“O Brasil precisa olhar para o setor de logística urgentemente”

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No primeiro dia do mês, foi publicada Medida Provisória que renova o subsídio ao combustível, após a poderosa greve deflagrada pelos caminhoneiros em junho. Calcula-se que o custo será de 30 bilhões de reais até o fim de 2018, quando o termina o mandato de Michel Temer. Em entrevista ao Correio, Wladimir Salles, engenheiro mecânico e especialista em logística de transportes, comenta a medida e os gargalos brasileiros em tudo que tange ao setor.

“O impacto será um aumento no déficit das contas do governo, pois os 30 bilhões terão de ser pagos pelo tesouro. Outro risco é que o subsídio acabe sendo repassado para os preços, via inflação. O resultado prático, em minha opinião, será do aumento da incerteza jurídica para o setor de transportes, podendo acarretar a deterioração das relações entre empresas transportadoras e caminhoneiros autônomos”, analisou.

Ao longo da conversa, o professor da FGV-RJ e coautor do livro Gestão de logística, distribuição e trade marketing destaca a urgência em repensar todo o modelo de transportes do país, em especial sua vertente rodoviarista e explica como funciona aquilo que qualifica de “comoditização do frete rodoviário”. Além disso, afirma que políticas de maior prazo, como as que inclusive constam do Plano Nacional de Logística, não só poderiam atacar o histórico atraso como ainda criar um importante ciclo econômico.

“O transporte por ferrovia, rios e marítimo é, comprovadamente, menos agressivo ao meio ambiente, em virtude de uma menor emissão de gás carbônico. A implantação de malhas ferroviária e hidroviária, se bem planejadas, de forma a mitigarem os impactos ambientais na implantação, conjugadas com o transporte marítimo de cabotagem (realizado ao longo da costa), traria um impacto positivo no aspecto ambiental e econômico”, explicou.

A entrevista completa com Wladimir Salles pode ser lida a seguir.

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Correio da Cidadania: No começo de agosto, o governo renovou o decreto que determina o subsídio do combustível de 46 centavos por litro de gasolina, iniciado por conta da greve dos caminhoneiros. Qual o balanço destes mais de dois meses de programa de subvenção?

Wladimir Salles: É um programa de difícil operacionalização, pois depende de diversos agentes econômicos, como governos estaduais, postos de combustíveis etc. Até o momento não podemos perceber o resultado prático do programa.

Correio da Cidadania: Se levado até o final do ano, o custo do programa de subsídio está calculado em 30 bilhões de reais. Quais impactos acredita que poderia ter na economia brasileira? Acredita em alguma vantagem neste esforço político e econômico?

Wladimir Salles: O impacto será um aumento no déficit das contas do governo, pois os 30 bilhões terão de ser pagos pelo tesouro. Outro risco é que o subsídio acabe sendo repassado para os preços, via inflação.

O resultado prático, em minha opinião, será do aumento da incerteza jurídica para o setor de transportes, podendo acarretar a deterioração das relações entre empresas transportadoras e caminhoneiros autônomos.

Correio da Cidadania: Qual o significado mais amplo da greve dos caminhoneiros, em sua visão?

Wladimir Salles: O Brasil precisa, urgentemente, olhar para o setor de logística. Não dá mais para convivermos eternamente com problemas de infraestrutura logística, que custam ao país muito mais que os 30 bilhões aportados no subsídio ao diesel.

Os caminhoneiros são parte de uma engrenagem, que por sua visibilidade e alguma organização, emitiram um grito de alerta.

O valor do frete é apenas um dos muitos problemas a serem resolvidos.

Correio da Cidadania: Como recebeu a notícia da prisão de 8 executivos das três principais distribuidoras de combustível do país - Petrobrás, Raizen (Cosan/Shell) e Ipiranga -, acusados de combinar o preço final do litro do combustível entre si, após operação policial deflagrada em Curitiba?

Wladimir Salles: Não tenho muitos dados a este respeito, mas, se verdadeiras as afirmações de combinação de preço, é um problema gerado pela pouca competividade no setor e ineficiência da fiscalização dos órgãos competentes.

Correio da Cidadania: No ano passado, você escreveu um artigo sobre a “commoditização do frete rodoviário”. O que isso significa, considerando se tratar de um debate estranho ao cidadão médio?

Wladimir Salles: Frete é um tema complexo, que possui elementos econômicos e técnicos, que influenciam o valor final do serviço. O que ocorre é que o tema vem sendo tratado a partir de uma visão de equidade. Ou seja, os tomadores do serviço (embarcadores) tendem a tratar o assunto como sendo sempre igual, buscando sempre o menor valor final, sem considerar as diversas parcelas componentes do serviço, o que gera um achatamento no valor pago.

Correio da Cidadania: Como analisa o rodoviarismo brasileiro a esta altura dos acontecimentos?

Wladimir Salles: A crise vivida no modal rodoviário, da qual a questão do frete é a ponta do iceberg, é fruto da opção errada do uso majoritário deste modal, para deslocamento de cargas a longa distância, em detrimento de outros modais, mais adequados a este tipo de operação, como o aquaviário e ferroviário.

A consequência é que hoje o caminhão é visto como um problema pela sociedade.

Correio da Cidadania: Há um desdobramento ambiental relevante neste modelo?

Wladimir Salles: Sim, e muito grande. O transporte por ferrovia, rios e marítimo é, comprovadamente, menos agressivo ao meio ambiente, em virtude de uma menor emissão de gás carbônico.

A implantação de malhas ferroviária e hidroviária, se bem planejadas, de forma a mitigarem os impactos ambientais na implantação, conjugadas com o transporte marítimo de cabotagem (realizado ao longo da costa), traria um impacto positivo no aspecto ambiental e econômico.

Correio da Cidadania: Você diz no artigo que para a maioria das empresas que vive do frete rodoviário os atuais custos do serviço são inviáveis. Além da precarização da vida do caminhoneiro, isso gera consequências aos consumidores dos produtos por eles transportados?

Wladimir Salles: O impacto é em toda a sociedade, pois temos uma frota com idade média avançada, circulando pelas rodovias e centros urbanos, aumentando o risco de acidentes e diminuindo a qualidade do serviço prestado.

Correio da Cidadania: Quais as soluções para um modelo de produção e distribuição mais barato e sustentável?

Wladimir Salles: A reordenação dos modais de transporte, para readequar o papel do modal rodoviário, que deve ser o integrador entre os demais.

Outro ponto é a efetivação do Plano Nacional de Logística e Transportes (PNLT), no qual são definidos um conjunto de ações de melhoria da infraestrutura logística brasileira e a revisão da matriz de transportes.

Correio da Cidadania: Tal reorganização poderia inclusive ser uma boa fonte de saída para a crise econômica que já leva anos e não dá sinais de esgotamento, não?

Wladimir Salles: Sim, poderia. Equilibrar a matriz modal de transportes, no caso brasileiro, significa, entre outras ações, aumentar a rede atual (extensão em quilômetros) e a oferta (capacidade) de serviços ferroviários e aquaviários, o que em outras palavras quer dizer execução de obras e consequentemente geração de postos de trabalho formais.

Correio da Cidadania: Acredita que os debates eleitorais poderão satisfazer os pontos aqui colocados?

Wladimir Salles: O tema não aparece nas discussões preliminares do debate eleitoral, o que é extremamente preocupante, pois além dos nossos problemas internos, temos compromissos ambientais assumidos internacionalmente, que são diretamente impactados pelo setor de transportes.

Leia também:

“A greve dos caminhoneiros começou a deixar claro o que vamos viver daqui em diante”

A “comoditização” do frete rodoviário de cargas e os custos socioambientais – artigo de Wladimir Salles publicado em abril de 2017.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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