|
A palavra “apagão” está
em voga. Basta acrescentar-lhe um adjetivo e todo mundo entende que
algo em determinado setor não está funcionando: apagão
aéreo, apagão educacional, apagão cultural,
apagão político...
O apagão energético de
2001 foi, na verdade, um blackout. Para evitar o anglicismo, que se
referia, em suas origens militares, ao procedimento de apagar as
luzes de uma área prestes a sofrer bombardeio noturno,
recorremos ao espanholismo rio-platense (apagón). O apagão
é um escurecimento completo. Poderíamos talvez usar a
palavra “blecaute”, aportuguesamento do termo inglês, mas
“apagão” acabou pegando.
Deslocado do contexto da ausência
de luz, o vocábulo se tornou sinônimo de interrupção,
de crise, de fracasso, falência, falta de modernização.
Equivale, no mundo da informática, à expressão
“dar pau”. Apagar é travar.
Entre outros apagões da moda,
está o “apagão do trânsito”, de que são
vítimas os moradores da capital de São Paulo. Carros
demais, poluição, nervosismo, engarrafamentos. Mais de
5 milhões de automóveis, sem falar dos caminhões,
microônibus e motocicletas. A cidade vai travar.
A saída é não sair
de carro. Melhor ainda, a saída é abrir mão do
carro.
Quem não o possui bem sabe como
é difícil depender de ônibus, trem e metrô.
Lamentável o nosso transporte público, em clima de
apagão há décadas! Um bom metrô ajudaria
muito. Em São Paulo, com 11 milhões de habitantes,
temos 52 estações. Barcelona, população
de 1,6 milhão, mais que o dobro: 121.
Independentemente da necessária
melhoria do transporte urbano, boa parte do problema se resolveria
também se os donos dos automóveis adotassem novos
hábitos, pensando nos pulmões de todos, no coração
de todos. Para evitar o apagão do trânsito precisamos
acender as luzes do bom senso.
Rápida pesquisa: há em
São Paulo cerca de 35 mil taxistas. Fosse mais barato usar
desse serviço, um hábito salutar seria deixar os carros
na garagem (para eventuais urgências, ou algum passeio
especial), e recorrer ao táxi. E os taxistas teriam mais
trabalho!
Aliás, mesmo com a bandeirada de
hoje, fazendo as contas, além de contribuir para a respiração
da cidade, economizaríamos muito. Se me torno passageiro
cotidiano do táxi, quando não de ônibus/metrô,
deixo de gastar com estacionamento, IPVA, seguro, multas, consertos,
combustível... Sequer terei que comprar carro!
E se o trânsito engarrafar,
simples — pago o que está marcado no taxímetro, saio
do carro e vou andando...
Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.
Web Site: www.perisse.com.br
Para comentar este artigo, clique comente.
|