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Um professor de língua
portuguesa me ensinou que existem, grosso modo, dois tipos de
vocabulário.
O ativo, que empregamos
com relativa freqüência na comunicação oral
e escrita, seja de maneira informal, seja num contexto técnico,
ou científico, ou profissional. E o vocabulário
passivo, composto por palavras que não empregamos no
dia-a-dia, nem na conversa fiada nem na sisuda reunião de
trabalho, mas graças às quais, no entanto, com maior ou
menor precisão, compreendemos o que os outros tentam nos
comunicar.
Convém à
mídia utilizar vocabulário acessível ao maior
número de pessoas, abrangendo um público de vocabulário
passivo modesto ou variado, magro ou copioso. Ninguém precisa
assistir ao telejornal com o dicionário na mão. Seria
estranho necessitar de glossários para entender uma reportagem
ou acompanhar determinada entrevista.
Contudo, em dado
momento, podem invadir o espaço lingüístico da
mídia alguns termos novos inevitáveis, como aconteceu
nas últimas semanas, desde a tragédia do Airbus da TAM.
As novas palavras que surgem no vocabulário ativo dos âncoras,
apresentadores, jornalistas e articulistas são rapidamente
incorporadas ao vocabulário passivo de leitores, ouvintes e
telespectadores.
“Manete”,
dispositivo que acelera o motor de avião, é uma dessas
palavras. Até então restrita ao jargão da
engenharia mecânica, vai se tornando familiar ao simples
cidadão. O fato de ainda causar alguma estranheza entre os
não-iniciados explica indecisões quanto ao seu gênero.
Há os que dizem e escrevem “a manete” (José
Meirelles Passos, O Globo, em 26 de julho). O certo é “o
manete”.
Outra palavra
estreante: “grooving”, as ranhuras transversais na pista para
aumentar o atrito. Por ser palavra estrangeira, é
compreensível ler em blogs a forma “groving”, um “o”
apenas. Mas, e daí? — pergunta-nos o internauta. — Você
não entendeu do que se trata? Então relaxa... e
prepare-se para outras variantes: “groowing”, “groovin”,
“gruving”...
Escreve-se e fala-se
também no “reverso” da aeronave. Nem o Aurélio nem
o Houaiss ajudam. Nesses dicionários, encontramos o reverso da
medalha, o reverso de um painel, o reverso do problema. Nada que se
refira à aviação. E, afinal, não seria
mais correto o “reversor”? Termo que também não
consta dos grandes dicionários. Não é a primeira
vez que o reversor ganha notoriedade. A falha desse mecanismo foi a
causa do acidente do Fokker 100 da TAM, em 1996.
Importa assimilar essas
palavras, para sairmos da perplexidade passiva e cobrarmos
explicações convincentes.
Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.
Web Site: www.perisse.com.br
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