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Na história da humanidade, a
ignorância, seja a ingênua, seja a mal intencionada, tem sido responsável por
muitas tragédias, das epidemias às guerras. É isso que me vem à mente, ao ler
certos artigos a respeito da utilização, em escolas públicas e privadas, do
livro didático "Nova História Crítica", supostamente de "viés
marxista" ou "comunista".
A partir daí, esses
articulistas afirmam que a literatura dominante nas escolas médias brasileiras
é de tendência socialista e fortemente anticapitalista. Seus exemplos mais
fortes seriam, além da "Nova História Crítica", o antigo texto de Leo
Huberman, "A História da Riqueza do Homem". Aparentemente, eles
apenas pretendem mostrar que tais textos estão ultrapassados, são mentirosos e
"ideológicos", correspondendo apenas a equívocos juvenis.
Suponhamos que seja verdade
que tais textos estejam superados. Suponhamos, mesmo, que eles contenham
mentiras, possuam forte viés ideológico, e estejam carregados de equívocos.
Mesmo que tudo isso fosse verdadeiro, por que sua leitura, ou a transmissão de
seu conteúdo, não deveria mais ser tolerada? Só porque viveríamos numa época em
que o capitalismo estaria demonstrando toda a sua "pujança e capacidade de
gerar bem estar"? Isso não seria romper com toda a defesa que fazem da
liberdade de expressão do pensamento?
Fingindo atacar o conteúdo
desses livros, o que esses articulistas pretendem é proibir que os jovens leiam
e debatam qualquer conteúdo que ponha em dúvida a "pujança e capacidade de
gerar bem estar" do capitalismo. Por isso são capazes de fazer a afirmação,
sem qualquer comprovação empírica, de que os livros de teor socialista seriam
predominantes nas escolas médias brasileiras. O que não passa de uma tentativa
canhestra de intimidar, tanto os autores de "viés marxista",
"comunista" ou "socialista", quanto pais e professores
ainda avassalados por preconceitos sobre essas correntes de pensamento.
Para quem pretende uma
educação democrática e que estimule o senso crítico, pouco importa que livros
como a "Nova História Crítica" e "História da Riqueza do
Homem" tenham abordagens "marxistas". Como pouco importa que
textos de Oliveira Viana e Joaquim Nabuco possuam fortes conotações
monarquistas. Ou que os textos econômicos de maior predominância nas escolas
brasileiras sejam de autores de correntes liberais e neoliberais. O que importa
é que os alunos possam confrontá-los com a realidade do Brasil e do mundo, sob
dominância capitalista.
Se o marxismo morreu, o
socialismo naufragou, e o comunismo não passou de uma quimera, por que temer
que livros que se referenciam nessas correntes façam "mal" à
juventude? Simples ignorância, ou medo de que os jovens descubram todos os
aspectos da "pujança capitalista"?
Wladimir Pomar é escritor e analista político.
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