentalismo religioso. Alguma chance de vir a ser a nova e maior eleita pelo Capital?

 

Ricardo Antunes: Há um conjunto muito amplo de setores do capital que sabe que a “sustentabilidade” (entre aspas mesmo) e a questão ambiental são, entre tantas outras coisas, um imperativo da ordem mundial de hoje. Para ter nome e logo fortes, a empresa tem de dizer-se sustentável. E a Marina adequou sua defesa ambiental a tais setores e às classes dominantes, que demonstram certa abertura à questão ambiental, numa visão estritamente capitalista. Até porque há setores do grande capital, como o agronegócio, que têm uma forte ojeriza a qualquer postura ambientalista, até aquela de sentido capitalista.

 

Marina não tinha um partido, pois sua Rede não foi legalizada, o que lhe colocou, no ano passado, a alternativa de se tornar o suporte eleitoral de um partido que não tinha um candidato forte, o PSB. O Eduardo Campos tinha uma estrutura partidária pequena, mas não desprezível, que cresceu nas últimas eleições. Era um indivíduo altamente qualificado em termos de conciliação; Eduardo Campos conseguia conciliar o grande capital aliado ao agronegócio com uma ex-militante ambientalista e crítica. Seu maior exemplo de capacidade política foi conciliar interesses aparentemente contraditórios ou conflitantes.

 

Com a efetivação da fusão entre Rede e PSB, na qual a Marina preservou relativa autonomia, juntou seu partido ao PSB e fez um acordo com Campos, provavelmente, na melhor das possibilidades, vislumbravam uma boa votação, de modo que ambos, Campos e Marina, pudessem sair com força em 2018. A tragédia do acidente mudou todo o cenário eleitoral. Marina é hoje, em minha opinião, se conseguir a pactuação feita por Campos, entre interesses tão díspares, uma candidata com potencial de vitória (temos de dar o desconto de que ainda estamos a poucas semanas do acidente, portanto, sob influência de alguns elementos não propriamente eleitorais, mas decorrentes da comoção instaurada, fator que já se estabiliza).

 

Imagine o sentido esdrúxulo que tem essa candidatura – aliás, não só essa. O Partido é chamado de Socialista Brasileiro. A candidata é de origem ambientalista. Tal partido, hoje, tem o agrado de setores importantes do empresariado, do agronegócio e é visto com simpatia pelos bancos. O exemplo mais emblemático desta miscelânea eleitoral e programática é a escolha de uma biliardária, herdeira de um banco, para coordenar a campanha de uma ex-ambientalista, que terá de flertar com o agronegócio.

 

É um samba do crioulo doido. É preciso ser justo de que o caso dela não é o único. Há o mesmo samba do crioulo doido nas principais candidaturas. Mas ela talvez o tenha elevado ao patamar do realismo fantástico latino-americano.

 

Correio da Cidadania: Esse ‘samba do crioulo doido’ não poderá, de algum modo,  prejudicá-la aos olhos do capital?

 

Ricardo Antunes: Não a atrapalha, porque a Marina recolhe, ao menos na conjuntura atual, que creio se expressar no primeiro turno, uma parte dos votos dos descontentes com a política tradicional, pois de certo modo conseguiu criar a imagem de não ser uma política profissional, embora tenha sido senadora e ministra por muitos anos. Saiu do PT por divergências ambientais com o governo Lula; no Senado teve uma prática sempre mais próxima dos setores progressistas... Por tudo isso, tem uma imagem na televisão que não é maculada por sua atuação política tradicional.

 

Por outro lado, herda aquele traço evangélico e conservador, que, ao contrário de décadas anteriores, tem peso eleitoral. Ela vai disputar com o pastor Everaldo alguns milhões de votos, que podem ir para o pastor puro sangue ou para uma ex-ambientalista que, nos últimos tempos, tem hipertrofiado e amplificado um certo conservantismo, típico de uma religiosidade que ela tem externado com mais intensidade. Isso também a favorece em sua cata de votos. Agora, está 10% acima do Aécio, de acordo com o Ibope. Onde ela colheu esses 10%? Parte significativa nos votos nulos, brancos, descontentes, que ainda são muitos, mas eram em bem maior quantidade. E, como dito, também começa a fazer, ainda que em proporção menor, um certo estrago nas candidaturas da Dilma e Aécio.

 

Ambientalismo, agronegócio, progressismo e concepção evangélica são partes distintas de um mesmo Frankenstein. Ela vai ter uma campanha dura nas próximas semanas e, digamos, terá de se consolidar como segundo nome. E tenho comigo que, se ela se consolidar assim, e for ao segundo turno, criará uma enorme dificuldade para a reeleição da Dilma. O eleitorado do PSDB migra muito facilmente para a Marina, e não para a Dilma. Pela via conservadora, ela puxa o eleitorado do Aécio. O inverso já não é verdadeiro. Se o Aécio for ao segundo turno, hipótese hoje menos forte (mas vale lembrar que estamos no começo da campanha), o eleitor da Marina não migra diretamente ao candidato mineiro. A parte mais “progressista” dos eleitores da Marina tenderá a votar na Dilma. E o voto conservador tende fortemente ao Aécio. O que quero dizer é que a Marina ganha mais votos do Aécio no segundo turno do que o Aécio da Marina, caso vá o tucano ao segundo turno.

 

Se a Marina for ao segundo turno, teremos um festival eleitoral, o samba do crioulo doido total. O realismo fantástico latino-americano. Como são duas candidaturas com perfis de centro-esquerda, pois Dilma e Marina têm passado de esquerda, seus partidos nasceram pela esquerda ou centro-esquerda, respectivamente, teremos uma guerra de foice para ver quem torna ainda mais fluido o seu programa, no sentido de trazer a direita, acalmar o capital financeiro, o capital industrial, o grande agronegócio...

 

A disputa vai ser pesada para conseguir “galvanizar” setores mais refratários, à direita. Há setores refratários a ambas, setores importantes do capital ainda bancam o governo Dilma, mas muitos desses setores gostariam de ver a volta do Lula e têm reservas em relação a Dilma, que tentará reconquistá-los. A disputa pelo agronegócio, por exemplo, será o leilão da soja; “quem dá mais”, quem cede mais.

 

E, de certo modo, tenderemos a ter também uma certa disputa pra herdar votos da esquerda, seja o voto nulo, branco, o voto na Luciana Genro, no Zé Maria, no Mauro Iasi - enfim, uma quantidade de votos que não será grande, certamente, mas pode ser decisiva. Se 3% ou 4% não são decisivos, não são desprezíveis, porque um segundo turno entre Dilma e Marina tenderá a ser muito disputado.

 

Correio da Cidadania: Diante do quadro descrito, arriscaria o palpite de que Aécio já pode ser descartado para o segundo turno?

 

Ricardo Antunes: Não diria isso. Os debates estão começando, é preciso lembrar que o PSB não tem estrutura sólida, aliou-se ao PSDB em vários estados e capitais, como em São Paulo - outra cena do realismo fantástico. É, no entanto, compreensível uma aliança do tipo, onde é fácil negociar. Do centro para a direita, é sempre fácil a negociação. Mas eu diria que, ainda que não dê por enquanto pra descartar o Aécio,  hoje a Marina é potencialmente mais forte.

 

A eleição brasileira, muitas vezes, tem um traço muito conjuntural. A morte do Eduardo Campos trouxe um elemento conjuntural que mudou todo o cenário eleitoral. Ele estava com muita dificuldade de encostar no Aécio, e a Dilma vinha conseguindo se recuperar, apesar de não andar com boa avaliação.  Porque o povão sabe que, se o governo Dilma é ruim, o governo do tucanato é só porrada nas classes populares. Capaz até de acabar com o limitadíssimo e assistencialíssimo Bolsa Família. Assim, o povo tapa o nariz e vota na Dilma, principalmente onde o Bolsa Família tem grande penetração.

 

Com a Marina, a campanha de que ela acabaria com o Bolsa Família não pegaria, porque ela não tem nenhum elemento político ou ideológico que sugira isso, o que a favorece. Mas é muito cedo para dar o Aécio como carta completamente fora do baralho, por conta do traço de contingência que pode voltar a ocorrer.

 

A Marina vai começar a tomar pedrada, levar cacetada de todos os lados. Uma coisa é ser, como em 2010, uma candidata light da terceira via, sem nenhum projeto de vitória, que queria apenas dar o seu recado. Mas, se for ao segundo turno, não é pra dar recado, é pra ganhar, e aí é tudo diferente.

 

Correio da Cidadania Em algum aspecto, qualquer que seja, há alguma possibilidade de colocar o conjunto de ideias representadas por Marina como uma ‘terceira via’, ou uma alternativa às forças políticas dominantes no quadro atual?

 

Ricardo Antunes: A ideia de terceira via é muito mais uma expressão do que um conceito. Para ficarmos no mais recente, nasceu com o Tony Blair, na Inglaterra, sob o seu governo, para tentar dizer que “entre o neoliberalismo e a socialdemocracia, entre a direita pura e a esquerda social-democrática, é possível um caminho social-liberal”. Para que se tenha ideia, o David Milliband e o Anthony Giddens eram seus principais inspiradores intelectuais, o que mostra até onde foram parar o filho do velho Ralph Milliband e o Giddens, que um dia, nos anos 60, se definiu como marxista.

 

Essa propositura, no fundo, se tornou um ideário e uma pragmática que tinham um discurso brandamente neoliberal, mas agudamente, e sempre, neoliberal na essência. “Vamos pegar o que é bom e excluir o pior do neoliberalismo e da socialdemocracia e fazer uma terceira via”. Mas, como digo, essa terceira via é uma canaleta do neoliberalismo. Tem a via principal e a canaleta neoliberal. Em outras épocas, a terceira via foi de responsabilidade do Partido Comunista e da Democracia Cristã italianos, na época do eurocomunismo...

 

No caso brasileiro, a definição de terceira via não tem uma fundamentação conceitual. É terceira via na medida em que se propõe a romper a polarização PT/aliados versus PSDB/aliados. Ideologicamente falando, a candidatura Marina vai do agronegócio, passa pelos neopentecostais e chega até setores da juventude contrários à política tradicional. Portanto, é esdrúxula.

 

E, por certo, ela não tem um programa essencialmente diferente, nem do PSDB nem do PT. Basta dizer que uma das pessoas que têm falado em nome dela, herdeira de um grande banco, já disse que em seu governo o Banco Central terá autonomia. Ou seja, “banqueiros de todo o mundo, fiquem tranquilos, o saque continuará existindo. Continuaremos sendo o país dos capitais fictícios, voláteis e dos grandes lucros, os maiores do mundo, que o capital financeiro traz aos bancos brasileiros”.

 

É esse o desenho, o qual penso não se poder chamar de terceira via, nem mesmo de alternativa reformista. É uma terceira alternativa política frente ao dualismo PT x PSDB. O mais curioso e triste de tudo é que, em termos de programa, todos estão no mesmo diapasão do neoliberalismo, do capital financeiro, do agronegócio, das indústrias de extração de minérios etc.

 

Correio da Cidadania: Para o mundo do trabalho, a Marina não traria nenhuma novidade positiva, portanto?

 

Ricardo Antunes: Para o mundo do trabalho, mais devastação. Se não houver resistência forte, é mais devastação. Se o Aécio ganhar a eleição, tenderia a incendiar o mundo do trabalho, porque aí é porrada no primeiro minuto depois da posse. Do PT, após dois mandatos de Lula e três anos de Dilma, não se deve esperar nenhuma novidade. A Dilma passou sua administração sem dialogar sequer com o movimento popular que a apoiava – CUT, MST, nem falo da oposição... Ela desdenhou.

 

Quando as rebeliões de junho a acordaram do sono profundo em que estava lá no Palácio do Planalto, de onde ela teve de sair de helicóptero do exército em um dos dias de sublevação, alguém a lembrou de que precisava marcar reuniões com sindicatos, movimentos populares... Depois, até o Movimento Passe Livre (MPL) foi recebido em Brasília, pra ver como a coisa esquentou.

 

No caso da Marina, é preciso reconhecer que ela também tem sensibilidade social, mas é evidente que sua sensibilidade, herdada de seus anos de militância, será confrontada com uma política conservadora. Com uma política econômica também conservadora. E isso trará muitas tensões e prejuízos aos trabalhadores.

 

Correio da Cidadania: Como acredita que partidos políticos e forças populares mais progressistas poderão e deverão atuar nesse contexto?

 

Ricardo Antunes: Bom, isso daria uma entrevista por si só. Tentarei ser compacto: perdemos, mais uma vez, uma oportunidade espetacular, a partir dos levantes de junho de 2013, de construirmos um campo social e político de massas, que pegasse a juventude das ruas, os trabalhadores do novo proletariado de serviços, descontentes, que vivem a tragédia da inexistência do transporte coletivo, de uma saúde pública digna etc., somados aos assalariados que têm tradição de organização sindical, que não estavam presentes nos levantes de junho, mas estiveram presentes ao longo das greves desencadeadas em setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro – de transportes rodoviários, professores da rede pública, garis do Rio de Janeiro...

 

Houve um enorme conjunto de greves. Só pra dar um exemplo, em 2012, a pesquisa do DIEESE já mostra que chegamos a 800 greves. Avaliando a conjuntura de 2002 a 2012, tivemos movimento ascensional. O número de greves de 2013, a ser confirmado, certamente é maior. Em 2014, também deverá ser alto. Ou seja, há um descontentamento latente na classe trabalhadora sindicalmente organizada, na classe trabalhadora sindicalmente não organizada, nos setores mais ligados à indústria, em setores novos da classe trabalhadora (ligados aos serviços urbanos), na juventude, e perdemos a possibilidade – talvez não fosse possível – de pensarmos e construirmos uma candidatura do campo social, popular e socialista, que percebesse na luta das ruas um claro sentido de política anti-institucional e anti-ordem.

 

Os partidos de esquerda – fundamentalmente PSOL, PSTU e PCB – não foram capazes de se unificar. Não tivemos a tranquilidade, clareza, lucidez e bom senso de tentar uma candidatura unitária e fortalecer seus vínculos com os movimentos sociais – seja a juventude presente nos levantes, sejam outros movimentos importantes, como os sem teto, que têm tocado em uma questão crucial, ao expressarem que a sociedade brasileira tem no espaço urbano uma fotografia ampliada da tragédia social que marca o país: a estrutura piramidal.

 

No topo, as classes dominantes não param de acumular. Na base, as classes trabalhadoras são empobrecidas. As cidades são assim. Zonas de condomínios privados, de alto comércio, shoppings, e a periferia sendo expulsa para as periferias das periferias. O acampamento sem teto ao lado do Itaquerão é emblemático, espetacular. O estádio que seria para a periferia encareceu a região e empurrou a periferia para mais longe ainda.

 

E nós, da esquerda e movimentos sociais, não fomos capazes, talvez não houvesse a possibilidade ainda, de construir um movimento que em certo sentido a candidatura do Plinio Arruda Sampaio procurou fazer em 2010. Ainda que não tenha sido uma campanha ampla e unitária como gostaríamos, procurou, dentro de limites enormes, dialogar com os movimentos populares e estudantis, aqueles que sabem não ser mais possível esperar algo do atual governo. Não ocorreu em 2014, e tínhamos a oportunidade de conseguir.

 

Os partidos de esquerda não deveriam lançar suas candidaturas para depois propor alianças. Se um partido lança a sua candidatura, e os outros também o fazem, e todos dizem “quero fazer uma Frente, mas sou o candidato”, já se inviabiliza a possibilidade de uma frente popular e socialista, pela esquerda e com os movimentos sociais.

 

Correio da Cidadania: O que leva a esta incapacidade de união, de avançar ao lado de grupos e movimentos sociais em luta por outro modelo de sociedade?

 

Ricardo Antunes: Sabemos que os movimentos de novo tipo, como o Passe Livre e os sem teto, que emergiram com muita força na última década e estavam presentes nos levantes, têm muita reserva aos partidos. É preciso construir pontes entre os movimentos sociais e populares e os partidos de esquerda que pretendam conexões mais duradouras com eles. Perdemos a chance.

 

Temos bons candidatos à esquerda, mas tais bons candidatos dificilmente poderão alterar com alguma significação o quadro eleitoral. Acho que os pontos mais altos, nesse sentido, foram as eleições de 2006, quando Heloisa Helena foi candidata, noutro momento do PSOL e da história do partido;  e em 2010, quando o Plinio foi candidato, também um momento de contexto diferente. Em 2006, com a crise do mensalão e o PT na lona; em 2010, com o Lula saindo de seu segundo governo, não na lona, mas no céu, com 80% de aprovação. Foram duas candidaturas difíceis. Mas não conseguimos em 2014 sequer chegar aos padrões de 2006 e 2010. É uma pena.

 

As esquerdas terão de refletir sobre isso. São dois desafios fundamentais: primeiro, como soldar pontes efetivas entre as esquerdas partidárias e os movimentos sociais populares, e o conjunto heterogêneo que compõe a nova classe trabalhadora e sua nova morfologia, como digo há tempos. Em segundo lugar, o campo social, popular e socialista tem de redescobrir quais são as nossas questões vitais. Quais são aquelas questões capazes de tocar no cotidiano embrutecido, pauperizado e destroçado da nossa classe trabalhadora, em todos os seus segmentos, grupamentos e desenhos.

 

Quais são as questões vitais capazes de aproximar movimentos sociais de esquerda e os partidos, a fim de pelo menos tentar encontrar uma alternativa à tragédia brasileira. Não conseguimos nem chegar perto disso em 2014.

 

Resta votar naqueles candidatos com os quais temos mais identidade, na “esquerda de esquerda”, mas sabendo que não vamos, infelizmente, conseguir impedir que a dança eleitoral de 2014 seja quase exclusivamente comandada pelos maiores contendores. Temos uma dança de três, que na verdade são partes distintas de um mesmo todo. Com as gradações e diferenciações que conhecemos, como falamos.

 

É evidente que o PT não é igual ao PSDB, que por sua vez não é igual ao PSB/Rede. Mas o que estou dizendo é que a essencialidade de seus programas são os principais interesses dos grandes capitais financeiros (bancário, industrial, volátil e fictício). Afinal, o mundo financeiro controla o mundo comercial e também o mundo produtivo.

 

A esquerda, infelizmente, não avançou no sentido de tentar oferecer, com alguma unidade mais sólida entre tantos grupamentos e movimentos sociais e populares, um caminho na direção de um polo unitário. Acho que demoraremos a alcançar essa situação.

 

 

Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.


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Última atualização em Sexta, 26 de Setembro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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