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O destino cria coincidências
e fica à espera de que alguém as perceba. Esse alguém se sentirá inteligente ao
descobri-las, iludido pela convergência de informações...
Recentemente, dei-me conta
de uma pequena coincidência que, insignificante, chamou-me porém a atenção, na
falta de profundas reflexões sobre temas como o aquecimento global. A
insignificante coincidênca de três escritores/pensadores do século XX morrerem
em acidentes envolvendo automóveis.
Albert Camus morreu em
janeiro de 1960, aos 47 anos de idade, num acidente de carro. O veículo era
dirigido em alta velocidade por seu editor Michel Gallimard. Camus estava ao
lado do motorista. Chocaram-se contra uma árvore. No banco traseiro, a esposa
de Gallimard, a filha do casal, e o cão da família. Mãe e filha se salvaram. O
cão nunca mais foi visto. Michel Gallimard, gravemente ferido, morreu dias
depois.
Para Camus, costumava ele
dizer aos amigos, não havia nada mais absurdo do que morrer num acidente de
automóvel. Coincidência paralela... Ayrton Senna nasceu dois meses depois da
morte do grande escritor, em março de 1960.
Duas décadas mais tarde, em
1980, morria Roland Barthes, vítima de atropelamento. No dia 25 de fevereiro
daquele ano (dia nublado), a caminhonete de uma lavanderia o atingiu. O
pensador atravessava tranqüilamente a rua des Écoles, diante do Collège de
France, onde ocupava a cátedra de semiologia literária. Hospitalizado durante
um mês, faleceu no dia 26 de março. Não estaria atento ao semáforo o genial
semiólogo?
O filósofo tcheco Vilém
Flusser viveu no Brasil nos anos 40-60. Naturalizou-se brasileiro, mas na
década de 1970 voltou para a Europa. Morreu com 71 anos de idade, em 27 de
novembro de 1991, um dia após ministrar brilhante conferência sobre mudança de
paradigmas da ciência, no Instituto Goethe de Praga. Numa estrada de sua terra
natal, seu carro colidiu com um caminhão branco em meio a forte neblina.
Uma quase-coincidência em
1999: Stephen King por pouco não morreu atropelado. Atravessava uma rua, quando
um motorista, distraído pelo rottweiler que se agitava no banco traseiro do
carro, não viu King e o arremessou longe. Bastante ferido, com múltiplas
fraturas, o escritor norte-americano, habituado ao terror fictício, passou por
várias cirurgias. Recuperado, usou em livros posteriores a experiência
traumática.
Tudo isso por quê? Eis uma
crônica meramente informativa, que comecei a escrever no último dia 22 de setembro — Dia Mundial Sem Carro.
Gabriel
Perissé
é doutor em Educação pela USP e escritor - Web Site: www.perisse.com.br
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