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Dizem que o tempo cura. A força
salutar do tempo é invocada especialmente quando o assunto é
a cicatrização das emoções. E, no entanto,
o tempo só cura os afetos na mesma medida em que sana uma
ferida da carne.
Um sangramento não estanca, nem
uma ferida cicatriza porque hoje é depois de ontem: são
os anticorpos que trabalham. Toda cura é produto da vitalidade
do organismo. No coração como na carne.
Quando perdemos uma pessoa querida, vem
o luto. Chorar é uma ginástica do coração,
tão necessária como comer e dormir para o corpo. A
perda é uma realidade e a tristeza é um sentimento
adulto. A superação não passa pela negação,
mas pelo confronto da dor.
Até descobrir que somos maior do
que ela. Existem as boas lembranças que iluminam o presente.
Delas revela-se a gratidão, fundada nos prazeres do agora. É
na alegria de estar vivo que é possível integrar a
perda como gratidão. Saudades transmuta-se em esperança.
A desilusão amorosa tampouco
cura-se por si só. No primeiro momento, há também
o luto. Depois, a consciência de que o fim de uma relação
não leva embora as coisas boas que cada um tem em si. E mais:
o que se ganhou em profundidade na relação como o outro
não se esvai. Um novo amor é sempre fecundada pelo
passado.
É claro que há finais
mais doloridos que outros. A primeira reação é
fechar-se à entrega. Mas então intui-se que só
um amor pode curar a ferida de outro amor. Isso é em si uma
tênue abertura, que só alarga. Resultado de uma sede de
amor que é divina e não tem limites: por isso, ancorada
na fé.
O desentendimento entre queridos pode
ser mais explosivo. Uma emoção de tempo curto, que como
uma ferida exposta, clama por cuidados imediatos. Às vezes é
viável contornar a situação na hora; às
vezes não.
O tempo aí também não
é mágico: a desculpa que gera o perdão, na
religião católica como na judaica, é aquela que
traz o arrependimento sincero. Isso é produto de reflexão
do coração. A paz nunca é unilateral: quando um
não quer, dois não se entendem – não há
perdão. Por isso, toda amizade precisa estar assentada na
humildade – uma forma elevada da caridade.
Não é exato dizer que o
tempo cura. Mas é na realidade do tempo que o humano
projeta-se como existência: se constrói e se descobre em
uma relação dialética com a vida, onde a perda
revela o que somos, que só é porque perde, e ao perder,
se faz.
A cura do coração é
a prova cotidiana de que a ressurreição nada mais é
do que o milagre do humano: fere-se e cura-se, simplesmente pelo dom
do amor à vida, que pulsa.
Fábio Luís é jornalista.
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