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O caos é a boca aberta, de pasmo, de medo, de sono. É
o abismo, a sensação de queda, a perda do chão, a indecisão. O caos é terrível,
se não formos melhores. O caos é o fim, ou o começo.
Daí a necessidade de uma atitude caótima. O caos é
caótimo se soubermos reativar as nossas possibilidades — a energia estrangulada
pela inércia.
O cosmos nasce do caos. Mas o cosmos não é fruto do
acaso. Do caos nada vem, se nada se faz. Todos, ao acordar pela manhã,
sentimo-nos caóticos. Olhamo-nos no espelho, e o espelho nos denuncia a face
confusa, o olhar emergindo há pouco dos mares do sono. Os homens fazem o que
podem. As mulheres não se resignam jamais. Diante do caos matinal
transformam-no em cosmos, utilizando os seus cosméticos!
Os livros da minha biblioteca estão caoticamente
distribuídos. A única ordem que conhecem é a falta de ordem. Sei que tenho no meu
escritório mais de 5 mil títulos. Eles me envolvem como uma tenda, e dentro
dela sinto o influxo caótimo das palavras desses autores todos. E sempre
encontro o livro de que preciso.
Pessoas que sofrem de normalpatia fogem da convivência
com o caos. Querem destruí-lo, e são engolidos pela força que dele emana. O
caos engole os medrosos, os que não sabem desbravar o bravo caos. O caos tem
suas próprias regras. E são rígidas.
A educação brasileira encontra-se em situação caótica.
É curioso ver com que espírito de organização definimos os números da
calamidade. O brasileiro lê em média 2 livros por ano. Um no primeiro semestre.
Outro no segundo. Mas não me perguntem os títulos desses 2 livros! E esta é a
média... o que significa que milhões não lêem nada.
Segundo o IBGE, entre os brasileiros maiores de 10
anos, 9,6% são analfabetos. Mas não são estes apenas a puxar para baixo o
desempenho do leitor brasileiro. Os não-leitores mais problemáticos são os que
não lêem, embora saibam ler. São os alfabetizados que não gostam de ler, e até
se orgulham disso...
Este caos é caótimo, se imaginarmos meios para
transformar os brasileiros num povo de leitores compulsivos. Para lermos em
média 7 livros por ano (como na França), não bastará tirar 14,9 milhões de
brasileiros da caverna desletrada. Você, eu, todos nós precisamos ler mais. E
ler melhor
Gabriel
Perissé é doutor em Educação pela USP
e escritor.
Email: www.perisse.com.br
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