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Aconteceu, no final de julho
último, o XII congresso da Sociedade Brasileira de Primatologia. Primatologia é
o nome que se dá ao ramo de estudo que tem como objeto os primatas, meu grupo
de interesse e pesquisa, que é formado por humanos, macacos, grandes símios,
lêmures e outros bichos menos conhecidos (como os lóris, potos e társios, do
Velho Mundo). Durante o congresso, além da valiosa troca de experiências com
colegas de profissão, pude perceber com força algo que já vem chamando a minha
atenção há algum tempo, e preocupação central deste artigo: a grande alienação
de boa parte dos biólogos em relação à nossa responsabilidade perante alguns
problemas ecológicos, principalmente o aquecimento global.
Explico.
Os biólogos, principalmente aqueles que conduzem suas pesquisas nos hábitats
naturais, normalmente são pessoas bastante preocupadas com temáticas
ambientais. Isto tanto por força de ideologias que influenciam na escolha do
curso quanto pela formação e informações adquiridas na universidade e no
trabalho de campo. Pois bem, seria de se esperar, então, que traduzissem esta
consciência e preocupação em atitudes em suas vidas pessoais. A consciência da
existência de diversos dos problemas nós, biólogos, já temos. A luta apaixonada
e concreta pela preservação do meio ambiente também é comum. Mas,
estranhamente, a mudança de atitude com relação a grandes problemas (leia-se
aquecimento global) não acontece com a grande maioria dos meus colegas de
profissão. Isto é grave de forma geral e ainda mais em nós, que temos acesso
privilegiado à informação sobre os problemas ecológicos de perto por força de
formação e de nosso envolvimento profissional e, muitas vezes, emocional,
também, com o meio ambiente.
Mas
não. O mesmo torpor em relação a mudanças de atitude, a mesma comodidade, a
mesma estranha cegueira quanto à compreensão de que somos todos, sem exceção,
responsáveis pelo que o planeta poderá tornar-se no futuro marca o
comportamento de nosso grupo também. Parece que nós somos igualmente acometidos
por aquele sentimento de que “algo precisa ser feito” ou que “alguém precisa fazer
alguma coisa”, sem perceber que este “alguém” somos nós mesmos, cada ser
humano, e o “algo” deve acontecer em nossas próprias vidas. Já.
Esta
percepção sobre a nossa maneira de encararmos o problema tornou-se mais
evidente para mim em conversas sobre a viagem a Belo Horizonte, onde aconteceu
o evento. Boa parte dos palestrantes veio de avião até a capital mineira. Em um
país gigante como o nosso e sem estrutura ferroviária (indecentemente perdida e
sucateada ao longo das últimas décadas, ressalte-se), isto não é um grande
pecado para quem mora longe de BH, como os que vêm do Nordeste ou do Norte. Mas
o interessante é que não ouvi de nenhuma pessoa destas regiões com as quais
conversei qualquer manifestação de desconforto ou pesar com esta situação. O mesmo
ocorreu com os que vieram da região Sudeste ou de Goiás, com o agravante de
que, a partir destes locais, a viagem de ônibus não é demorada (ainda mais se
considerando o período turbulento que vivemos na aviação nacional) e pode ser
feita inclusive com grande conforto em ônibus-leito, como os que eu mesmo
utilizei.
Tudo
se passa como se fosse absolutamente normal viajar de avião para lá e para cá o
tempo todo. As conversas a respeito do tema giravam em torno das confusões dos
últimos dias, atrasos de palestrantes, cancelamentos de vôos, distância do
aeroporto de Confins em relação a BH, mas mudez completa quanto ao impacto das
viagens aéreas no aquecimento global.
Um
outro exemplo que me salta aos olhos é o das indefectíveis pastinhas de
congresso. Em todo evento desta natureza, ao confirmarmos nossa inscrição e
pegarmos nosso crachá, invariavelmente o material do congresso é entregue a nós
dentro de uma pastinha, bolsa ou mochila com o logotipo do evento. Eu já possuo
uma pequena coleção delas (as que sobrevivem, pois muitas delas não são feitas
para durarem muito). Porém, não consigo imaginar a sua real necessidade, já que
poderíamos muito bem nos virar com as nossas próprias mochilas, pastas e
bolsas. Acho que elas mantêm-se por força da tradição, pela falta de
questionamento de sua utilidade e por que as pessoas gostam de ganhar brindes.
Mas eu enxergo aí mais uma das múltiplas facetas do consumismo desnecessário e
seria um dos primeiros a aplaudir e aderir se algum evento – especialmente
eventos que reúnem profissionais ligados à natureza – as tornasse opcionais.
Aliás, se começarmos a rejeitá-las e elas começarem a acumular-se nas
secretarias de congressos, talvez o hábito seja mudado.
O
terceiro exemplo, notei nos intervalos para café. Como é comum em eventos desta
natureza, são oferecidos salgadinhos, café e sucos durante os intervalos. E
quem estava lá? Os inabaláveis copinhos plásticos. Centenas deles foram
consumidos. Neste ponto, diversas pessoas também demonstraram seu desconforto e
até ouvi a sugestão que a organização do evento poderia ter avisado para as
pessoas trazerem as suas próprias canecas. Não quero com isto criticar a
organização do evento, que estava ótimo, mas constatar uma triste realidade. A
de que nós mesmos muitas vezes não estamos conscientes das conseqüências dos
nossos atos e não agimos de maneira sustentável. Por tudo isso o mea culpa do título. Pois nós, biólogos,
que deveríamos ser dos primeiros a dar o exemplo, ainda engatinhamos em
diversas questões.
Há,
na mente da imensa maioria das pessoas, uma espécie de estranha desconexão
entre o que está acontecendo e nossos atos individuais, mais grave ainda para
aqueles que conhecem os problemas e suas causas, como nós, biólogos. Parece que
a conexão tão intuitiva entre causa e efeito encontra-se algo bloqueada quando
o efeito ocorre numa escala muito grande, é de difícil percepção imediata e
possui causas múltiplas e difusas, como no caso do aquecimento global.
Mas
acredito que esta possa ser apenas parte da explicação. Outra parte, imagino,
talvez se deva a um bloqueio inconsciente de nossa parcela de culpa, uma vez
que não só pode ser doloroso perceber-se como parte do problema, como a mudança
de atitude pode representar uma crise pessoal. Crise, pois mudança de hábitos
arraigados é algo extremamente difícil e desconfortável. Crise, pois não é
fácil também abrir mão de algumas de nossas comodidades, como viajar de avião
(para os que podem) e usar o carro indiscriminadamente. Crise, pois o
consumismo desenfreado (raiz de boa parte do problema) é uma força muito forte
e penetrante em nossa sociedade e tentar escapar ou limitar o seu domínio
sedutor sobre nossas vidas tampouco é tarefa fácil.
E daí
a importância de sempre lembrar a responsabilidade de todos, para que da
inanição as pessoas passem à consciência de sua responsabilidade e a se
sentirem incomodadas com isso, começando lentamente a mudar suas atitudes (fase
em que estou agora) até conseguirem mudar consideravelmente suas vidas, para
tentarmos, no fundo, salvar a nossa própria espécie. Não que deixar de ir ao
congresso, ou ir de ônibus, recusar as pastinhas e tomar as bebidas em nossas
próprias canecas possa salvar o mundo. Mas tudo isto seria um indicativo de
mudança, não só de atitudes, mas de consciência, de postura, esta sim, que pode
salvar a espécie.
Rogério Grassetto Teixeira da
Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint
Andrews.
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