O enigma das coisas

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I - OS ENIGMAS

O enigma das coisas pode ser
Um país inteiro.

O enigma das coisas pode ser
Um povo inteiro.

O enigma das coisas pode ser
O rumo perdido.

O enigma das coisas pode ser
A desesperança anunciada.

O enigma das coisas pode ser
A desgraça como recompensa.

O enigma das coisas pode ser
O futuro perdido.

O enigma das coisas pode ser
Surpreendido pelo enigma das coisas...
E ficarmos sem o enigma das coisas...
Ou revelarmos o enigma das coisas
Que guardamos como recurso
À nossa sobrevivência como espécie?...

II - UM CERTO ESTADO DE COISAS

Um certo estado de coisas
Não quer greve, sindicato,
Liberdade e justiça
Eleição e participação
Igualdade para todos.

Um certo estado de coisas
Mira para a direita
Mira para todos os lados...
Mira, mira e seu golpe atira
Um certo estado de coisas.

Um certo estado de coisas
Não quer salário, educação,
Saúde e moradia,
Pão, democracia e igualdade.

Um certo estado de coisas
Quer que assim fique
Porque no peito
Carregam distintivos
Enquanto no peito do povo
Batem a fome e o fuzil
A censura e a opressão.

Um certo estado de coisas
Criou outro estado de coisas
Para manter a situação
Um certo estado de coisas...


III - ATÉ QUANDO?...

O presidente já caiu...
Nas mãos do capital
Ele já entregou o Brasil...

E de mais nada lhe serve o povo,
Se os ricos lhe dão tudo
É porque muito
Falta ao povo.

O Brasil já ruiu...
Nas mãos deles partiu...
Flagelo vislumbra...
Quem caiu foi o povo
Pisado embaixo,
Como sempre,
Vira solado,
Apanha e fica calado...
Até quando vai
Suportar tudo isso?...

IV -TÍTULO DE ELEITOR

Sonhei que peguei
Meu título de eleitor,
Rasguei e joguei no lixo;
Chorava de tanto rir...;
Foi como se estivesse
Me libertando de uma farsa;
Acordei feliz,
Mas apenas constatei
Que a realidade é mais
Real do que o sonho,
Vomitei...
Que democracia é
Essa que 97% da população
Não significa nada?...

V - SONHEI TIPOS DE CRIME

Acordei assustado mesmo
Do sonho que sonhava
Noite adentro...

Queria eu no sonho
Tipificar os tipos de crimes...
Quais poderiam ser cometidos
Sem que me levassem
A cometer crimes
E ainda ficar protegido...

Muitos apareciam,
Rondavam o sonho...
Cada um com sua vantagem
Oculta ocultava o próprio
Tipo de crime...

Assustado e com agonia
Acordei do sono...
Pensei era só um sonho...
Ainda bem...
Recomposto, quis eu lembrar
O final do sonho...
Já que tinha sido um sonho...

Lembrei e os senhores das leis
Diziam do alto de suas significâncias:
Tudo o que você faz
Como indivíduo comum,
Fora da lei é crime...
A menos que você não
Seja um indivíduo comum,
Abaixo da lei.

Já se que não há crime
Que eu possa cometer
Que não seja tipificado
Como crime;
Descobri ser um ser,
Um indivíduo comum;
Sou mesmo feliz,
Tudo não passava mesmo
De um sonho;
Voltei a dormir
Como um pobre mortal,
Como dizem por aí...
Melhor tentar sonhar
Com outro supremo
Porque um certo tribunal
Que se diz supremo...
Anda pisando nas nuvens
Como se fosse tempestade;
Com cada história jurisprudencial...
Que nem em sonho
Dá para acreditar...


VI - LAVA JATO

Lava jato jatinhos
Colarinho branco
Deixam fumaça no ar
Carregando o dinheiro
Do povo rumo à
Brasília.
Pousaram
Contra o vento
E o avião continua
Em pane sobre
Nossas cabeças.

VII - PLANALTO

Planalto alto
Aqui embaixo
Não dá para enxergar
Os corruptos que
Andam por cima
Tentando se esconder
Deles mesmos.
Tem gente fazendo até
Curso federal
E prova do vintém.
O vestíbulo anda
Concorrido...
Ninguém quer
Pagar as contas,
Apenas transferi-las
Para os que chamam de
Contribuintes e as vezes
De eleitores.

VIII - SACOLADA

De tanta mala cheia
Ninguém mais quer
Ser sacoleiro;
Mais gente pensa
Mesmo
Em ser doleiro?...


IX - A CASA DA MOEDA

Dias que não durmo
Eufórico...
Queria eu descobrir
Como participar
Da licitação da compra
E venda da casa da moeda.
Já pensaram
Como é bom imprimir
O próprio dinheiro
Com recursos dos outros...

X - PREVIDÊNCIA

O tal ministro
Que já foi banqueiro
Agora aposentado das finanças
Explica que a previdência
É deficitária... (?$$$?)
(Só não explica que os devedores
Dela devem quase 500 bilhões)
Por isso não pode
Aposentar mais ninguém...
Quer que a previdência
Seja retardatária
Centenária...
Só não explica:
Que graça tem quase defunto
Pleitear aposentadoria?...
Sabe-se lá onde
Em algum lugar
Sobrenatural
Já devem estar
Pensando em abrir um posto
Avançado, tipo de fundo sem
Acionistas e ações majoritárias,
Da previdência celestial
Para receber os infelizes
Aposentados do futuro...

É um projeto virtual mesmo,
É o que está na moda hoje,
E pode ter muito sucesso
Mesmo com a concorrência
Que anda tão em baixa,
Quem receber a sorte
Do tempo poderá
Chegar com pedido
De aposentadoria no céu;
As ações não custam nada
Só há vaga para quem nunca
Parar de trabalhar...
Só que os demagogos
Fazendários...
Não dizem que
Não haverá emprego
Para todos.


XI - QUEM É QUASE FEDERAL?

Sabedoria na fluência
Terminologia na leniência
Firmeza na jurisprudência?...
E nós no jurado
Do lado de fora
Com cara de bobo
Querendo ver
O resultado do julgamento.
A letra j
É inicial
De justiça.
Outras:
Juramento
Julgamento.
Já juízo,
Não é para
Qualquer um;
Tem que ter
Talento...
Nem tudo pode ser
Herdado.

XII - LAVA A JATO

Meu bem
Me lava
A jato
Que eu
Quero ficar
Bem limpinho
Para você
Esta noite.

Nunca pensei
Em ser um
Homem nu
E sujo,
Sendo julgado
Por você.

Já imaginou,
Eu já na meia-idade,
Se é que existe isso,
Com as pelanquinhas
Minhas sujas?...
Dá até desgosto
Só de pensar...

XIII - JANTARES DAS COSTELAS

Mão me venha
Com histórias
De picanhas...
Inda mais
Importadas...

Vocês acham
Que o ser
Mais poderoso
Escolheu a
Costela
Por que não
Sabia o que
Era carne nobre?...

Há por aí
Certa gente
Que gosta
De comprar
Carne nobre
Com dinheiro
Dos outros...
Não é do lombo
Deles
Que saiu o suor
Das costelas...

A sabedoria ensina:
Jamais duvide de
Quem nas costelas
Com o suor do trabalho,
Muitas vezes roubado
E servido em jantares
Com carnes nobres,
Um dia
Pode virar
A mesa...

XIV - O SENHOR MERCADO

O senhor mercado
Santificou a bolsa
E benzeu o bolso
Furado do trabalhador
Dizendo: na crise
Há que se ter
Paciência,
Nós, prato nobres,
Vocês, prato feito.

O senhor mercado
Sobe e desce
Os pontos nas bolsas
De negócios.
Quem é este ser
Que manda tanto
Que nem a federal
Consegue identificar?

O senhor mercado
Tem linha direta
Com o chefe da nação
Até exige dele
O que deve ser
Feito, corrige erros,
E aponta nossos defeitos;
É um ser sobrenatural,
Essa coisa?

Ou é tão preparado,
Todos os dias
Faz a conta dobrada
Leva mais do que deixa
Fala mais do que ouve
Manda mais do que pode
Obriga mais do que obedece
Enquanto o povo padece
Seus governantes
Beijam a mão do mercado e
Sangram a nação?...

O senhor do mercado
Consola os governantes
Seus súditos:
Não se deixem envolver;
Sangue, suor e lágrimas
São obrigações dos
Trabalhadores...;
Já vocês, nossos súditos
Receberão a benevolência
Dos infernos que vão viver;
E se o futuro a Deus
Pertence; nós não temos
O que fazer nessa área.
Como vocês sabem;
Com Deus não dá para
Fazer estudos de mercado;
Só com os diabos!
E aja dinheiro e propina
Para pagar tanta gente...
Vocês acham que nós
Somos o que
Vocês pensam?...
(Só trabalhamos
Por encomenda e
Com pedidos antecipados
E tem lista de gente
Na fila esperando).

Roberto Antonio Deitos é poeta e professor da Unioeste.


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