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Desde a visita de George W. Bush
ao Brasil, multiplicaram-se os temores de vários setores da sociedade quanto às
conseqüências do aumento da produção de etanol de cana-de-açúcar para o meio
ambiente. A visita fez crescer os olhos dos usineiros, transfigurados nos novos
xeiques do petróleo verde, e também a possibilidade desta "terra tornar-se
um imenso canavial" (repetindo a alusão de frei Betto à música de Chico
Buarque feita na semana passada).
São tantos os dados e as análises
comparando o consumo de combustível de um carro com as necessidades
alimentícias de não sei quantas pessoas, lembrando as péssimas condições de
trabalho no corte da cana (mesmo no estado de São Paulo), a poluição dos rios,
a degradação do solo, as queimadas, os desmatamentos, que fica difícil escolher
um gancho para escrever um artigo original.
Mas chamaram-me a atenção dois
artigos disponíveis no APARTE (um sítio acadêmico “voltado para o debate sobre
os rumos da política econômica e social brasileira e as formas de promoção da
inclusão social”, ligado à UFRJ, www.ie.ufrj.br/aparte).
No primeiro deles www.ie.ufrj.br/aparte/usuarios/colunista.php?apelido=CLESSA),
o professor Carlos Lessa (ex-presidente do BNDES) defende a preservação do
potencial energético brasileiro como estratégia geopolítica para evitar a
subordinação do Brasil às necessidades dos Estados Unidos neste setor. O
professor lembrou nossa vantagem geográfica, que nos confere elevadíssimos
níveis de insolação, a base da energia da biomassa; observou como a produção de
açúcar só se desenvolveu no Caribe no período colonial graças à combinação de
políticas dominadoras com reservas de mercado praticadas pelos Estados Unidos e
pelos países europeus; apoiou a posição do governo Lula de exigir a redução dos
subsídios ao álcool norte-americano e alertou: “nada pior para o nosso futuro
que caminhar para uma arena de apetites imperiais por energia”.
No segundo artigo (www.ie.ufrj.br/aparte/opinioes/opiniao.php?codigo=APARTE_0433), o economista
Marcello Averbug reconheceu a omissão de seus pares no que diz respeito à
questão ambiental, observando que, apesar do aquecimento global estar previsto
há muitos anos, quase nada foi feito pela ciência econômica para “esquematizar
meios financeiros, transformações no sistema produtivo e, de um modo geral, as
políticas públicas” necessárias para se lidar com o fenômeno. O autor definiu a
violência cometida contra o planeta como suicida, e concluiu que as
instituições onde os economistas atuam deveriam dedicar-se a formular e
divulgar propostas sobre como reformar a estrutura produtiva mundial
(transporte, indústria, agricultura e energia) para torná-la menos agressiva ao
meio ambiente.
Os textos em princípio não discordam um do outro, pois,
certamente, no mundo dos desejos do professor Lessa, em que será possível
“combinar produção de cana e soja e libertar os equipamentos mecânicos da
lavoura do uso de combustível fóssil, substituindo-o por biodiesel derivado da
soja associada com a lavoura de cana”, haveria sistemas de financiamento
destinados a reduzir a emissão de agentes poluentes e recuperar áreas
contaminadas, como sugeriu Marcello Averbug. O problema é que o argumento de Averbug
é genérico (e estou de pleno acordo com ele, não há no que criticá-lo),
enquanto que o texto do professor Lessa é específico e defende a atividade
sucroalcooleira que, segundo ele, “tem um balanço térmico
extremamente adequado para o meio ambiente nacional e mundial”.
Apesar
do argumento geopolítico de peso, sou obrigado a discordar do eminente
professor em um ponto crucial. Explico: com “balanço térmico”, ele certamente se
refere ao fato de que,
para cada molécula de carbono eliminada com a queima do etanol da
cana-de-açúcar, foi ou será absorvida uma
molécula equivalente. Desta forma, se os equipamentos da lavoura fossem movidos
por biocombustíveis, fechadas as contas, teríamos uma fonte energética que não
agride o meio ambiente, pois não colabora para o efeito estufa. Certo? Apenas e
tão-somente se olharmos para o problema do carbono de maneira exclusiva, mas a
questão ambiental é muito mais ampla. A conta de emissão e reabsorção de
carbono é atraente pela simplicidade, e pode seduzir os interessados em
reformar a estrutura produtiva para torná-la menos agressiva ao meio sem afetar
o crescimento econômico. Mas a “grande omissão” perdurará enquanto não se
atentar para a natureza específica dos organismos biológicos e suas relações
com outros organismos e com o meio físico.
O balanço do cultivo de
cana-de-açúcar é extremamente inadequado para o meio ambiente, pois deixa resíduos
tóxicos na forma de poluição dos rios, degradação do solo, queimadas e
desmatamentos. Por que colocar os recursos restritos do BNDES a serviço da
cultura de cana-de-açúcar, se temos no Brasil uma gama de espécies mais
produtivas e mais adequadas ao nosso contexto ecológico?
Palmeiras arborescentes de grande
porte podem ser mais produtivas que a cana-de-açúcar na produção de biocombustíveis,
pois esta precisa ser colhida todo ano, a cada ciclo produtivo, deixando o solo
exposto para que as novas plantas desenvolvam sua estrutura fotossintética
praticamente a partir do zero. Palmeiras vivem da acumulação bruta de material
ao longo de muitos anos, como o grande capitalista, enquanto que as gramíneas,
como a cana, são como os operários que sobrevivem da corrida do dia-a-dia,
conforme comparou E.J.H Corner, grande estudioso das palmeiras, em “The Natural
History of Palms” (a cana tem que investir todo ano em caule, folhas etc., enquanto que as palmeiras,
por serem perenes, depois de desenvolvidas têm um investimento muito menor
nisso).
Já
o botânico russo Gregório Bondar, especialista nas palmeiras brasileiras,
descreveu o seu fruto como um carvão mineral que cresce em árvores, sem a mina
nunca se esgotar. De suas sementes podem-se produzir óleos que facilmente
substituiriam o óleo dos motores a diesel. É possível também produzir a um
custo modesto carvão a partir da parte dura dos cocos e coquinhos, carvão esse que
pode ser vendido para a indústria
siderúrgica e as companhias de navegação e de transporte ferroviário.
Investindo nas palmeiras, em
detrimento das espécies anuais, nunca seríamos “amaldiçoados pelo sol” — o que
pode ser dito da cana-de-açúcar e da soja, dada a extensão dos estragos
ambientais causados por seu cultivo —, como os povos do Oriente Médio
podem dizer que são “amaldiçoados pelo petróleo” (como bem observou o professor
Carlos Lessa), dada a extensão dos conflitos que se desenvolvem em sua região.
Os muitos milhões de hectares de
florestas já desmatados do Brasil, se reflorestados com palmeiras nativas (que se
dão muito bem em áreas degradadas), além de recuperarem o ambiente,
produziriam uma quantidade de óleo e carvão que nos colocaria,
estrategicamente, na liderança isolada do comércio mundial de biocombustíveis,
com soberania, autonomia e, melhor do que sem danos, com recuperação ambiental.
Alternativa
à monocultura canavieira que seja social e ambientalmente muito mais
interessante há, mas a julgar pelas declarações, um tanto bizarras, digamos, do
presidente Lula, alçando os usineiros à categoria de “heróis nacionais”, parece
mesmo que o ideal desta terra é de fato tornar-se um “imenso canavial”.
PS. O que aparentemente também está bem
para frei Betto (que diz que a nossa “alegria nacional [...] está ameaçada de
se transformar numa grande tristeza nacional caso o governo federal não tome, o
quanto antes, severas medidas para impedir que o país se torne um imenso
canavial em
mãos estrangeiras” e que “o
mínimo que se espera do presidente Lula é que siga o exemplo de Chávez e
defenda os interesses nacionais”), desde que seja
um canavial 100% nacional. Discordo. O que se esperaria de um bom presidente
seria o desenvolvimento de alternativas e a contenção da expansão do canavial,
esteja nas mãos de brasileiros ou estrangeiros.
Rodolfo
Salm, doutor em Ciências Ambientais pela Universidade de
East Anglia e pela Universidade Federal de São Carlos, é pesquisador do Museu
Paraense Emílio Goeldi.
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