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Mohamed El Baradei, Prêmio Nobel da Paz e diretor geral
da Agência de Energia Atômica da ONU, acredita que a crise vai acabar. O Irã concordou
em esclarecer tudo sobre seu programa nuclear e permitir inspeções minuciosas em
todos os locais onde a Casa Branca acusa estarem sendo produzidas bombas
atômicas. Só resta algum receio iraniano de que a assinatura de um
sub-protocolo ao Tratado de Não-Proliferação permita ações de espionagem.
O presidente Sarkozy, que falava numa “catastrófica alternativa:
‘a bomba iraniana ou o bombardeio do Irã”, o presidente Bush, que vislumbrava a
3ª. guerra mundial, Hillary Clinton, Condy Rice, Robert Gates e outros falcões,
que insistiam em manter “todas as opções sobre a mesa”, e o vice Cheny, que
pregava “ataques cirúrgicos” contra o Irã - todos eles deveriam estar muito felizes,
certo?
Errado.
Logo que El Baradei reportou o acordo a que chegara
com o país dos aiatolás, Bush apresentou ao Conselho de Segurança propostas de
novas e muito mais duras sanções contra Teerã. Vetadas pela China e a Rússia, o
fiel Sarkozy levou essas medidas terríveis à consideração da Comunidade
Européia, num claro desrespeito à ONU. Embora apoiado pela previsível
Inglaterra, não conseguiu nada diante da oposição da Áustria, Itália e até da
Alemanha. Numa atitude que faria inveja a Blair, seu ministro, o ex-socialista
Kouchner, anunciou, então, sanções pela França mesmo que sozinha.
Não levaram em conta que o Irã estava prestes a
atender precisamente ao que se exigira no início da crise. Aferraram-se ao
bordão “eles têm de abandonar o enriquecimento de urânio”, o que, como se sabe,
é necessário tanto para usos pacíficos ou militares.
A
custo, El Baradei conseguiu um prazo até novembro para que o Irã demonstrasse
de forma irretorquível sua boa vontade, cumprindo tudo o que se havia proposto.
Mas
não se pense que, isto acontecendo, Bush e aliados irão se acalmar. Jamais, pois
seu verdadeiro objetivo é derrubar o atual regime iraniano, estrangulando sua
economia, se possível; destruindo-o militarmente, se necessário. Simplesmente porque
não podem tolerar um Irã forte, desafiando sua hegemonia no Oriente Médio. As
palavras de Nicholas Burns, subsecretário de Estado do International Herald
Tribune, comentando o fornecimento de armas aos amigos da região, não permitem
dúvidas: “Este pacote de armas diz aos iranianos que os Estados Unidos são o
poder maior no Oriente Médio, continuarão a ser e não irão embora”.
As
razões são muitas. Saindo do Iraque, os americanos perderiam fatalmente o
controle do país, que se aliaria aos seus irmãos xiitas, que são governo no
Irã. As imensas jazidas de petróleo, que os americanos pretendem conseguir
mediante contratos que estão tentando impor, poderiam sair de suas mãos. O suprimento
de petróleo do Oriente Médio, vital para os Estados Unidos, não estaria
garantido pela provável hegemonia do Irã na região.
Mas
a principal razão talvez esteja no receio dos desafios à sua hegemonia mundial
partindo num futuro próximo da China e da Índia. Economicamente, a China já
causa não poucos problemas aos Estados Unidos. Politicamente, ela vem se opondo
aos americanos em um sem número de questões. A Índia, que Bush tentou
conquistar com o recente acordo nuclear, já está se afastando, pois esse acordo
está para ser cancelado pelo governo de Delhi. Com amplo apoio popular,
evidenciado em pesquisa realizada em 31 de agosto, quando 70% da população rejeitaram
o alinhamento com Washington.
Ora,
a expansão destes dois países depende fundamentalmente de energia suficiente,
da qual, aliás, são carentes. O Irã, quarto país mundial em jazidas de petróleo
e segundo em gás, pode atendê-los. Além disso, controla o estreito de Ormuz por
onde passa o tráfego de petrolíferos da Arábia Saudita e outros países árabes.
Dominando o Irã, diretamente ou através de um governo títere, os Estados Unidos
terão todas as condições para conter as ambições da China e da Índia.
Para
demonizar o Irã diante do seu público interno, o governo Bush, segundo Larry
Chin, no New York Times, desenvolve uma propaganda que é “...incrivelmente
semelhante à campanha de Hitler contra a Polônia e a blitzgrieg do 3º. Reich,
em 1939”.
Apesar disso, em 26 de setembro, pesquisa da Opinion Dynamics mostrava que 54%
dos americanos querem que Bush deixe o problema para seu sucessor resolver. Não
confiam mais nesse “lame duck”.
Em
novembro, é bem possível que o problema desapareça sozinho, com os iranianos
atendendo às solicitações da Agência Internacional de Energia Atômica, da ONU.
O que poderiam então alegar os decepcionados Bush e falcões americanos e
europeus? Fácil. Aferrarem-se à proibição de enriquecer urânio é uma
possibilidade. Outras seriam as ameaças contra Israel, o apoio ao terrorismo e
aos xiitas iraquianos que “matam our boys”, para citar as mais óbvias.
Todas
altamente discutíveis.
Se
os iranianos admitirem total transparência não há porque proibi-los de
enriquecer o urânio necessário a seu programa de uso pacífico da energia
nuclear. Já foi claramente provado que Ahmadinejad jamais falou em “varrer
Israel do mapa”, pois tal frase foi erradamente traduzida. O Hezbolah, apoiado
por Teerã, não pratica o terrorismo, é um movimento reconhecido legalmente no
Líbano. Usou armas do Irã para defender seu país do invasor israelense, esse sim
municiado pelos Estados Unidos, num ato pelo menos eticamente condenável. Não
está provado que o governo iraniano forneça armamentos às milícias xiitas, mas
isso não seria nada reprovável, uma vez que elas estão em guerra com os
sunitas, inclusive com a Al Qaeda que, por sinal, tem promovido grande numero
de atentados suicidas contra bairros habitados por xiitas.
No
entanto, todos esses argumentos não pesam muito na Casa Branca.
Afinal,
como disse o lobo ao cordeiro: “se não é você que está turvando a água que eu bebo,
deve ter sido seu pai”.
Luiz Eça é jornalista.
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