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ISSN 1983-697X
Pelegos, pressão e reitores amigos: a fórmula do MEC para acabar com a greve nas universidades federais Imprimir E-mail
Sexta, 17 de Agosto de 2012

 

O comunicado oficial emitido pelo MEC mostra que a aposta do governo é sufocar de todas as formas os professores para que acabem com a greve nas universidades federais.

 

A estratégia é clara:

 

  1. Assinar um acordo com os pelegos do Proifes para justificar politicamente o acordo
  2. Pressionar psicologicamente os professores, avisando que a partir de agora não terá mais negociação
  3. Articular reitores petistas amigos de grandes universidades para acabarem com a greve
  4. Se isso não funcionar, parte-se para o próximo passo: corte de salários.

 

Apenas rememorando o que aconteceu.

 

Após levarem um cano em um acordo em março, os professores decretaram greve a partir de 17 de maio. Depois disso, por várias vezes o governo desmarcou reuniões.

 

Depois de praticamente 60 dias, o MEC de Mercadante e Amaro Lins (foto), apresentou uma proposta que apenas repõe a inflação desde 2010. Isso dividido em três vezes, até 2015.

 

A ideia era clara: fazer um acordo de três anos, porque isso evita greves posteriores.

 

Os professores não aceitaram o acordo, pois alguns “bodes” haviam sido colocados, como o aumento das horas-aula em troca de nada.

 

O governo pega a mesma proposta e a apresenta com cara de nova. Tirou os “bodes” e deu R$ 90,00 a mais apenas para os mestres, em 2015.

 

Isso mesmo, a diferença de uma proposta para a outra é um acréscimo de R$ 90,00 para os que possuem apenas o título de mestre. Para os doutores, nada mais.

 

Logo após o fim da reunião, os pelegos do Proifes saíram acenando para a “conquista” da categoria.

 

Novamente rechaçada a proposta pelas assembleias docentes, o governo resolveu dizer que encerrava a negociação e ponto final.

 

Passamos agora para o segundo ponto da estratégia de Mercadante e Amaro: pressionar psicologicamente os docentes, tentando criar um racha com parte dos professores, já que alguns desejam a saída da greve.

 

Antes que alguém pense em culpar estes professores, é bom que saibam que grande parte não gosta de greve, já que é uma desmotivação muito grande para quem gosta da Universidade. Esta parte aderiu à greve porque os salários estão muito baixos.

 

O terceiro ponto da estratégia do MEC começa a dar sinais visíveis.

 

Nas assembleias realizadas na UFPE e na UFRJ, grupos razoavelmente numerosos para assembleias docentes (em torno de 30 professores), resolveram aparecer para “encaminhar pedidos” de inclusão na pauta de próximas assembleias a “saída da greve”.

 

A coincidência (não acredito nelas), é que estas duas universidades têm como reitores petistas ligados justamente a Amaro Lins e Aloisio Mercadante.

 

No caso da UFPE, que conheço bem, pois sou professor de lá e fui o candidato da oposição à atual gestão, o atual reitor não dá um passo sequer sem perguntar a Amaro (ex-Reitor da UFPE) o que fazer, já que ainda deve o mandato ao amigo do MEC.

 

Em um caso sui generis, reúne-se com os professores em Recife e diz que a greve é justa. Pega um avião, vai a Brasília e dá entrevista dizendo que está na hora da greve acabar pois a proposta é boa. Para o Correio Braziliense, disse: “A afirmação do mérito, melhoria do salário inicial da carreira, tornando-a mais atrativa, bem como a antecipação dos reajustes salariais para março do próximo ano, possibilitam enfrentarmos os desafios seguintes de forma concreta”. O mesmo acontece com a UFRJ, cujo Reitor é próximo de Mercadante.

 

E esse movimento para acabar com a greve nas assembleias via articulação das reitorias pode crescer nas próximas assembleias, já que as administrações possuem centenas de cargos comissionados, além de uma capilaridade impressionante junto aos docentes.

 

Neste momento a greve fica em um impasse difícil de ser solucionado: por um lado o governo resolve fechar as portas, por outro sabe-se que a proposta do Andes nem mesmo tem apoio intenso de toda a categoria, já que parte dos professores com doutorado gostaria de uma proposta com ênfase mais meritocrática. Acabou conseguindo a adesão da grande maioria porque o salário está muito baixo. Mas exigir uma proposta unânime neste momento seria pedir demais.

 

Independentemente disso, voltar ao trabalho depois dessa estratégia truculenta e indecente do governo seria o reconhecimento de uma derrota acachapante. Seria aceitar o papel de submisso em uma luta por melhores salários e condições de trabalho, já que profissionais de categorias semelhantes, como pesquisadores do IPEA e Ministério da Ciência e Tecnologia conseguiram carreiras muito melhores no governo Lula.

 

Por incrível que pareça, hoje ganhamos menos que em 1998, no meio do governo FHC. Isso sem falar de universidades cujas salas de aula estão instaladas provisoriamente em galpões ou containers.

 

No próximo artigo sobre a greve irei falar sobre a previsão para o próximo semestre, que é assunto de interesse de todos.

 

Por Pierre Lucena, do Blog Acerto de Contas.

 

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