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Além de
colaborar com o Correio da Cidadania, trabalho em um dos sindicatos mais
vanguardistas do Brasil e num teatro de primeira linha, gerido por um colégio
que educa filhos do topo da elite financeira e intelectual nacional. Nenhuma
das duas instituições (que defendem a reformulação virtuosa da sociedade)
possuem esquemas de separação de lixo visando sua reciclagem.
Além do problema da falta de educação num sentido mais
amplo, as pessoas não parecem dispostas a dedicar-se à reciclagem. Quando você
começa a fazê-lo, precisa começar a pensar sempre em onde colocar cada coisa,
limpar o que pode ser reaproveitado etc. Freqüentemente também não há coleta na
porta de casa, e é preciso se organizar para levar o lixo para um lugar mais
distante.
Venho me esforçando para fazer isso há muitos anos e posso
garantir: não é nada que dê muito trabalho ou que atrapalhe minha vida. Muito
pelo contrario. No caso do lixo orgânico, por exemplo, tenho um ótimo adubo
para o meu jardim. De forma geral, este trabalho é amplamente recompensado pelo
sentimento de que estou fazendo, um pouquinho que seja, para compensar os danos
causados pelo meu consumo e da minha família. Procurando neutralizar minhas
emissões de carbono, para usar um termo da moda.
Mas essa não é
a regra. Apesar de um crescimento na preocupação com a questão ambiental, menos
de 1% dos cerca de 15 milhões de quilos de lixo produzidos por dia pela cidade
de São Paulo vai para reciclagem. Enquanto isso, cinco dos sete aterros
sanitários da metrópole estão lotados. Qual o significado disso? A minha visão
não é muito otimista: parece que a sociedade não entende a gravidade do
problema ambiental. Ou, se entendem, as pessoas não conseguem organizar sua
vida com se tivessem entendido.
Conversei com
os atuais responsáveis pelo lixo da prefeitura atual, do PFL (não consigo
engolir o “Democratas”) e da anterior, do PT. Um empurra para o outro a
falência do modelo de reciclagem, mas ninguém consegue explicar porque ele não
dá certo.
A idéia da
reciclagem começou a ganhar corpo no Brasil no início dos anos 1990. Desde
então, as informações sobre as conseqüências do desequilíbrio ecológico, que
afinal estavam na origem da iniciativa que ali nascia, ficaram a cada ano mais
catastróficas. Falava-se, então, de desmatamento e extinção de espécies, mas
aquecimento global e outros terrores do gênero ainda eram assuntos para
iniciados.
Pois bem, como
explicar que, quase 20 anos depois, e com as subseqüentes e sombrias previsões
para o futuro do planeta, a maior cidade do País, que concentra os grandes
centros da intelectualidade, com as melhores escolas e altos índices de
alfabetização comparativamente aos números gerais do Brasil, não consegue
reciclar nem 1% do seu lixo?
Com algum
esforço não seria complicado reaproveitar uma porcentagem bem maior do lixo
paulistano. Se houvesse uma consciência dos políticos e da população, um
esquema de separação, coleta e destinação dos resíduos poderia resolver o
problema sem grandes crises. Além do mais, lixo reciclável é dinheiro e gera
trabalho e renda para a parcela mais carente da população. É dinheiro indo,
literalmente, para o lixo.
Reparem que
quando falamos, por exemplo, em parar o desmatamento da Amazônia, esbarramos em
obstáculos de difícil transposição, como o imenso território e a dificuldade de
fiscalização. Outro exemplo complicado é a urgente redução da emissão de
carbono por automóveis, tema que encontra forte resistência tanto do poder
econômico, representado pelas indústrias, quanto dos usuários de veículos.
No caso da
reciclagem em cidades como São Paulo, porém, as dificuldades seriam muito
menores. Bastaria boa vontade, tanto de quem deveria separar o lixo como de
quem define os esquemas para sua destinação e planeja programas educacionais de
conscientização – o estado.
Foi
atribuída a Nelson Rodrigues a frase “sem paixão não dá nem para chupar um
picolé”. Talvez esteja aí uma pista a indicar as razões para esta frustrante
marca paulistana de menos de 1%.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
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