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cada semana que passa, o brasileiro que acompanha a vida política nacional
percebe que tanto a corrupção quanto o processo neoliberal avançam impunemente
em nosso país. São acontecimentos amplamente divulgados pela mídia, mas com
dupla interpretação.
A
corrupção oficial é denunciada como crime contra o povo pela mídia, que se
apresenta para o público como defensora da ética e, neste caso, sem dúvidas,
contribuindo para que a baixaria praticada por “representantes do povo” venha a
público, seja do conhecimento nacional. Tal fato vem gerando o crescimento da
decepção, da descrença popular nas instituições nacionais. Se já não bastassem
as sacanagens praticadas pelos deputados e senadores nos casos do “mensalão”;
dos “sanguessugas”; das compras de votos dos congressistas para que aprovem
reformas nocivas ao povo - mas favoráveis ao grande empresariado; se não
bastasse a corrupção e a dramatização do caso Renan Calheiros, que terminou
obviamente em “pizza” – fato que paralisou o Senado por cerca de dois meses -,
agora entra em cena midiática um novo dramalhão, que envolve os tucanos,
inclusive seu chefe mor, o FHC, finalmente também envolvidos nessa história do
“valérioduto”, conforme denúncias de um outro tucano, portanto de um
correligionário e não de um opositor.
E
isso vai ocupar a vida do Congresso Nacional (e do Executivo) por mais alguns
meses - mantendo-o inócuo como de costume. O povão será entupido de falsos
debates, de denúncias e desmentidos, de justificativas que nada justificam,
procurando mostrar que, de fato, lá em cima quase todos se igualaram na
baixaria, enquanto que os verdadeiros planejadores e manipuladores dessa
canalhice são mantidos ocultos: os
agentes a serviço do capital, os corruptores por excelência. Porém, essa
manipulação das informações é feita com tal manha, com tal picardia que o povo
vai se acostumando e se adaptando à realidade e a considerando normal, pois
“todos fazem e sempre fizeram”.
Essa
postura popular interessa ao capital, já que lhe permite “arranjar”, armar uma
disputa entre partidos e grupos, cada um falando mal do outro, cada um
procurando dizer ao povo que é menos corrupto, que é melhor opção para governar
o país. Assim, mesmo decepcionados, os eleitores vão de eleições em eleições
escolhendo os supostos “menos ruins”, o mal menor para futuros governantes, beneficiando
os poderosos.
Por
outro lado, a mídia revela também fatos indicativos de como a política
neoliberal vai tomando conta do país. Porém, o faz como fato altamente positivo
para a Nação, procurando “incucar” no povo que esses avanços são necessários e
possibilitarão o desenvolvimento do país, para que haja crescimento da
economia, para que a população possa, um dia talvez, ter sua vida melhorada.
Como exemplos mais recentes, temos o discurso de Lula na ONU tentando “vender”
a idéia de que a saída energética para o mundo industrial é o etanol, aquele
etanol (álcool) que o Brasil será capaz de produzir em escala para consumo
mundial e que irá diminuir os índices de poluição da atmosfera.
Essa
obsessão lulista é de importância estratégica para a indústria brasileira do
álcool, que vê na exportação massiva do etanol o crescimento abusivo dos seus
lucros. Do seu lado, o governo vê na possível entrada de dólares a grana
necessária para “cumprir” os compromissos com os serviços da dívida. Enquanto
Lula tenta convencer governos a investir na cana brasileira, o Ministério do
Trabalho (através da Secretaria de Inspeção do trabalho) suspendeu por tempo indeterminado as ações do Grupo Especial de
Fiscalização Móvel, responsável pelo combate
ao trabalho escravo no país, pois
as inspeções revelam a existência desse tipo de trabalho, especialmente nas
fazendas produtoras de cana. Tal
revelação poderia criar ressalvas na ONU.
Assim,
um ministério de Lula cede à pressão da bancada ruralista (deputados e
senadores ligados ao latifúndio), cometendo mais um crime hediondo contra os
trabalhadores. Curiosamente a mídia foi omissa ante esse caso. Em
contrapartida, faz loas aos trabalhos para a transposição do rio São Francisco
(destinada à produção do agronegócio), sobre as leis que permitirão privatizar
a Amazônia, transformado-a também num imenso canavial. E assim, de gomo em
gomo, como na fabricação da lingüiça caseira, o Brasil vai sendo jogado no colo
do neoliberalismo.
E
nisso está o farisaísmo midiático: usa dois pesos e duas medidas, conforme os
interesses do capital, principalmente do capital internacional. No caso da
corrupção, interessa denunciar para domesticar os governantes corruptos e
garantir que eles continuem no pseudo-poder, porém fazendo a vontade dos que
lhes financiaram e financiam as campanhas eleitorais: o capital todo poderoso.
No caso da entrega do país para o capital neoliberal, engana o povo mal
informado, convencendo-o que mais adiante há uma linda ponte para a felicidade
e não um abismo para o inferno.
E
tem gente que não quer enxergar o desastre total que se avizinha e se acomoda
defendendo o indefensável!
Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral
Operária da Arquidiocese de São Paulo.
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