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“Nas esferas do governo, devemos nos proteger contra a
influência injustificada exercida pelo complexo militar-industrial. A
possibilidade do surto desastroso de um poder mal orientado existe e
permanecerá. Não devemos nunca permitir que o peso desta coalizão
ameace as
nossas liberdades ou os processos democráticos”.
Dwight Eisenhower, em seu discurso de despedida da presidência dos
Estados Unidos
As recentes posições assumidas em política internacional pelos
pré-candidatos presidenciais do Partido Democrata foram de nenhum republicano
da pesada botar defeito. Ambos querem o bombardeio do Irã caso persista em seu
programa nuclear. Obama ainda topa reunir-se com o presidente Ahmadinejad, coisa que Hilary
renega. Mas ambos concordam que, estando Bin Laden localizado no Paquistão, bomba
nele, ainda que isso cause danos naquele país amigo. Até mesmo bomba atômica,
ruge a mulher de Clinton.
O que levaria esse alinhamento com o governo Bush de
políticos tido como progressistas e defensores dos direitos humanos?
Para entender esta questão, voltemos para 1961, quando o
presidente Eisenhower alertou a nação do perigo representado pelo chamado
“complexo militar-industrial”. Ele admitia que, face aos desafios da guerra
fria, o país fora obrigado a criar uma imensa máquina militar, que exigia permanentemente
verbas orçamentárias gigantescas. Formara-se então um poderoso setor industrial nessa
área, associado a políticos e chefes militares, que poderia influir
excessivamente no governo do país.
E foi o que aconteceu. A produção de armamentos cresceu
sempre, alimentada não só pela guerra fria mas também por outras guerras como
as da Coréia e do Vietnã. E, junto com ela, o poder do complexo
industrial-militar.
Em 1976,
a eleição de Jimmy Carter com uma plataforma de promoção
dos direitos humanos e restrições ao comercio de armas ameaçou esse status
quo. A reação foi uma campanha articulada
através de lobbies e da imprensa contra Carter. Deu certo, venderam ao povo a
idéia de que a gestão do líder democrata fora fraca.
Com a eleição do republicano Ronald Reagan o país voltou a investir
pesado em armamentos, assim continuando nos governos seguintes.
Finda a guerra fria, ”o complexo militar-industrial não
desapareceu, simplesmente reorganizou-se” (revista Foreign Policy in
Focus, 1999). E os Estados Unidos, em vez de reduzir suas forças armadas,
trataram de aumentar seu poderio. Elas passaram a ser usadas como instrumento
de intimidação para a consolidação da hegemonia global.
Para viabilizar esta estratégia, os orçamentos militares
americanos vêm crescendo sempre. De 304 bilhões de dólares em 1991 (último ano da
União Soviética) chegaram, em 2007,
a 532 bi, sem contar os 100 bilhões gastos no Iraque e no
Afeganistão.
Com esses aportes de somas estratosféricas, as forças
armadas americanas chegaram a um nível de poder de fogo e avanço tecnológico
que deixaria os exércitos da 2ª. Grande Guerra na idade da pedra.
Através da doutrina da “preemptive war”, George W. Bush deixou
claro que os Estados Unidos atacariam quem quisessem, sempre que sentissem seus
interesses vitais ameaçados. E com uma força que nem todos os exércitos do
mundo poderiam enfrentar. A invasão do Iraque mostrou que ele não estava
brincando.
O medo despertado pela agressividade e o poder militar
americano é certamente a principal razão
que leva os países da Europa a, via de rega, acompanhar as
posições de Washington. Mas não é a única. Eles ainda não conseguiram romper
sua relação umbilical com os Estados Unidos, em parte por que, embora não
exista mais a ameaça soviética, já se acostumaram a ver os americanos como seus
protetores e ainda não se sentem à vontade para se opôr a eles.
É verdade que a
Alemanha e a França criticaram a forma com que Bush desrespeitou a ONU e o
direito internacional no caso do Iraque. Mas, assustados por sua audácia,
voltaram rapidamente atrás, apoiando, posteriormente, a participação da comunidade
internacional na gestão do Iraque ocupado.
O atentado de 11 de setembro tem sido usado eficazmente pelo
governo Bush para aterrorizar seu povo e convencê-lo da necessidade de se
manter o país em pé de guerra contra os terroristas e os países que
presumivelmente os apoiariam. Foi assim
que os americanos aplaudiram a invasão do Iraque e aceitam a idéia de, em
último caso, bombardear as instalações nucleares do Irã, como tendem a aceitar ataques
“overseas” sempre que sua segurança estiver em jogo. De olho nas
eleições de 2008, os liberais Hillary e Obama não pensam em contrariar a
opinião pública. Pelo contrário, esmeram-se em se mostrar agressivos no
relacionamento com os chamados “estados párias” (rogue states), os países rebeldes à supremacia americana:
Cuba, Irã, Síria, Coréia do Norte e Venezuela. Nenhum deles propôs uma nova
diplomacia, baseada em contatos diretos com todas as partes, buscando soluções
justas e imparciais para os contenciosos internacionais.
Se esse caminho fosse seguido, se os Estados Unidos renunciassem
ao emprego de ameaças e da força, não haveria por que continuar a manter forças
armadas colossais. Os recursos orçamentários hoje destinados a elas poderiam
ser deslocados para atender a um problema da maior seriedade que hoje aflige o
país: a crise de sua infra-estrutura, da qual a inundação de Nova Orleans e a
queda da ponte de Minneapolis são sintomas.
Relatório da ASCE (Sociedade Americana de Engenheiros Civis)
revela a deterioração dos serviços públicos em 12 áreas – entre as quais
energia elétrica, estradas, pontes e represas - totalmente abandonadas nos dois
governos Bush. O relatório conclui que, nos próximos 5 anos, seriam necessárias
obras avaliadas em cerca de 1,6 trilhão de dólares, sob pena de iminente
colapso.
Teria o governo americano condições políticas para poder
trocar os investimentos na defesa por investimentos na infra-estrutura, como o
bem estar do país exige?
Hoje a indústria de guerra americana movimenta negócios no
valor de 100 bilhões de dólares anuais. Trabalham para ela cerca de 5 milhões
de pessoas. Somando os militares da ativa e da reserva , temos 15 milhões que compõem a população total do
complexo industrial-militar.
Cortar radicalmente os financiamentos que mantém essa
conjunção extremamente poderosa de interesses econômicos e pessoais parece uma
missão impossível. Como o dr. Frankenstein, a sociedade americana criou um
monstro que pensava poder controlar.
E como aconteceu na história, essa proposição se inverteu.
Luiz Eça é jornalista.
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