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Enquanto escrevo este texto, a Aliança dos Povos da Floresta
promove, em Brasília, o 2º Encontro Nacional dos Povos das Florestas. O
encontro anterior – ocorrido em março de 1989, meses depois do assassinato do
líder seringueiro Chico Mendes, um dos principais entusiastas do encontro e da
formação da Aliança - foi um evento histórico.
Chico Mendes tornou-se mártir da luta pela preservação da
Amazônia e as questões ambientais têm recebido atenção crescente da imprensa.
Apesar disso, os grandes veículos de comunicação praticamente ignoram o
acontecimento. Por quê? Mais: o que índios e seringueiros têm em comum, além de
tradicionalmente ocuparem a região amazônica e lutarem contra um inimigo comum,
representado pelo capitalista dos setores da mineração, da pecuária e da
agricultura industrial? O que pode sair de realmente novo de um encontro destes
grupos na capital federal, sede do poder estabelecido daquele mesmo
capitalista, e financiados, em última instância, pelo capital?
A Aliança, rede composta pelo Grupo de Trabalho Amazônico,
pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira e pelo
Conselho Nacional dos Seringueiros, representa mais de 1.100 organizações das
florestas brasileiras e esteve desarticulada durante todos estes anos. Não são
muito claras as razões deste longo intervalo. Possivelmente a falta de outras
afinidades, além da luta contra aquele inimigo genérico comum, explique esta
desarticulação. Talvez a pulverização e o grande número de entidades, somados
às dificuldades de deslocamento na região amazônica sejam outros fatores.
De toda forma, pelas declarações de seus líderes, os
integrantes aparentam ter compreendido, ao menos no discurso, a importância de
somar esforços “em defesa da preservação das florestas, sobretudo para as
gerações futuras”. Resta-nos perguntar então: serão todos esses grupos
realmente preservacionistas? Ou a união é simplesmente o resultado inevitável
da luta desigual contra o enorme poder do capital, carecendo, assim, de um
embasamento mais sólido que sustente uma ideologia comum? O que fariam estes
mesmos povos de posse de recursos materiais comparáveis aos dos capitalistas do
sul? Seria injusto dizer que repetiriam a história de devastação atual?
Os porta-vozes do encontro apontam como uma grande
preocupação o avanço da monocultura de soja e da pecuária sobre o Centro-Oeste
e o Norte do país. Incluem na lista também as obras de infra-estrutura
previstas para a região pelo PAC. Os temas a serem discutidos incluem ainda
conhecimento tradicional, comércio justo, biodiversidade, redução da pobreza e
aquecimento global.
Chamou-me a atenção, no site oficial, o texto com os
objetivos do encontro, que reproduzo a seguir, na íntegra:
- Plantar
conhecimento para fazer reencontrar o destino das florestas brasileiras
com o coração esperançoso dos que lutam e trabalham pela continuidade da
vida no nosso planeta terra.
- Gerar
diálogos entre nossas gentes, nossas sociedades, nossas empresas e nossos
governos para fazer crescer o fio d’água que haverá de reinventar as
vertentes de um modelo de desenvolvimento socialmente justo,
economicamente viável e ambientalmente sustentável.
- Ampliar
alianças para fazer brotar na Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica,
Pampas e no Pantanal - no que sobra de florestas no chão do Brasil - uma
geografia da razão voltada para manter vivas as nossas florestas para as
gerações presentes e futuras.
Testemunhamos hoje os principais líderes mundiais perdidos
com as notícias sobre as conseqüências do aquecimento global. Muitas reuniões,
muita tentativa de acordo sobre os valores das reduções na emissão de carbono,
mas muito pouco (ou nada) de propostas concretas sobre como promover essa
redução na prática, que é o que realmente interessa. Terão estes povos
propostas originais e novas respostas para o grande desafio da humanidade?
Escutar com carinho e atenção o que será debatido neste
encontro e conceder um olhar cuidadoso aos frutos das reuniões agendadas seria
uma decisão sábia. Frutos que esperamos serem realmente novos, que possam ir
além do óbvio que já se sabia antes do encontro, e que fujam das generalidades
como as apontadas acima. Se não, corremos o risco de que a simples realização
do encontro seja apenas mais um argumento do poder constituído, que teria mais
uma desculpa para se auto-afirmar como uma democracia de fato, onde todos
teriam direito a voz. Em outras palavras, um resultado inócuo de um encontro
com um significado tão forte pode fortalecer aqueles que insistem na perpetuação
do modelo atual.
Espero que as reuniões possam trazer novas pistas que
nos indiquem caminhos para sair deste labirinto onde estamos metidos e do qual
ninguém até agora parece ter a mínima idéia de como sair. Aguardemos os
resultados.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
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