Desmontes

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É de causar espanto como o país se perde em debates inócuos. Em pleno século 21, 140 anos após as bases de ideias de Marx, as disputas acaloradas ainda se dão com base nos conceitos difusos de esquerda e direita. Seria compreensível se as contendas se estendessem para questões concretas, mas o que se percebe é, cada vez mais, a pura ideologia a dominar as disputas.

Enquanto se perde tempo precioso, a sociedade não percebe que, sob disfarçadas intenções ou pelo simples desinteresse por definir trajetórias, o que estamos assistindo é o lento e gradual desmonte de instituições.

Antes que alguém desconfie de que esse texto esconde uma defesa de empresas estatais, é preciso deixar claro que a “instituição” mais ameaçada no Brasil é a percepção das vantagens do “coletivo”. Pode-se dizer que vivemos uma era a favor do individualismo, por mais desvantajoso que seja. Tudo se passa como se a sociedade não se percebesse como tal.

Exemplos? São os mais variados:

•    Previdência pública cedendo espaço ao crescimento do conceito de “seguro” financeiro individual, inclusive com incentivos de isenção de impostos.

•    Saúde pública em declínio, favorecendo seguros de saúde que apresentam custos crescentes. Nesse exemplo, ironicamente, é possível perceber que a ótica financeira privada obviamente rejeita os planos individuais, preferindo os seguros em grupos, pois, ao contrário do poder público, sabe das vantagens.

•    Destruição da capacidade de autofinanciamento do setor elétrico que, historicamente, conseguia gerar internamente parte significativa dos recursos para a expansão.

•    Transformação de reservatórios hídricos, com claros impactos numa coletividade regional, em meras partes de atividades industriais, inclusive com a morte de um rio! Mesmo no caso da energia elétrica, a água é transformada em “mercadoria” mal precificada, onde períodos vantajosos não são capturados pela coletividade.

•    Resistência secular em reconhecer características de monopólio natural em atividades como transportes públicos urbanos. É impressionante a “longevidade” de um serviço público explorado por empresas familiares atuando politicamente para manter um sistema completamente desintegrado e atrasado em relação a exemplos de grandes cidades.

•    Falência da segurança pública, favorecendo o atrativo negócio privado da vigilância e das “grades”.

•    Enormes quantias de recursos públicos destinados para atividades privadas, supostamente em nome de criação de empregos, como se esse método fosse uma obrigação da coletividade e não da empresa que lucra com seu negócio.

•    Educação pública em decadência, favorecendo grandes grupos privados que ainda recebem subsídios para políticas de suporte aos que não conseguem acesso à educação gratuita.

São apenas alguns exemplos. Nenhum desses pontos precisa ser classificado de esquerda ou de direita para que se reconheça a vantagem do enfoque coletivo. Bastaria analisar exemplos de outros países capitalistas que não necessitaram de qualquer ideologia para a solução desses problemas.

Apesar disso, continuamos “deitados no berço esplêndido” da discussão ideológica sem qualquer resultado prático.

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Roberto D’Araujo é engenheiro e diretor do Instituto Ilumina; trabalhou em Furnas, Eletrobras e Petrobras

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