Mídia e autoridades: revisionismo histórico e submissão nos 50 anos do golpe militar

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O Brasil vive um dos mais efervescentes anos de sua história recente, com um calendário repleto de acontecimentos a serem lembrados no futuro. Entre inúmeras manifestações de conteúdo político, greves, preparativos finais para a Copa do Mundo e a campanha eleitoral que toma corpo, tivemos uma semana monopolizada por atos de memória e protesto sobre o cinquentenário do golpe militar de 1964.

 

Como se pode perceber nos jornais e também nas diversas manifestações em ruas e redes sociais, não houve quem não colocasse seus pitacos em dia a respeito do assalto ao poder dos militares, que apearam João Goulart do cargo herdado do renunciante Jânio Quadros.

 

Em tempos de Comissão da Verdade  - que, apesar de suas limitações estruturais, têm trazido preciosas revelações à tona, como mostrou matéria do site em português da BBC -, era mais que previsível o aquecimento do debate em torno do que foi o golpe e sua contextualização histórica.

 

Ainda temos medo?

 

Em meio a solenidades de celebração da memória dos presos, torturados, mortos e desaparecidos pelos militares, causaram desconforto declarações pronunciadas pelo ministro da Defesa, Celso Amorim, e a presidente Dilma Rousseff, ambas figuras oriundas do campo da esquerda, em suas ilações sobre um passado e presente ainda interligados na memória coletiva.

 

Segundo Amorim, o Estado brasileiro já se redimiu diante dos perseguidos e massacrados resistentes à ditadura, através das indenizações pagas a essas pessoas. Duramente criticado, por dar a entender que compensações pecuniárias tragam plena satisfação àqueles que sofreram na carne com o regime de exceção, esqueceu-se que muitos brasileiros jamais receberam tais indenizações, mesmo quando o Estado reconheceu tal direito - como é o caso de alguns militares contrários ao golpe e camponeses, que tiveram suas restituições suspensas recentemente.

 

Por sua vez, a presidente que militou na Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares, torturada e presa por três anos em sua juventude, elogiou o suposto ‘pacto’ entre as forças oponentes da época, que teria permitido o retorno do país à democracia.

 

Seguiu o exemplo do STF, que, ao validar a Lei de Anistia, promulgada pelos próprios ditadores em 1979, considerou um ‘pacto’ os 206 votos contrários e 201 favoráveis à emenda Dante de Oliveira, que, se aprovada, teria promovido o retorno do país às eleições gerais já em 1985, e não em 1989. ‘Pacto’ que deu a faixa presidencial a Sarney, um dos maiores beneficiários desse triste período, até hoje associado pelo senso comum ao que há de mais nefasto nas práticas políticas nacionais.

 

Não surpreende que tais posicionamentos de Dilma e Celso Amorim tenham desapontado aqueles que até hoje travam batalhas ideológicas e judiciais por punição aos militares.

 

É preciso ver a fundo se essas noções não revelam uma submissão ainda considerável à caserna e aos cães de guarda do regime, até hoje incrustados em esferas do poder, visíveis ou não, além de respaldados por uma mídia que disfarça mal seu apreço pela ditadura.

 

E cabe investigar até que ponto essa possível ‘capitulação’ seria cabível ainda hoje, vez que países como a Argentina desengavetaram velhos processos contra os repressores, rasgaram leis de ‘auto-anistia’ e recolocaram o debate da punição deste passado na ordem do dia, avançando na condenação de vários deles, inclusive os mais altos generais, como Videla (que jamais virou nome de rua ou qualquer local público). E sem nenhuma desestabilização do atual processo político.

 

Punir os militares é uma ousadia que pode custar a nossa própria democracia? Ou a aceitação de sua inimputabilidade revela a acomodação de quem atingiu o máximo poder e hoje participa das principais mediações entre os interesses sociais e um poder econômico que praticamente se apossou da política? É a nossa esfinge.

 

‘Releituras’

 

Como era de se esperar, a mídia que insuflou e festejou o golpe deitou algumas reflexões sobre tal momento, em Editoriais de grande repercussão.

 

Já no ano passado, o jornal carioca O Globo fez um mea culpa, declarando-se arrependido por apoiar o golpe militar.

 

Explica-se: após condenar em letras garrafais não só o início das jornadas de junho de 2013 como também a grande greve dos professores do Rio de Janeiro, em outubro, as Organizações Globo viram uma campanha de cancelamento de assinaturas reduzir em alguns milhares de domicílios a entrega de seu diário impresso. Antes disso, o Levante Popular da Juventude promoveu protesto com 5 mil presentes em suas portas, lembrado pelos quilos de bosta atirados na frente da sede paulista da emissora.

 

A seguir, o maior grupo de mídia do Brasil percebeu que seus profissionais vinham sendo crescentemente hostilizados em coberturas de atos e fatos de rua, com direito a coros entoados sobre sua participação direta nos 21 anos de terrorismo de Estado oficializado (‘a verdade é dura, a rede Globo apoiou a ditadura’). Também saíram dos bastidores informações que davam conta do pé de guerra interno nas redações globais, a respeito do tom dado pelo jornal a algumas manifestações políticas.

 

Já os outros jornalões foram mais tímidos, ou menos sagazes, em suas autocríticas. Apesar de publicarem cadernos especiais sobre os 50 anos do golpe, seus Editoriais pouco ou nada convenceram. Para destacar Folha e Estadão, investiram num revisionismo histórico sem respaldo algum na historiografia documentada, e respeitada, já produzida no país.

 

Como dito, são tempos de Comissão da Verdade, a qual fez vir à tona acusações, vindas de militares da época, de que muitos dos principais comandantes da armada brasileira aceitaram subornos puros e simples para abrirem mão de sua lealdade ao regime democrático. Para não falar das confissões recém pronunciadas em plenário, de militares que admitiram torturas e outras violências indizíveis contra os presos políticos.

 

Enquanto tomamos conhecimento da pesquisa do instituto Ibope, jamais divulgada, de que as reformas de base (motivo prático do movimento golpista patrocinado pelas elites econômicas e sociais do país) e a reeleição de Jango tinham amplo apoio popular, a mídia que firmou seu monopólio de mercado sob a égide da ditadura segue tentando emplacar a tese da “ameaça comunista” e dos “excessos” de grupos, nunca especificados, da esquerda.

 

O coro dos descontentes

 

Enquanto isso, os velhos militantes dos direitos humanos, sempre sob questão no Brasil, ao lado de familiares das vítimas do arbítrio, continuam em sua sina de buscar não só a reparação particular, como o reconhecimento autêntico do Estado brasileiro de sua barbárie, a fim de alcançar o mínimo de punição para aqueles que usurparam o poder e as instituições públicas.

 

Em todas as principais cidades do país, tivemos manifestações de repúdio ao golpe, desfiles e até escrachos em frente a residências dos militares que protagonizaram a repressão, torturas, estupros etc. Como prova de que vivemos outros tempos, as antigas instalações do DOI-CODI em São Paulo, na rua Tutóia, foram ‘invadidas’ por militantes que entoaram a Internacional, e outros atos foram realizados pelas avenidas brasileiras – que, por sinal, tiveram seu ‘trânsito prejudicado’ sem constrangimentos, algo raro até outro dia.

 

Entre a aceitação oficialista daqueles anos de chumbo e o inconformismo das ruas, inclusive a respeito de nossa incompleta ‘transição democrática’, carente de diretos humanos e sociais até hoje, equilibra-se um país que tenta se afirmar no plano global ao mesmo tempo em que passa longe de resolver suas necessidades existenciais e materiais internas. Às vezes, cinquenta anos parecem pouco...

 

Leia também:

Do golpe militar à tentativa de democracia - Editorial

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

Comentários   

0 #1 1964 - Golpe CIVIL/militarEduardo Ayres 03-04-2014 19:51
Sem o apoio de elites CIVIS INTERNACIONAIS e nacionais (capachos!) a quartelada (truculência acéfala) não teria ocorrido... E essas elites ainda estão no poder... Empresas e empresários que apoiaram e sustentaram a ditadura estão ainda no cenário, muitos deles ainda muito mais ricos e poderosos. Penso que a Comissão Nacional da Verdade deva investigar a fundo também a caterva CIVIL e, pelo menos, expor à sociedade brasileira quem são esses tais empresários (e governos) covardes e quais são as empresas envolvidas.
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