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Em “Granier não viu
o Livro Branco sobre a RCTV? (2)”, destacamos a apropriada declaração da
professora de História Virgínia Fortes (UFF), que sintetizou bem o que
representa o cartel das televisões privadas na Venezuela, uma espécie de
“mega-latifúndios da comunicação”, com seus tentáculos em outros setores da
economia venezuelana. E a gritaria da imprensa brasileira, lembrou a
professora, “na verdade se dá, pois elas têm o mesmo comportamento da RCTV.
Todas as redes só apresentam a voz do capital”.
Vamos apresentar neste artigo como esses “mega-latifúndios
da comunicação”, na Venezuela, estão organizados e a estreita ligação com
empresas estrangeiras, o que dará ao leitor uma maior compreensão do porquê de
tanta gritaria, que prossegue nos noticiários e artigos dos meios de
comunicação do “império da mentira internacional” mundo afora. Os dados são do
“Livro Branco sobre a RCTV”, que o diretor-presidente da RCTV, Marcel Granier,
disse, no “Canal Livre” (01/07), não reconhecer e nem ter visto tal publicação.
Vamos entender por que Granier trabalha com afinco em tentar passar para a
opinião pública a imagem de um Hugo Chávez totalitário, no exercício da
Presidência da República da Venezuela. Granier não quer confessar a colossal
concentração de poder que têm as televisões privadas, sobretudo o oligopólio do
qual faz parte (RCTV-Venevisión), que detinha 85% do espaço de radiodifusão.
A formação do cartel das redes privadas, consta no dossiê do
Ministério do Poder Popular para a Comunicação e Informação (MPPCI), produzido
com a colaboração da Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), que é o
órgão regulador do setor e responsável pela outorga ou renovação (por tempo
limitado) das concessões. O livro do MPPCI/Conatel destacou os dados da
pesquisa de Gustavo Hernández, que no seu trabalho intitulado “Concentração da
propriedade e poder dos traficantes do rádio e da televisão na Venezuela”,
destacou os principais cartéis do referido espectro na Venezuela:
Organização Diego
Cisneros (ODC)
Venevisión inicia suas atividade, em 1929, com uma empresa
de transporte. Em 1961, com a compra da Televisa (atual Venevisión) (...) Se
converteu em uma “holding” com tendência global e investimentos em diversas
áreas econômicas, mas seu forte tem sido a indústria dos espetáculo, com lucros
anuais de aproximadamente US$ 5 milhões. Tem participação acionária importante
na Chilevisión (Chile), Caracol (Colômbia) e o Caribe (Caribean Communication Network),
além da Venevisión. (...) É o maior acionista da cadeia estadunidense Univisión
e da Galavisión, destinada ao público hispânico nos Estados Unidos da América
do Norte (EUA). Criou a AOL Latin America em sociedade com a America On Line,
um dos principais provedores de Internet (EUA). Controla o portal “El Sitio”,
um dos mais visitados em língua espanhola.
A ODC detém em torno de 80 empresas na Venezuelana e no
exterior, que abrangem os seguintes setores: transmissão, programação, produção
e entretenimento, TV por satélite (entre elas Direct TV, dominante na América
Latina), tecnologia e meios alternativos que usam tecnologia de ponta, produtos
e serviços de consumo massivo, produtos e serviços corporativos, publicidade,
recursos minerais e naturais, emissoras de rádio, empresas dublagem e
pós-produção, entretenimento ao vivo, vídeos, telefonia celular e por satélite,
entre outros.
Este grupo, continua o “Livro Branco sobre a RCTV”, é
composto por Gustavo, Ricardo e Marion Cisnero Rendiles. A maioria das empresas
pertencentes ao grupo não possui acionistas diretos, mas através de razões
sociais, o que amplia o número de empresas concentradas.
No caso das empresas que operam na Venezuela, se situa
sempre acima de 50% das ações. Por exemplo, a ODC possui mais de 50% do capital
social da Venevisión (96,66%); Vene Music (100%) empresa produtora e
distribuidora de discos; Saeca (100%), Gaveplast (58,97%) empresa ligada à
Pepsi e Cerveza Regional; FISA (55,12%) empresa dedicada à produção e
distribuição de cosméticos; Pizza Hut (50,32%), Summa (50,32%) e naquelas
empresa onde não possui a maioria, estão associados com razões jurídicas
estrangeiras, sendo que a ODC é uma estrutura oligopolizada com tendências
globais. (...) Este grupo controla 47,5% do canal de sinal aberto VALE TV
(...). [Este conglomerado empresarial] tem relação com consórcios e capitais
estrangeiros dos quais a ODC é acionista. É o caso da Big Show Production,
prprietária da Rodven Discos, Love Records, Cervejaria Regional, proprietária
da Panamericana Beer; FISA; Taco da Venezuela; Saeca (transportes); Americatel;
Gaveplast; Summa Sistemas e consórcios na área de mineração. No caso da FM
Center, concessionária de um dos maiores canais de rádio da Venezuela, mesmo
não aparecendo a ODC como proprietária, toda sua direção compõe parte do grupo
Cisneros. O que permite intuir uma relação de propriedade e associação de
capitais.
Empresas 1BC e RCTV
É o segundo maior grupo na indústria de rádio e televisão na
Venezuela, em seu início de atividades era conhecido como Grupo Phelps. Suas
origens remontam a 1920. Já em 1929, o grupo constituía sua primeira “holding
empresarial”, o Sindicato Phelps. A incursão no setor das comunicações remontam
a 1930, quando com apoio da RCA (empresa produtora de aparelhos radiofônicos
que o Grupo Phelps distribuía exclusivamente na Venezuela) funda a
1Broadcasting Caracas (1BC) – mais conhecida como Radio Caracas Radio (RCR). A
RCTV foi fundada posteriormente, em 1953.
Atualmente este grupo está conformado, principalmente, por
Peter Bottome (principal acionista); Marcel Granier Haydon; Alicia Phelps de
Tovar; Alberto Tovar Phelps e Guillermo Tucker Arismendi. Este grupo possui
mais de 80% do capital social de cinco empresas que operam na Venezuela: RCTV
(85,80%); 92,9 FM (87,60%); Radio Caracas Radio (RCR, com 81,75%); Recorland
(100%); Línea Aérea Aereotuy (100%). Aquelas empresas onde o grupo 1BC não
possui 100% das ações, estão associados com uma razão jurídica estrangeira, a
Coral Sea Inc. A empresa Coral Pictures está localizada em Miami (EUA), sendo
comercializadora exclusiva das produções da 1BC em nível internacional. Possui,
com menas força, a mesma estrutura de concentração da propriedade e integração
que a ODC.
Grupo Núñez, Zuloaga,
Mezerhane & Ravell - Globovisión
Conformado, principalmente, por Luis Teófilo Nuñez
Arismendi, Guillermo Zuloaga, Nelson Mezerhane e Alberto Federico Ravell, que
possuem 89,90% do capital social do operador de sinal aberto Globovisión, o
resto (10,20%) pertence à razão jurídica Monserrat S.A. Inicia suas operações
em 1 de dezembro de 1994, é o primeiro operador especializado em informação na
Venezuela. Este grupo está vinculado à outros setores entre eles o da imprensa
escrita (Diario El Globo, que deixou de circular desde 2005).
Por outro lado, mantém relações de propriedade e vínculos
com o setor bancário através do Banco Federal, tem interesses no setor
turístico através da Ávila Mágica, em cuja direção aparecem alguns membros que
formam parte deste grupo midiático. Não obstante, 100% das ações de Ávila
Mágica, são propriedade da empresa estrangeira Humboldt Internacional Limited.
À este grupo estão integradas algumas agências de publicidade, entre as quais
se destacam: ARS Publicidade, DDB Venezuela Publicidad, Global Link, Grupo
Grey, e Clepsidra, bem como acionistas ou em suas diretorias, todas estas
relações se dão através da empresa Publinversiones.
Bloque De Armas –
Meridiano TV
Conformado, principalmente, por Andrés, Armando e Martin De
Armas Silva. Este grupo tem 100% do capital social do operador da TV Meridiano
Televisión, operador de caráter exclusivamente desportivo.
O grupo possui outras empresas no setor das indústrias do
entretenimento, onde a estrutura da propriedade detectada é a seguinte: revista
Intimidades (11,05%); Venezuela Farándula (7,66%); Variedades (11,05%, revista La Fusta (11,05%), o restante
do capital social destas empresas pertencem à razão jurídica estrangeira,
Overseas Trading Investment S.A. À este grupo pertencem, também, os jornais
Meridiano Deporte, a revista Too Much e a empresa editorial Primavera C.A., que
imprime 29 revistas de variadas temáticas e de hipismo, assim como de textos
escolares.
Grupo Imagen – La Tele
Conformado por Fernando Fraíz Trapote, Elias Tarbay Assad,
Santiago Penzini Fleury, Jesús Caldera Oquendo, Alexandra Elena Bushel Aragot.
Possui 100% do operador de TV de sinal aberto UHF La Tele, que iniciou suas
operações em 1 de dezembro de 2002. No entanto, seu primeiro nome comercial foi
Marte TV. Mantém estreita relação com a operadora por cabo Cablevión S.A.
Devido ao fato das pessoas antes mencionadas terem pertencido à sua diretoria,
apesar de que 100% das ações pertencerem à empresa estrangeira Telecom Trading
Corporation, que se encontra vinculada à Airtel, que se supõe estreita relação
com a Cablevisión e Airtel. No setor publicitário a empresa Vepaco está
relacionada a este grupo devido ao fato das pessoas citadas fundirem com os
diretores da mesma. Os cem por cento da participação acionária estão
distribuídos entre as empresas Próxima Investment Inc. (17,99%); Imagen
Publicidad (61,50%); Churari Inc. (20,50%). Detêem 75% do faturamento bruto do
setor. As outras 97 operadoras de TV dividem o restante (25%).
O “Livro Branco sobre a RCTV”, demonstra, então, pelos dados
aqui apresentados pelo MPPCI/Conatel, que foram coletados no terceiro trimestre
de 2006, a
altíssima concentração dos meios de radiodifusão por parte do cartel das
televisões privadas na Venezuela.
O relatório do MPPCI/Conatel destacou, ainda, que apesar de
distintas composições das diretorias acima apresentadas, a maioria dos
prestadores de serviços televisivos privados apresentam diversas formas e
empregam determinados formados, no entanto trabalham sob um mesmo padrão de
conteúdo, se orientam pela ideologia dominante do “império da mentira
internacional” (Fox/Murdoch).
O Grupo Camero – Televen Televen, destacou o dossiê, está
integrado acionariamente por Inversiones Cuatro Treinta C.A., registrada no
Estado de Guárico, a qual possui 94,49% do capital social e Marbrid Coporación,
empresa localizada no Panamá e representada por Martin Nicolás Camero Álvarez,
que possui os 3,51% restantes. Tem estreita relação com o jornal Quinto Dia,
mas não foram encontradas outras vinculações ou associações com outras empresas
de algum outro setor da economia venezuelana.
No próximo artigo (parte 4) veremos outros efeitos nocivos
do monopólio dos meios de comunicação privados, apresentados pelo “Livro Branco
sobre a RCTV”, que caracterizam bem o totalitarismo deles, e não do presidente
Chávez, como quis passar Marcel Granier, em entrevista no “Canal Livre”.
José Carlos Moutinho é jornalista.
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