Existem ateus tolerantes e ateus fanatizados, mas
sobre eles quero escrever em outra ocasião.
O que agora me interessa investigar brevemente é o
ateísmo que reside, disfarçado, atitude secreta mas ativa, no cerne de todo
fanatismo religioso.
No céu não existem muros. Nem no inferno. (Talvez no
purgatório sim...) Neste mundo, muros se multiplicam. As religiões produzem
santos e fanáticos. É difícil distinguir estes daqueles. Brilha no olhar
fanatizado uma luz de santidade capaz de enganar o próprio advogado do diabo!
Também no santo percebem-se falsos lampejos de
fanatismo: desprezo pela opinião alheia, êxtases um tanto esquisitos, ações que
chocam o senso comum, idéias meio malucas.
Contudo, há algo que os fanáticos não podem dissimular
por muito tempo: o seu ateísmo.
Todo fanático religioso termina recriminando a Deus.
Impaciente com a bondade divina, chateado com a misericórdia de um Deus
não-fanático, o fanático gostaria de criar um novo Deus, à sua imagem e
semelhança. Um Deus mais engajado, mais atento, mais preocupado com os
desmandos do mundo.
O fanático religioso acredita num Deus que não existe,
ou que existiu faz uma eternidade! E quando o Deus que existe contraria a sua
vontade e os seus planos, o fanático começa a pensar que o demônio está
disfarçado de divindade, e veio destruir a obra que ele, fanático, construiu
com tanto zelo.
A obra fanática sonha recriar o mundo. Não entende
como Deus pode ter sido tão descuidado, deixando tantas heresias proliferarem
como moscas. Os fanáticos, reunidos semanalmente, olham para as estatísticas e
planejam dar umas férias para Deus tão incompetente.
Já tentaram conversar com Deus. Numa boa. Rezaram
longamente, implorando que Deus abrisse os olhos, colocasse um ponto final
neste caos. Inutilmente. Deus parece estar brincando de Deus. Não se leva a
sério nem leva a sério os seus fiéis servidores.
Por isso, a obra fanática tomou uma decisão histórica.
A partir de agora, queira Deus ou não, vamos assumir tudo por aqui. Sem
alardes, mas com profissionalismo. Chegou o momento de pôr ordem no barraco.
Se Deus perdeu a compostura, cabe aos homens de bem
assumir o comando. Cabe à obra fanática, a última coisa coerente e bela neste
mundo sem rumo, recolocar a humanidade nos trilhos. Se Deus quiser aproveitar a
oportunidade, ótimo. Se preferir continuar fingindo que está tudo bem...
problema dEle!
Gabriel
Perissé é doutor em Educação pela USP
e escritor – Web Site: www.perisse.com.br
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