A indispensável Maria Conceição Tavares 

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“Causa-me espanto que nenhum dos principais candidatos à presidência esteja tratando de uma questão visceral como a Renda Mínima, proposta que sempre teve no ex-senador Eduardo Suplicy o seu mais ferrenho defensor e propagandista no Brasil. Suplicy foi ridicularizado, espezinhado por muitos, chamado de um político de uma nota só. Não era, mas, ainda que fosse, seria uma nota que daria um novo tom à mais trágica de nossas sinfonias nacionais: a miséria e a desigualdade”.

Essa é a voz de Maria Conceição Tavares, que o filme Livre Pensar, de José Mariani, traz às novas gerações. Potente, sem papas na língua, propondo aos 88 anos medidas de vanguarda na economia política mundial como a da Renda Mínima Universal. A biografia de uma mulher franca e passional, que fugindo da perseguição da ditadura de Salazar em Portugal chegou ao Brasil em 1954, aos 24 anos, grávida da primeira dos dois filhos, para tornar-se uma grande sonhadora deste país.

“Cheguei achando que encontraria uma democracia e uma civilização original dos trópicos. E continuo querendo uma democracia racial nos trópicos, que era a tese do Darcy Ribeiro. Mas por enquanto não tem, ao contrário, está ameaçada”, diz ela, que assistiu ao suicídio de Getúlio Vargas com seis meses de Brasil.

Maria da Conceição de Almeida Tavares, professora emérita da Unicamp e da UFRJ, notabilizou-se por contribuir à compreensão do subdesenvolvimento brasileiro e dos desafios para romper com essa condição. No filme, é retratada em sua melhor forma, por exemplo ao dar uma aula, o vozeirão com sotaque português e ampla gesticulação – uma espécie de Fernanda Montenegro da academia –, quando passeia pela própria biografia lembrando que estudou matemática e filosofia, e aos 18 anos quase foi “em cana” por estar fazendo seminário sobre Platão em Portugal.

 

“Parece que livre pensar continua sendo altamente subversivo, aqui também. Esse direito, que qualquer um poderia considerar um direito menor, de todos os direitos tem sido o mais recorrentemente violado e sempre provoca, desde a Antiguidade, horror às elites estabelecidas”, declara, em referência à célebre frase “livre pensar é só pensar”, de Millor Fernandes.

Decidiu estudar economia em 1957, ano em que se naturalizou brasileira, influenciada por três clássicos do pensamento econômico brasileiro: Celso Furtado (1920-2004), Caio Prado Jr. (1907-1990) e Ignácio Rangel (1908-1994), que cedo a despertou para o estudo do capital financeiro. Entre os muitos artigos e livros que publicou destaca-se o clássico “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil – Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro”, de 1972.

“O Brasil virou uma economia de rentistas, o que eu mais temia. É necessário fazer uma eutanásia no rentismo, a forma mais eficaz e perversa de concentração de riquezas” – escreveu.

Maria Conceição Tavares tem também uma longa trajetória de ativismo político. Lutou pelas Diretas Já no PMDB do “velho”, deputado Ulisses Guimarães, e foi deputada federal (RJ – 1995 a 1999) pelo PT.

“Minha experiência como deputada foi dramática, foi durante o governo do Fernando Henrique, quando começaram as privatizações. Passei todo o mandato votando contra e fui sistematicamente derrotada, nunca votei com a maioria. Foi muito cansativo”.

Entre 1969 e 1972 exila-se no Chile, onde trabalhou no ministério da Economia do governo Salvador Allende e na Cepal – Comissão Econômica para a América Latina. Volta ao Brasil em 1973, meses antes do 11 de setembro latino-americano, o golpe que derrubou Allende. Defende em seguida duas teses: “Acumulação e industrialização no Brasil”, em 74, e “Ciclo e crise – o movimento recente da Economia Brasileira”, em 78.

“Os destinos do mundo mudaram muito a partir dos anos 80, foram anos de transição para um lugar ruim, que é a tal da globalização, desregulação, neoliberalismo que provocou uma tal instabilidade mundial que é uma crise atrás da outra”, diz em palestra. Em 1995 escreve o ensaio “A retomada da hegemonia norte-americana”.

Ao longo de 60 anos, formou gerações de economistas que se destacaram na vida pública brasileira, de José Serra a Carlos Lessa e Luís Gonzaga Beluzzo. Sobre os que eram jovens de esquerda e tornaram-se homens públicos de direita, diz ela:
“Tem um que ficou insuportável, ninguém aguenta. Sentou na Fazenda ou no Banco Central, o grau de submissão aos mercados globais, à política do dólar do FED, à porcaria do ranking do risco é de tal ordem, que todo mundo cumpre! Ficam todos pirados”.

Sobre esse tipo de pensamento econômico, escreveu que “a economia que não se preocupa com a justiça social é uma economia que condena os povos a isso que está ocorrendo no mundo inteiro: uma brutal concentração de renda e de riqueza, o desemprego e a miséria. E isso está ocorrendo até no norte, não é só no Brasil não – nos Estados Unidos, na França, na Alemanha. E isso pra mim não é economia. Isso é coisa... do demo. Isso é coisa de tecnocrata alucinado que acha que está tudo ok, e não está nada ok”.

Maria Conceição Tavares participou de várias edições do Fórum Social Mundial. Sua fala de 2002, em Porto Alegre, tem lugar especial no documentário. “Se eu não acreditasse com a cabeça, com o coração, com a barriga, não vinha aqui para Porto Alegre falar com um auditório desses aos quase 72 anos. (...) Não sou sábia, sou apenas mais velha, uma militante que não parará até a hora de morrer”.

Sua defesa da renda mínima universal é veemente. “Mais uma vez estamos na contramão do mundo, ao menos do mundo que se deve almejar. Se, no Brasil, a renda mínima é apedrejada por muitos, mais e mais países centrais adotam a medida. No Canadá, a província de Ontário deu a partida no ano passado a um projeto piloto de renda mínima para todos os cidadãos, empregados ou não. A Finlândia foi pelo mesmo caminho e começou a testar um programa também em 2017. Na Holanda, cerca de 300 moradores da região de Utrecht passaram a receber de 900 euros a 1,3 mil euros por mês. O nome do programa holandês é sugestivo: Weten Wat Werkt (“Saber o que funciona”). Funcionaria para o Brasil, tenho certeza”.

Cita ainda o modelo do Alasca, nos EUA, onde desde a década de 80 se paga a cada um de seus 700 mil habitantes um rendimento mínimo cujos recursos vêm de um fundo de investimento lastreado nos royalties do petróleo – mais uma oportunidade perdida pelo Brasil.

“O que temos hoje no Brasil não é uma feridinha à toa que possa ser tratada com um pouco de mertiolate ou coberta com um esparadrapo. O Estado e a sociedade brasileira estão em uma mesa de cirurgia. O corte é profundo, órgãos vitais foram atingidos, o sangramento é dramático. Este rissorgimento não deverá vir das urnas. Não vejo a eleição como um evento potencialmente restaurador, capaz de virar a página, de ser um marco da reconstrução.”

O diretor de Livre Pensar – cinebiografia de Maria Conceição Tavares, documentarista José Mariani, é também autor de O Longo Amanhecer – uma biografia de Celso Furtado, de 2005, produzido a partir de entrevistas realizadas com o grande economista em 2004 – menção honrosa no festival ‘É Tudo Verdade’; e Um sonho intenso, sobre a saga da industrialização do Brasil, de 2014.

Furtado defendia a industrialização como forma de conter o fluxo de riquezas que se esvaíam para o exterior, mantendo-nos na posição de subalternos. É na condição de ministro do planejamento de João Goulart que apresenta ao país seu “plano trienal”, com reformas estruturais que permitiriam ao Brasil, pela primeira vez, superar o ciclo do subdesenvolvimento – nas palavras de Maria da Conceição Tavares sobre o mestre. Com o golpe de 1964, o sonho acabou.

Ver mais:
www.filmeconceicaotavares.com.br 
Inês Castilho é cineasta, jornalista e ativista feminista. Escreve no Portal Outras Palavras, onde o artigo foi publicado originalmente.

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