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Para esclarecer aos nossos leitores a atual situação
vivida na Colômbia, o Correio da Cidadania entrevista o colombiano
Pietro Alarcón, representante no Brasil do Comitê Pela Defesa dos Direitos Humanos da Colômbia e professor da Faculdade de Direito da PUC-SP, que debate a questão do paramilitarismo, das guerrilhas e dos
reféns resultantes do conflito armado, analisa os projetos do presidente Álvaro
Uribe e vislumbra eventuais propostas para o estabelecimento de uma paz
duradoura no país.
Alarcon ressalta a legitimidade histórica e política
dos movimentos insurgentes colombianos, mediante a avaliação de que o tema
colombiano implica no reconhecimento de que em seu território se registra um
conflito social e político armado. “Nesse sentido, as forças em combate agem levando
em conta a lógica militar, que supõe a retenção de pessoas de um lado e de
outro. Esse é, infelizmente, o quadro”.
Para Alarcon, a alternativa governamental nesse quadro
tem sido, desde o início, a de negar que na Colômbia exista um conflito armado,
com o fim de implementar a força, aumentar o orçamento militar, justificar a
presença cada vez maior de assessores norte-americanos. Nesse sentido, o
colombiano acredita que “enquanto o governo não reconhecer que está em curso um
conflito social e armado, para não cumprir as exigências do Direito
Internacional Humanitário, para não se reunir, para não aceitar as guerrilhas
como interlocutores, enfim, para não abrir espaços à saída política negociada,
a situação fica bastante complicada”.
Correio da Cidadania: Como você enxerga a Colômbia e o
seu governo na América Latina de hoje, após os processos eleitorais nos últimos
anos, com a eleição de alguns líderes egressos das alas populares que vêm
percorrendo um caminho mais renovador e outros que decepcionam por não tê-lo
feito?
Pietro Alarcón:
Eu considero que, na América Latina, atravessamos um momento de ruptura com as
velhas fórmulas de controle do poder que encampavam as oligarquias
tradicionais. Este momento é também de construção de alternativas, só que
alternativas desde os governos, na idéia da favorecer históricas reivindicações
populares.
O que acontece é que,
naturalmente, a história de cada país, a correlação de forças, as pressões
externas, o acúmulo de fatores de dependência econômica travam muitas
possibilidades. Daí que depende da ousadia, da criatividade e, sobretudo, do
apoio popular, do apoio que o governo procura nas forças vivas da nação, nas
massas, nos setores que mais sentem o rigor da crise social e econômica, o
avanço da democracia e da justiça social.
É um desafio para esses
governos aprofundar a participação popular, porque nessa medida eles retiram a
força que precisam, a legitimidade necessária para sustentar propostas de
mudanças que levem à justiça social. Os governos devem ser para os povos e
apoiados nos povos, na mobilização popular em favor das mudanças.
Na Colômbia, o processo é de
uma luta de classes exacerbada e com componentes particulares. De um lado, nós
temos o governo de Uribe, que representa um projeto classista, de controle do
poder estatal, que, a julgar pelas denúncias que comprometem seus mais chegados
colaboradores, tem suporte na estrutura financeira criada pela unidade entre
setores ligados ao narcotráfico e ao paramilitarismo. Trata-se de um governo
marcadamente autoritário, fundamentado na lógica de que toda oposição é
subversiva e inimiga da institucionalidade, que reduz os espaços democráticos,
tradicionalmente já cerceados no país durante toda a vida republicana. Há uma
forte ingerência dos Estados Unidos, que alimentam o Plano Patriota, de
militarização da vida nacional, de tratamento de ordem pública aos protestos
frente ao descaso do Estado na prestação dos serviços públicos.
Por outro lado, há um aumento
da representatividade e da força de setores como o Pólo Democrático, no qual se
juntam várias tendências para tentar conquistar uma abertura no cenário
colombiano. Junto ao Pólo existem setores de trabalhadores, camponeses,
estudantes.
Finalmente, há que se contar
também com o fator movimento insurgente, que tem uma legitimidade histórica que
me parece inquestionável e que não pode ser confundido com um monte de
bandoleiros ou um cartel do narcotráfico, como pretendem ser apresentados por
meios de comunicação bastante irresponsáveis nas suas afirmações.
Negar a condição de ator
político ao movimento insurgente, de elemento propositivo, com propostas, em
função da conquista da paz e da justiça social no meu país, me parece o
primeiro grande erro de quem pretende interpretar a realidade colombiana.
Acho que a tendência será nas
próximas eleições de muita rejeição a esse modelo de Estado e de governo.
Uribe, diante da crise política, inicia um desgaste acelerado, se isola no
contexto da América Latina, e continua a aplicar um neoliberalismo ultrapassado,
que nem sequer o capitalismo mais moderno tolera. Inicia o processo de privatização
dos hospitais públicos. Para lhes oferecer um dado, o governo interveio em três
hospitais na capital Bogotá recentemente, com a perspectiva de privatizá-los. Igualmente,
iniciou-se a venda da estatal de petróleo, a ECOPETROL.
Tudo isso no meio de um clima
de restrição às liberdades públicas, de atuação do paramilitarismo contra o
movimento sindical e estudantil, que faz da situação uma questão dramática,
pela impunidade com que agem estes grupos.
CC: Quando serão as próximas eleições na Colômbia?
PA: Serão
realizadas no dia 28 de outubro. Será para concejales (vereadores), para as
assembléias dos departamentos e para eleger os governos estaduais e municipais.
O Pólo Democrático Alternativo tem mais de 6.000 candidatos inscritos. O que
acontece é que esses candidatos, obviamente, suportam a pressão do paramilitarismo
e da reação na Colômbia.
CC: Em função de várias notícias que vêm sendo
divulgadas sobre a situação política na Colômbia, a questão dos reféns
parece-nos muito delicada, especialmente no que se refere à sua libertação
pelas FARCs. Em primeiro lugar - e à luz de seu esclarecimento anterior quanto
à legitimidade política e histórica dos movimentos insurgentes -, qual é o
sentido e objetivo desse tipo de atuação das FARCs e, especialmente, qual é a
sua pertinência no atual momento histórico?
PA: A
análise do tema colombiano implica no reconhecimento de que em seu território
se registra um conflito social e político armado. Nesse sentido, as forças em
combate agem levando em conta a lógica militar, que supõe a retenção de pessoas
de um lado e de outro. Esse é, infelizmente, o quadro. Que é lamentável, pois a
retenção da liberdade de locomoção das pessoas é, evidentemente, uma lesão
grave aos direitos humanos. Assim como também é uma violação grave dos direitos
humanos o genocídio promovido ou tolerado pelo Estado contra a oposição, os
bombardeios contra a população civil, que originam o refúgio massivo de pessoas
nos países fronteiriços. Tudo isso cria um panorama delicado.
No entanto, todas essas
condutas devem ser analisadas no marco desse conflito. A primeira questão
importante é reconhecer que há um conflito dessa magnitude.
Contudo, a alternativa governamental
tem sido desde o início a de negar que na Colômbia exista um conflito armado. A
tática do governo para implementar a força, aumentar o orçamento militar,
justificar a presença cada vez maior de assessores norte-americanos, de suas
espetaculares e pouco eficientes operativos militares de resgate, é negar que
exista este conflito.
Na Colômbia, então, o que
existe, na opinião do governo e desde essa ótica bastante negativa, é o
terrorismo criado pela guerrilha, que, segundo o governo, também nessa lógica,
está ajudado e justificado por intelectuais, políticos de oposição, partidos de
esquerda, operários, enfim, todo aquele que não concorda com os programas de
governo.
A torpeza, o ligeiro da
acusação, o macartismo, a ausência de uma política de paz do Estado, de uma
vontade de construir saídas diante da crise humanitária são características
marcantes do período presidencial. Isso dificulta qualquer possibilidade de paz
democrática no país.
CC: Mas é possível a troca humanitária de
prisioneiros? Como você analisa essa situação?
PA: A
verdade é que na Colômbia existe uma opinião de amplos setores em torno de uma
saída rápida a essa situação.
Um acordo humanitário para
uma troca de prisioneiros e retidos é a proposta que se ventila por parte da
comunidade internacional. O governo, no entanto, rejeitou a ajuda externa de um
grupo de países amigos, dentre eles a Espanha e a Suíça.
Uma tentativa de estabelecer
um princípio de acordo para rapidamente caminhar para essa troca humanitária
está na visita do presidente Chávez à Colômbia neste final de semana. O presidente
venezuelano irá conversar com o governo e com a guerrilha, e está claro que
ambas as partes devem ceder um mínimo, pelo menos para gerar um espaço de
concertação nesse ponto humanitário. Não é possível reduzir a questão ao
proveito militar ou político, mas primar por um bom senso, pela reflexão, por
uma vontade de que na Colômbia famílias inteiras voltem a ver seus parentes – e
me refiro aqui às famílias dos dois lados no confronto -, de respeitar a vida e
a dignidade humana.
Agora, para isso, o governo deve
pelo menos oferecer uma proposta de intercâmbio. A guerrilha expressa que uma
região sem presença militar, despejada, seria uma questão que facilitaria o
trâmite regular da troca. O governo responde que isso é abrir mão da soberania
nacional, de seu poder de força em todo o território.
Ora, se o governo pretende
desqualificar a proposta do outro setor, então acho que seria cômico – se não
fosse algo trágico - a realidade intervencionista dos Estados Unidos. Pelo amor
de Deus, isto é uma questão de humanidade.
A verdade é que há muita
desconfiança e talvez os bons ofícios de Chávez e a agilidade da senadora
Piedad Córdoba e de tantas outras pessoas possam dar lugar a uma pressão
nacional e internacional em favor da solução dessa situação.
CC: O chanceler colombiano manifestou-se recentemente
sobre essa questão, perante o ministro brasileiro Celso Amorim, defendendo uma
solução militar em vez da negociação, visto não vislumbrar nenhuma possibilidade
de efetivação de uma saída negociada. O que pensa sobre isso?
PA: Eu li com muita
preocupação as declarações do chanceler. Considero que é uma exorbitante falta
de responsabilidade. Conheço pouquíssimos casos em que uma figura que
represente um Estado, em lugar de fazer chamados à paz, faça chamados à guerra.
No entanto, me parece que, em alguma medida, reflete a postura do governo. Não
há novidades.
Poderíamos teorizar. Dizer,
por exemplo, que é um princípio das relações internacionais que a única forma
de assegurar a continuidade de um progresso civilizatório é através da
limitação da violência como forma de superação dos conflitos. Isso implica a
procura permanente de espaços de negociação com objetivo de atingir a paz. Se a
autoridade estatal nega essa possibilidade, comete um crime de
responsabilidade. A Constituição colombiana e as convenções internacionais
consagram o direito à paz e a isso ele deveria respeitar.
Certamente, a imensa maioria
dos colombianos deseja a paz. Em suma, o que eu acho é que, na prática
diplomática, a declaração é bastante infeliz. Em um Estado com outras
referências, afloraria um julgamento por crime de responsabilidade.
CC: E, conforme por você já anteriormente ressaltado,
há ainda a agravar esse quadro as relações entre o governo Uribe e o
paramilitarismo, alvo de muitas denúncias e causadoras de inúmeras baixas nos
escalões do governo.
PA: Os
vínculos do governo de Uribe com o paramilitarismo são muito bem conhecidos e
as táticas tendentes a ocultar essa relação não foram suficientes.
A questão foi tão escancarada
que o governo perdeu capacidade de reação. Não convenceu ninguém nem no plano
nacional nem internacional de que as acusações fossem inverídicas.
Com relação ao
paramilitarismo, que é uma postura do Estado, uma suposta saída ao avanço da
insurgência em múltiplas regiões do país, um exercício militar no qual se
misturam perigosamente narcotraficantes, latifundiários e Estado, o caminho não
pode ser outro senão o julgamento de seus atores, o fim da impunidade com a
qual desenvolvem suas violentas ações.
Agora bem, algo que sempre me
parece importante é que na Colômbia há um caudal de reservas democráticas, que,
por exemplo, se expressam diante da postura governamental de pretender atribuir
aos paramilitares a qualidade de delinqüentes políticos, ainda por cima da
decisão da Corte Suprema. A torpeza do argumento, diante das evidências que
corroboram os atos de delinqüência comum, bem como o fato de serem instrumento
de Estado, no lugar de favorecerem a imagem presidencial, pareceram ratificar
que existem laços estreitos. Eu, simplesmente, não encontro outra explicação.
CC: Qual é a saída a longo prazo para a paz efetiva na
Colômbia?
PA: Acho que
isso depende de uma agenda de pontos que contemplem reformas substanciais no
regime político, como as garantias cidadãs para a participação eleitoral, na
vida civil, sem as constantes ameaças à vida. É preciso uma consolidação da República,
mais transparência no controle dos recursos públicos, uma reforma agrária
democrática, enfim, questões que formam parte de um programa, pontos
estratégicos.
Seria preciso também uma
renovação da doutrina militar por uma doutrina em favor da soberania do país e
que negue a idéia do inimigo interno, que vê insurgentes em todo lado, e um
desmonte do aparelho paramilitar.
CC: Até lá, você acredita que possa vingar alguma
solução intermediária, a exemplo das aludidas interferências de Chávez, que
promova uma convivência pacífica entre os grupos armados, inclusive com a liberação
de reféns?
PA: O
concreto é que, enquanto exista por parte do governo a idéia de não reconhecer
que está em curso um conflito social e armado, para não cumprir as exigências
do Direito Internacional Humanitário, para não se reunir, para não aceitar as
guerrilhas como interlocutores, enfim, para não abrir espaços à saída política
negociada, a situação fica bastante complicada.
Acredito que temos que insistir, desde a academia,
desde a comunidade internacional, em uma trégua bilateral no imediato, que
sirva para gerar um novo clima diferente, que restabeleça a confiança. Então,
através de uma agenda com pontos concretos, poderiam ser iniciadas as primeiras
conversas e contatos com os diversos setores do país, especialmente com os
atores diretos do conflito, para o início de uma negociação.
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