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ISSN 1983-697X
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Como deslizar uma encosta Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Metri   
09-Fev-2010

 

A relação causal é, muitas vezes, difícil de ser corretamente identificada. É comum identificar-se só uma causa, quando acontecimentos podem ter vários fatores causadores. Outras vezes, identifica-se como preponderante uma causa que, na verdade, é só intermediária e derivada de uma original. Por exemplo, diz-se, comumente, que a tuberculose é causada pela miséria, quando esta não é a causa original. A ganância capitalista é o principal fator causador da miséria e, conseqüentemente, da tuberculose.

 

Encostas deslizam, pessoas morrem e a identificação de culpados começa. Artigos e mais artigos são escritos sobre o tema, mas há algo inconcluso ou errado. Não nego que pessoas constroem moradias em encostas de risco e algumas destas pessoas jogam lixo nas encostas; concordo que há necessidade de o estado do Rio de Janeiro ter um órgão para mapear as áreas de risco, proibir construções nas mesmas, conter as mais perigosas etc.

 

Entretanto, busco adicionar o que não foi dito. Busco mostrar que os únicos responsabilizados são os politicamente frágeis e a administração pública, porque, neste caso, a caracterização do culpado específico é difícil.

 

Primeiramente, não assentamos o homem no campo, apoiamos latifúndios improdutivos que não empregam quase ninguém. Empurramos milhões de pessoas que seriam felizes e produtivas no campo para serem os miseráveis das cidades, deixando-as superpovoadas.

 

Assim, o tão perseguido MST não é um movimento social que visa simplesmente os assentamentos de terra. Visa a estes e também a conter o êxodo rural, diminuir a demanda por habitações nos grandes centros, diminuir a população favelada, resolver o problema do transporte de massa nas grandes cidades, desobstruir o trânsito, conter a demanda pelo fornecimento de água e esgoto. Além de atendimentos na rede hospitalar e conservação de energia, à medida que cada pessoa que migra do campo para a cidade passa a consumir quatro vezes mais energia. O MST busca, no final, um mundo sustentável, justo e racional.

 

Este contingente imenso de miseráveis expulsos do campo busca a sobrevivência nas cidades, que não têm moradias disponíveis para quem não tem nada. Então, eles são empurrados para as encostas, que no estado do Rio são muitas. Nenhum deles vai para os morros porque a vista é bonita - que na verdade é.

 

Vão para lá porque sempre há um barraco barato próximo do trabalho, quando o transporte coletivo é demorado e superlotado, e as opções mais caras de meios de transporte são reféns de vias de rolamento de veículos saturadas.

 

E, pelo amor de Deus, não vamos autoritariamente empurrá-los para regiões distantes de seus trabalhos, sem lhes dar opções de transporte rápidas e confortáveis, que foi o que fez um administrador da atual cidade do Rio de Janeiro, no passado.

 

Mas pessoas com alto poder aquisitivo também têm sido soterradas em deslizamentos. Nestes casos, em parte, devido à total desinformação do perigo pelo proprietário e à eventual ganância do construtor ou incorporador, ou ainda à desinformação destes.

 

Assim, mortes por deslizamentos em áreas pobres são conseqüências do modelo político e econômico, concentrador de renda, vigente no nosso país. Se existisse opção de moradia digna acoplada a transporte digno, não existiriam pobres nas encostas e estas não estariam degradadas e muitas nunca deslizariam.

 

Portanto, agora, mais do que em qualquer tempo, é de grande mérito o programa de construção popular do governo Lula, sendo necessário somente expandi-lo ao máximo para poder suprir o déficit habitacional existente. Poderia até vir a ser chamado de "Minha casa segura, minha vida".

 

Paulo Metri é conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros.

 



ComenteComentários (3)Compartilhe

1. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 09-02-2010 16:54
Parabéns.
Paulo, parabéns pelo texto. Concordo ipsis literis. Infelizmente, a cada ano, acompanhamos a "incapacidade" da mídia de interpretar essas situações de calamidade e mortes.

2. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 10-02-2010 20:06
Bateu na Trave
Confesso que cheguei a me empolgar até que cheguei ao final do artigo. 
 
Paulo Metri enuncia muito bem as causas não ditas da tragédia urbana brasileira. 
 
Porém, no final escorrega na armadilha da linearidade política e análise cartesiana demais do real significado das ações do governo Lulla. 
 
Pode ser correta uma política habitacional, com a construção de casas populares, e é bom que se diga, prá lá de simples e de desenho prá lá de convencional e, segundo alguns especialistas, com material de segunda categoria, como são os tais tijolos cinzas que usam de enorme desconforto térmico, o que não requer nenhuma mão de obra tão especializada, ainda mais com a destreza deste nosso Povo Operário de mil funções, como é o brasileiro.  
 
Assim, apesar desta correção no apontamento da tal política, não podemos deixar de criticá-la pelo fato de ser enrtregue à iniciativa privada, com lucro líquido de 100% sobre o construído já de valor muito alto (entre R$1 mil e R$2mil o metro quadrado, fora o caixa 2), além do que, denunciar que, com a paralização da reforma agrária, e o avanço beneficiado pelo próprio governo, do Agronegócio que é predador e segregador por natureza, Lulla estaria apenas a enxugar gelo, beneficiando as empreiteiras com 100% de lucro, que representa portanto, que poderia construir o dobro de casas, pelo mesmo preço e tempo, se usasse a mão de obra local, recrutada dentro de um Programa gerenciado pelo Estado, com apoio logístico, por exemplo, da engenharia das Forças Armadas, e acompanhado e fiscalizado de perto pela sociedade, em um grande e alvissareiro costume de se governar Para o Povo e COM o Povo. 
 
Portanto, com belo início, a meu ver, o artigo do engenheiro Paulo Metri se diminui acoplando artificialmente a boa análise com a defesa do que acho indefensável, isto é, as politicas privatizantes do Lulla, travestidas pantomimicamente de \"Estado Forte\".

3. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 13-02-2010 16:41
obediencia à lei
Ao que me consta existe uma LEI que PROIBE qualquer construção acima de uma determinada cota dos morros. CUMPRA-SE a lei, que tem de ser igual para todos!Portanto os responsáveis são todos aqueles que permitiram ou possibilitaram as construções em tais ambientes.

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