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ISSN 1983-697X
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Estados Unidos e Haiti: o tortuoso relacionamento Imprimir E-mail
Escrito por Virgilio Arraes   
09-Fev-2010

 

A atual presença dos Estados Unidos no Haiti, outrora São Domingos, sob a justificativa de auxílio humanitário, reitera antigos laços, materializados ao longo do tempo por um relacionamento desigual, marcado, por sua vez, por um posicionamento tutelar de Washington com vistas a Porto Príncipe.

 

Assim, após a consumição em Honduras, é possível que a Casa Branca valha-se do desfalecido país para apresentar à opinião pública regional uma imagem mais benigna de si, ao ter providenciado rapidamente ajuda, independentemente de conexão com as Nações Unidas, e, por conseguinte, ansiar um desfecho revigorante para a popularidade tanto interna como externa do presidente Obama.

 

O enlace das duas nações remonta ao século XVIII, desde o desencadear de seus respectivos processos de libertação de duas poderosas metrópoles: uma da Grã-Bretanha; outra, da França. Por aquela, influenciar-se-iam os movimentos seguintes.

 

A visão da elite dos recém-estabelecidos Estados Unidos sobre a movimentação política no futuro Haiti refletiu a divisão da época, no pós-independência, das treze colônias: de um lado, Alexander Hamilton, oficial-general durante a Guerra de Independência, nascido em uma pequena ínsula caribenha, atualmente parte de São Cristóvão e Neves, posicionou-se favorável à autonomia dos habitantes da ilha de São Domingos.

 

Anglófilo, Hamilton havia enxergado na antiga metrópole o melhor modelo de desenvolvimento de seu país, isto é, citadino e industrializado. Para tanto, advogou, como titular da Secretaria do Tesouro no mandato de George Washington, medidas de proteção à nascente indústria local, a fim de equipará-la celeremente às da Europa.

 

Em sua singular visão, o êxito da nação assegurar-se-ia somente se houvesse uma elite, ainda que dela desconfiasse em certo grau, à frente de um governo bastante centralizado, tendo por secretaria (ministério) mais importante a da Fazenda.

 

No outro extremo, Thomas Jefferson, latifundiário escravocrata, oriundo do patriciado da Virgínia – o seu ramo materno provinha do restrito grupo das chamadas FFVs, ou seja, de uma das primeiras famílias de extração inglesa lá instalada.

 

Francófilo, Jefferson havia vislumbrado para o novo país uma administração descentralizada, com maior participação popular. Na sua percepção, o sucesso econômico adviria do desenvolvimento do setor rural, no qual predominaria o posicionamento agroexportador, tendo por mão-de-obra primeira a escravaria. Seria o representante diplomático norte-americano na França por muitos anos e posteriormente

 

Secretário de Estado na gestão também de Washington.

 

Para ele, os partidários de Hamilton representariam o segmento reacionário do país, disposto até a transformar o posto presidencial em uma ditadura perpétua – ou quiçá, um reino - sob a condução de Washington, caso ele se dispusesse a isso – não obstante a legislação eleitoral permitir, este aceitaria concorrer apenas uma vez à reeleição.

 

Em virtude do distanciamento da posição dos grupos de dois de seus mais importantes auxiliares, o presidente Washington manteve os Estados Unidos neutros diante da contenda entre a França revolucionária e a Grã-Bretanha, Espanha e Portugal.

 

Da postura política de ambos os círculos, emergiria na década de 1790 o sistema partidário estadunidense, cunhado pelo bipartidarismo, vigente até hoje: por Hamilton, o Federalista; por Jefferson, o Democrático-Republicano. Este chegaria à Casa Branca em 1801; aquele tombaria em um duelo desnecessário com o vice-presidente Aaron Burr, em julho de 1804.

 

A visão de Jefferson sobre a liberdade dos então franco-dominicanos era negativa: ele receava o impacto da idéia de libertação nos escravos norte-americanos, com uma conseqüente instabilidade sócio-econômica. Para tanto, concedeu apoio ao Imperador Napoleão Bonaparte, quando da tentativa de recuperar o total domínio sobre a ilha no início do século XIX.

 

Tendo alcançado êxito de início, as forças francesas, lideradas na primeira investida por um cunhado de Bonaparte, General Charles Leclerc, terminariam por retirar-se esmorecidas tanto pela tenacidade dos insurgentes como pelas doenças tropicais – em 1804, nasceria o Haiti, antigo nome indígena, pleno de possibilidades econômicas, tendo em vista a sua larga produção de café e açúcar.

 

Pouco antes, os Estados Unidos deixaram de simpatizar com a causa napoleônica, em vista da reservada pretensão de preservar e ampliar o império francês em solo norte-americano, a partir de Nova Orleans, a fim de atuar com desenvoltura sobre o rio Mississipi.

 

Contudo, o afastamento da França não possibilitou o estabelecimento de relações diplomáticas com o Haiti, em virtude da pressão política dos estados do sul, áreas em que a agroexportação amparada na escravidão era robusta. Para eles, a independência haitiana não era um exemplo a ser louvado.

 

Assim, a saída militar da França das Américas resultou em duas conseqüências: a venda de seus territórios em 1803 aos Estados Unidos e aplicação de um embargo econômico a Porto Príncipe por Washington, com o fito de inviabilizar aquele país.

 

Somente com o desencadear da Guerra de Secessão, na primeira metade dos anos de 1860, o presidente Abraham Lincoln firmaria finalmente a troca de representantes, haja vista o início interno do processo de emancipação dos escravos em setembro de 1862, com a conclusão em dezembro de 1865, a partir da validade da décima terceira emenda.

 

Depois da vitória na Guerra Hispano-Americana em 1898, os Estados Unidos passaram definitivamente a considerar a região caribenha sua área exclusiva de influência. Desta forma, invadiriam o Haiti em julho de 1915, em decorrência da aproximação comercial do país com a Alemanha, em guerra contra a Grã-Bretanha, França e Rússia – no ano seguinte, seria a vez do vizinho São Domingos e mesmo a do México, onde se notabilizaria o General John Pershing, o militar de maior patente na história norte-americana.

 

Mesmos neutros de início no conflito mundial, os norte-americanos deixariam o território haitiano somente em agosto de 1934, tendo providenciado a infra-estrutura com o objetivo de reforçar o setor exportador local.

 

Após o encerramento da Segunda Guerra Mundial, o país, ao lado de Cuba, tornou-se um dos locais favoritos da classe média norte-americana para veranear. Todavia, o turismo local seria debilitado sobremaneira após um furacão de grandes proporções em 1954.

 

Três anos depois, um golpe de Estado permitiu à família Duvalier apossar-se do país até meados dos anos 80, com o apoio político de Washington, por causa do anticomunismo irrestrito. Corroída a administração na incompetência e nos desvios administrativos, a Casa Branca retirou-lhe o apoio, o que significaria o golpe fatal para ela.

 

Na década seguinte, sem a tensão bipolar, o eleitorado subscreveria a candidatura de um ex-padre, Jean-Bertrand Aristide, vinculado à Teologia da Libertação, e crítico do relacionamento subserviente da elite com os Estados Unidos e em menor escala a França.

 

Apesar da esperança da população, logo haveria um golpe de Estado militar e Aristide retornaria ao poder só no fim da sua gestão, com o apoio militar do presidente Clinton - vinte mil efetivos.

 

Na presente década, o país não conseguiu equilibrar-se ao assistir a um outro golpe, no qual Aristide novamente seria vítima. Em vez de ocupar o país ou de impor um novo dirigente, sob a justificativa de manter a estabilidade regional, a Casa Branca, em função de suas guerras asiáticas, delegou às Nações Unidas o encargo, o qual resultaria na constituição da MINUSTAH, abraçada com entusiasmo pelo Brasil.

 

Com o terremoto, os limites operacionais da missão onusiana salientaram-se. Não lhe é possível ombrear-se no curto prazo com os norte-americanos em termos de recursos – envio de milhares de militares e de centenas de médicos nos primeiros dias.

 

Desta forma, o destino imediato do Haiti encontra-se imbricado com o dos Estados Unidos. Caberá à sociedade local e à comunidade internacional, com a participação especial do Brasil, avaliar se isto será, ao longo do tempo, o mais adequado ao país, em vista da persistência histórica da desigualdade no relacionamento entre ambos.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 



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