Rebelião universitária: a forma e o fundo

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A agitação universitária não pode ser ignorada. De pouco adianta tentar minimizá-la argumentando com adesão minoritária aos protestos. É sempre assim: a combatividade das vanguardas é que desperta as massas.


Certamente, Castro Alves e seus colegas do movimento abolicionista não constituíam a maioria entre os filhos de senhores de escravos que povoavam as duas únicas escolas de nível superior do seu tempo. Quem negará, contudo, que essa minoria anunciava um tempo novo?


Os acadêmicos do Centro XI de Agosto e os cadetes da Escola Militar, que exigiam o voto secreto nos agitados anos vinte do século passado, não faziam igualmente parte da maioria do meio estudantil. Mas eles falavam pelo Brasil-industrial e urbano do futuro para substituir o Brasil-rural e senhorial que se recusava a sair de cena.


A juventude tem essa capacidade de solidarizar-se com o mundo que já está maduro para nascer, mas ainda não consegue furar a casca do conservadorismo, sempre preso aos interesses imediatos e à falta de imaginação para vislumbrar alternativas.


Nossa juventude já "sacou" que a reforma universitária apregoada pelo governo não visa aperfeiçoar a universidade, mas simplesmente ajustá-la ao novo papel dos profissionais de nível superior no atual sistema de acumulação da economia capitalista financeirizada e globalizada.


O que os capitalistas desejam é um suprimento ilimitado de trabalhadores "computer-literate" que poderão ser contratados quando necessários e despedidos quando dispensáveis, sem correr o risco da falta de pessoas capacitadas nos picos de demanda e sem ficar na dependência da força de trabalho do Primeiro Mundo nessas horas.


Mudança no curricullum acadêmico, terceirização de pesquisas, parcerias com empresas, estágios, fundações universitárias, controle de produtividade - toda essa retórica reformista importada está dirigida à formação de um exército de reserva mundial de profissionais de nível superior adestrados nas habilidades requeridas pelo novo capital.


Por isso, atenção! A Reitoria da USP (e agora de mais três universidades) não está ocupada por bandinhos de baderneiros. O juízo que se possa fazer a propósito da propriedade ou impropriedade do meio empregado para extravasar o protesto não deve obstar, nas mentes realmente preocupadas com o país, a interpretação correta do despertar de consciência desta nova geração de estudantes após anos de gerações preocupadas em usar seu período acadêmico unicamente para fazer curricullum para servir o capital.


Os estudantes sublevados estão dizendo à sociedade que é preciso dobrar essa página pobre da nossa História. A sociedade da indústria fordista, do consumismo e da modernização desigual não tem mais nada a oferecer ao povo brasileiro senão "apartheid" social, violência e corrupção.


Inflação baixa, crescimento medíocre e políticas sociais compensatórias podem contentar a maioria despolitizada, mas não têm o condão de inflamar mentes e corações de uma juventude que aspira por grandeza e largos horizontes para seus legítimos sonhos de realização pessoal.


As letras mais gerais da página a ser virada já estão impressas: o que se quer é um Brasil desenvolvido e próspero, democrático, justo, integrado em um mundo finalmente socialista. A alternativa concreta e a estratégia para implantá-lo estão sendo gestadas nas mais diversas horas e nos mais diferentes lugares, inclusive, nas madrugadas frias e insones da moçada que ocupa as reitorias.

 

 

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