Um carnaval politizado para um 2018 de alienação

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Sufocado por um desalento que não parece ter data pra acabar, o Brasil e suas principais cidades mergulharam no Carnaval com um ímpeto que gerou uma tempestade de debates para todos os gostos.

O que parece ter ficado em último lugar foi a noção de que o Carnaval ser apreciado por massas em brasa durante uma semana, sem direito a paradas  para descanso, representa a “desgraça que esse povo merece”.

Longe de esfriar, os debates políticos e ideológicos continuaram a todo vapor em meio aos dias de folia. E o histórico estranhamento de distintas camadas sociais ficou indisfarçável.

O caldo que vinha fervendo

Tal politização, ademais, já vinha marcando a retomada da força do carnaval de rua em capitais como Belo Horizonte e São Paulo, cidades altamente disciplinadas pelo uso meramente mercantil de seu solo, vias e equipamentos públicos.

“O carnaval de rua de Belo Horizonte é um sucesso. Em menos de uma década se tornou o principal evento da cidade, um dos maiores do Brasil. Atrai turistas, movimenta a economia. Os blocos se multiplicaram e arrastam multidões. Só que em 2011, me lembro bem, em frente ao número 41 da Av. Brasil estávamos ingenuamente nos divertindo num bloco recém-fundado. Éramos no máximo 500 pessoas, quando a PM chegou com a truculência costumeira e mandou parar com aquela farra pois - em pleno sábado de carnaval - estávamos provocando desordem pública. E não houve conversa, desceram o sarrafo nos foliões que hoje são tratados como gente decente”, relembrou o músico Makely Ka em seu Facebook.

Em São Paulo, para os que viram, foi assim em muitos dos anos recentes. A qualquer momento, um bloquinho que desfilava em pleno sábado ou terça de carnaval sem grandes contingentes podia ser dispersado à base de bombas de gás e abusos policiais.

Talvez a refletir, mesmo involuntariamente, certo cansaço de toda uma geração com as privações cotidianas e rotinas extenuantes, demandas por mais liberdade de uso do espaço público vieram ganhando força ao longo dos últimos anos e entraram para uma agenda que podemos chamar de “direito à cidade”.

Em São Paulo ficou evidente nos anos da gestão de Fernando Haddad, que de fato aceitou a validade deste reclame popular. A reabertura e imediata superlotação da Praça Roosevelt, no centro da cidade, mostraram cabalmente como a carência de espaços públicos livres e gratuitos batia no teto.

“Temos vivido, nos últimos tempos (gestão Kassab) em São Paulo, quase um cerceamento à mobilidade. Medidas como o Psiu!, bares que fecham cedo, entre outras coisas, mostram um cerceamento à boemia. Além disso, há uma série de inquietações da sociedade, de forma geral, o que acaba convergindo. Essa coisa de ‘por o bloco na rua’ pra protestar também está em voga”, já dissera a este Correio o músico Selito SD, um dos animadores do Cordão da Mentira, bloco carnavalesco constituído para, entre outras coisas, exigir punição aos criminosos do Estado durante a ditadura militar.

Desse modo, a formação de novos blocos e aceitação pelo poder público das festas de rua, que espocaram por todos os lados na capital paulista, são expressões cabais de como a mais popular das festas brasileiras trazia consigo elementos de politização.

Para além dos carnavais oficiais, das grandes escolas, inclusive financiadas historicamente com dinheiro público, haveria de se abrir mais espaço para o carnaval menos comercial, sem acesso privativo e com direito a pessoas comuns ganhando seus trocados vendendo bebidas pelas ruas. Ainda assim, os velhos confrontos entre o poder público e autonomia popular se repetem também na hora da festa.

“Os grupos têm se organizado e conseguido por os blocos na rua. Ainda enxergo um problema: estamos falando de uma ocupação da cidade que é bastante interessante, bem vinda, mas que ainda se restringe a bairros mais centrais, no próprio centro ou adjacências. O que sempre me preocupa é o acesso a tais manifestações ser baixo para as periferias. Porém, acredito que a coisa tenda a se expandir para lá também”, alertava Selito.

De encontro, Makely conta o outro lado do carnaval de BH. “Uma marca de cerveja ganhou o direito de se tornar patrocinadora oficial e agora é onipresente na festa momesca. Do botequim de esquina aos grandes palcos, ficou tudo amarelo. É a cor oficial do carnaval por aqui. Mas nem tudo é o que parece. Na tarde dessa segunda-feira gorda, em pleno 2018, com o carnaval já devidamente institucionalizado e privatizado, durante a dispersão do bloco Filhos de Tcha Tcha - após um belo cortejo pela Ocupação Eliana Silva, no Barreiro - a PM chegou sem nenhuma justificativa e agiu de forma truculenta atirando balas de borracha e bombas de concussão, descendo o cassetete indiscriminadamente contra foliões indefesos, incluindo crianças e idosos. Muita confusão, gente ferida, alguns presos. Importante se lembrar que para a PM o carnaval fora da área de ação da Belotur e sem patrocínio da ‘cerveja que não desce’ continua sendo, como era no início, uma atividade subversiva”.

“Não é o caso de acabar com a glamourização do sambódromo e das avenidas principais, mas de ter uma maneira de a população excluída poder assistir a esses eventos também, que realmente têm um apelo popular. A chamada glamourização não tem volta, mas ela exclui, pois existe uma série de ‘eventos precarizados’ que o poder público não incentiva”, avisara Selito.

A politização de 2018

Ainda assim, tal espetacularização, se de um lado é irreversível, de outro não tapa todos os buracos sociais que este país insiste em ampliar. Como mostrado nesta excelente matéria do jornalista gaúcho Luís Felipe dos Santos, o carnaval de 2018, em especial do Rio de Janeiro, resgatou uma faceta de forte crítica social. No artigo, Luís Felipe relembra diversos momentos marcantes do carnaval carioca, desde a era anterior aos desfiles na Sapucaí, passando pela domesticação da ditadura militar e chegando aos tempos de sonhos democráticos e maior liberdade ideológica.

Como todo mundo já viu, o samba-enredo da escola historicamente do grupo de acesso Paraíso do Tuiuti foi o grande e mais contundente manifesto do ano, atacando na jugular o Brasil que se vestiu de verde e amarelo para protestar “contra a corrupção” ao lado das grandes expressões da dominação econômica e exclusão social da história do país.

A ala dos “manifestoches” foi, sem dúvida, de lavar a alma de muita gente e mostrou um pouco de uma visão de mundo sempre afogada nos noticiários a serviço da oligarquia e das contrarreformas do governo mais odiado pela população deste pós-ditadura. Não à toa, a Globo, dona dos direitos de transmissão, se recusou a contextualizar a referência da escola de São Cristóvão.

A mesma emissora, ao falar do excessivo número de furtos nos blocos, tentou falar em “Carnaval da Resistência”. Resta saber de quem e por que. Mas teve mesmo é que engolir uma série de “Fora Temer!” em links ao vivo e brados de todo tipo, até um “Antônio Conselheiro vive!”.

O assédio das narrativas

Apesar de não ter sido o único desfile e samba-enredo carregado de crítica e sensibilidade social pouco afeita ao andar de cima (e também às esquerdas), a vice-campeã carioca (melhor resultado de sua história) será lembrada por todos os próximos carnavais.

Sendo assim, impossível evitar o efeito colateral de ser alvo de todas as disputas narrativas em voga no país, tanto dos “golpeados” que tentam emplacar a conversa de que tudo passou a ser pior somente após a deposição de Dilma, quanto dos “paneleiros”, cuja incapacidade de lidar com a própria contradição e a visão de mundo daqueles que não fizeram parte de suas marchas aclamadas pela mídia do grande capital e frequentada por uma maioria demasiada branca já era de se esperar.

Apesar das referências a Michel Temer como “vampiro neoliberalista”, dos já citados manifestoches e de atacar as reformas antipopulares deste governo, o samba-enredo da Tuiuti fez uma ligação de muito maior amplitude histórica, a falar da escravidão que para certos brasileiros nunca teve fim, ou seja, também perpassou os supostos anos dourados de Lula e Dilma. Um samba-enredo que denunciou o histórico apartheid brasileiro, não a ruptura institucional “entre os brancos do andar de cima”, como, grosso modo, a população que em momento algum aderiu aos protestos puxados pelo PT entende.

"O objetivo era tratar da exploração do homem pelo homem. Não só da escravidão negreira, mas dessa exploração que se estende por séculos, passando pelos egípcios, celtas, romanos e que continua nos dias atuais. Fazer uma pessoa trabalhar uma jornada de 12 horas, como as costureiras, por um salário às vezes abaixo do mínimo e com direitos mitigados, é perpetuar esse sistema”, disse o diretor da escola Thiago Monteiro.

E é neste sentido que podemos interpretar o samba da campeã Beija Flor, analisado por muita gente como “a visão coxinha” dos problemas nacionais. Inspirado no personagem da ficção Frankenstein, cuja criação completa 200 anos, e nomeado “monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, permeado por versos como O alvo na mira do desprezo e da segregação/ Do pai que renegou a criação/ Refém da intolerância dessa gente/ Retalhos do meu próprio criador (...) Ganância veste terno e gravata/ Onde a esperança sucumbiu/ Vejo a liberdade aprisionada/ Teu livro eu não sei ler, Brasil!, o samba tem sutilezas que merecem ser lidas muito além de nossas vontades particulares e afinidades políticas, presentes ou passadas.

Por fim, a Mangueira não deixou por menos e foi com o pé no peito do prefeito evangélico Marcelo Crivella, que cortou verbas de um carnaval altamente rentável à cidade e apareceu com péssima cara nas fotos de divulgação que abrem oficialmente a festividade. Em São Paulo, vale destacar as homenagens de algumas escolas a grandes (e negras) figuras da cultura nacional e aos indígenas.

De volta à labuta, teremos todos de lidar com o deserto de ideias e projetos que assola o país, ainda preso às facções políticas que o arruinaram. Sorte daqueles que tentam manter esse monstro em pé e imune ao protesto. Ou do prefeito que, depois de esvaziar a Virada Cultural, armou um inadequado corredor carnavalesco na avenida 23 de Maio, que liga o norte e o sul da cidade como nenhum outro e é cercado por vários hospitais. Além disso, manteve o contrato da empresa já denunciada pelo MP em 2017 por favorecimento e cujas instalações de câmeras pelas avenidas centrais mataram o universitário Lucas Lacerda Silva, eletrocutado ao se apoiar num poste na rua da Consolação. Mesmo assim, só é confrontado em redes sociais.

A sorte de todos esses é que os próximos meses prometem ser muito mais amenos e despolitizados.

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.  

Gabriel Brito, da Redação

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