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ISSN 1983-697X
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É Natal? Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
27-Dez-2009

 

É Natal. Tudo se contradiz à nossa volta. É verão nos trópicos e, no entanto, há neves de algodão, trenós e o Papai Noel agasalhado do frio. À mesa, castanhas e nozes, alimentos adequados ao inverno.

 

Tudo se mistura em nós, confunde sentimentos, atropela referências. Damos presentes aquém de nosso afeto e, alguns, além de nossas posses. O sangue que enlaça a família parece mais forte que o amor.

 

Em plena festa religiosa, move-nos um consumismo compulsório e compulsivo. Os bens finitos superam os infinitos. A felicidade parece revestida de papel celofane. O significado cristão esconde-se em acenos nostálgicos, demasiadamente frágeis para que Jesus logre quebrar a hegemonia mercantil de Papai Noel.

 

Como pesa esta data para quem não a celebra liturgicamente! A um canto, a árvore com adereços coloridos e, à sombra, o presépio com o Menino na manjedoura. Mero artesanato. Ali dorme também o menino que fomos um dia, inebriado pela fé; agora, de olhos fechados, teme abraçar o apelo divino e comemorar o aniversário de Jesus.

 

Sim, há abraços e beijos, presentes que se trocam entre taças de vinho e copos de cerveja. A alegria, como olhos de mulher, é marcada por um risco de sombra: ninguém blefa no mais íntimo de si mesmo; lá onde reside, sufocado, o nosso verdadeiro eu, aquele que sonhamos libertar um dia. Sabemos que as crianças estão felizes com o novo tênis, os jogos eletrônicos, as bonecas que choram sem emoção e falam sem inteligência.

 

Quem é Jesus para essa geração que não freqüenta catecismo e cujos pais têm pudor de rezar com os filhos e dar-lhes as mãos nas veredas que conduzem ao Transcendente? Onde se esconde o Menino da manjedoura ocultado pela obesidade comercial do velhinho que ignora as crianças pobres?

 

Na falta de mística, muitos procuram o êxtase em doses químicas. Sem disso terem consciência, gostariam que, atrás da seringa, por dentro da drágea ingerida, entre a fumaça ou o pó que se aspira, Deus irrompesse. Todos os presentes são insuficientes para o coração que clama por Presença.

 

Neste Natal, alguns vão ao culto e oram em família. Outros preferem a solidão de um mosteiro, a missa cantada em gregoriano, a leitura da Bíblia, a mesa onde se partilha menos comilanças e mais gestos de carinho.

 

Porém, o que fazer? A TV universaliza a publicidade, a publicidade impregna a mercadoria de fetiche, o fetiche traz a ilusão de que os presentes, uma vez desembrulhados, irradiam felicidade. Assim, deixamos nos escravizar pelas convenções, sem ao menos indagar o que significam e se nos convêm.

 

Dentro de poucos dias, voltaremos ao ritual que se repete a cada ano: recarregar a despensa e a geladeira para o réveillon e, de novo, os mesmos abraços e afagos, com a vantagem de não dar presentes. Apenas desejar boa sorte e feliz ano-novo.

 

Talvez, no íntimo, o propósito de que "daqui pra frente tudo vai ser diferente." Beber menos, balancear a alimentação, fazer exercícios físicos, deixar o cigarro, dar mais tempo à família. Ou, quem sabe, dar um passo além do próprio umbigo: uma causa solidária, uma instituição de caridade, um projeto que minore a dor dos excluídos. Preocupar-se menos consigo e ocupar-se mais com os outros. Propósitos de renascer. Para que outros tenham vida.

 

Então, sim, será Natal. Nascimento. Como Jesus propôs a Nicodemos, sem que seja preciso retornar ao ventre materno. Deixar que o Espírito dispa-nos do homem e da mulher velhos para nos revestir do novo ser, aquele que tem seu protótipo e paradigma no Menino que dorme no presépio e, agora, desperta dentro de nós, faminto de Deus, de justiça, de uma sociedade menos desigual e um mundo melhor.

 

O Natal deveria durar o ano todo, no mais profundo de nosso coração, o verdadeiro presépio.

 

Frei Betto é escritor, autor de "Um homem chamado Jesus" (Rocco), entre outros livros.

 



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1. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 28-12-2009 12:48
Hai Kais Natalinos
Dois Hai-Kais 
 
Na Beira do Berço 
Maria embala em seus braços 
Seu filho sem berço 
 
Autor: Prof. Luiz Pimentel, é um jovem serelepe de 98 anos, lúcido, inteiraço, ateu e que foi expulso de colégio religioso em Niterói, aos 8 anos em 1918 - por ter perguntado na aula de religião, após ouvir descrição da criação do mundo em seis dias e depois "Fiat Lux!", "DEUS FZ TUDO NO ESCURO". E após ouvir sobre a criação de Eva, de uma costela de Adão, perguntou se "tinha acabado o barro, pois evitaria o sangueira que deve ter sido a operação, além da dor?". 
 
No Natal Burguês 
Tem Pai, Mãe, Espírito Santo 
Comida e Mais Valia 
 
Autor: Escaramuça é artista popular (Poesias, Hai Kais, Contos e Composições) e viaja pelo Brasil a expor sua arte, onde quer que tenha Povo reunido)

2. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 31-12-2009 05:02
Mais consumo aqui... Mais valores lá!
Ótimo texto, Frei Betto!Diante de tudo o que nos foi colocado, questionamos: o que nos convém? Que valores são estes que estão sendo passados ao nosso povo? Estamos sendo iludidos pela \"falsa sensação de felicidade em podermos consumir mais\"?!... Este ano (como em outros anteriores), em época dos festejos natalinos, costumo acompanhar os pronunciamentos dos líderes de alguns países. E, o melhor discurso de Natal, este ano, na minha modesta opinião, foi o do presidente alemão Horst Köhler, com toda a dignidade humanística que um Chefe de Estado deve possuir. Acompanhei o discurso exibido por uma TV alemã e, de acordo com comentários feitos, posteriormente, por alguns jornais da Alemanha, \"o presidente Köhler encontrou o tom certo em seu pronunciamento de Natal. Ele chama a atenção para aquilo que conta para além do êxtase comercial. Valores que constituem uma sociedade, dos quais – no entanto – as pessoas precisam continuamente ser advertidas. \"Quando o egoísmo passa a ofuscar a solidariedade, há algo de errado na Alemanha.\" O presidente alemão apela por maior solidariedade mútua - Em seu pronunciamento de Natal, o presidente da Alemanha conclamou os cidadãos do país a se empenharem em todos os âmbitos da vida por uma \"cultura da atenção e reconhecimento\". Köhler mostrou reconhecimento por milhões de cidadãos \"que se engajam pelo próximo e pela coletividade, seja em associações, igrejas, partidos políticos, iniciativas civis ou na vizinhança\". Ele afirma ter observado continuamente, em 2009, esse empenho que une as pessoas e enriquece o país. As palavras de Horst Köhler fazem refletir a todos. Seu apelo por mais humanidade, mais respeito pelas atividades sociais honoríficas, bem como sua crítica aos excessos de certos banqueiros e executivos, toca exatamente no ponto: advertiu que \"o dinheiro deve servir às pessoas e não dominá-las\". 
Diante da crise financeira e econômica, Köhler exige respeitabilidade e melhores regras para o setor financeiro. \"Acabamos de vivenciar que o descomedimento dos agentes financeiros e as deficiências de uma inspeção estatal fizeram o mundo cair numa crise profunda\", declarou ele.  
 
Apela, ainda, por valores a serem reiterados - Considera necessário lembrar constantemente dessas virtudes e valores, pois no cotidiano eles não seriam nada evidentes. \"Isso está provado pela atitude das pessoas que se omitem enquanto outras são espancadas em estações de metrô e na atuação de banqueiros que se enriqueceram com ganância.  
"Neste ano, vivenciamos atos que nos confrontaram com o limite do compreensível e nos deixaram perplexos\", constatou ele. Essas ocorrências , que levaram o presidente a se perguntar \"até que ponto existe uma consideração mútua entre as pessoas”, deveriam fazer todos se questionar e refletir sobre a convivência em sociedade, apelou – recapitulando os acontecimentos dos últimos meses que causaram uma sensação de desamparo entre os alemães. Ele se remeteu à chacina com 16 mortes numa escola de Winnenden, no sul da Alemanha, em março passado, e à agressão mortal de dois jovens contra um homem de 50 anos numa estação de trem urbano de Munique, em setembro.  
 
Referindo-se à proteção ambiental, também fez um apelo, a fim de que todos atentem mais para os fundamentos naturais da vida. "Isso significa viver de forma mais consciente, por uma qualidade de vida melhor, em harmonia com a criação." Nesse sentido, ele destacou a importância das ideias, da racionalidade e do empenho em projetar um futuro bom. "Trata-se de uma política que pensa e age para além do dia de hoje." 
 
Como podemos observar, não foi um discurso nada populista, que, em nenhum momento, falou-se sobre o orgulho pela produtividade,pelo "aumento do poder aquisitivo"(do consumismo)das classes mais baixas, etc, etc... Falou-se sobre o resgate dos valores humanos que constituem uma sociedade sadia - onde o respeito e a solidariedade mútua devem predominar.

3. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 31-12-2009 05:13
Receita de ano novo
Para quem quiser refletir mais um pouquinho sobre o que foi dito pelo Frei Betto, um outro mineiro nos presenteou com mais algumas dicas de sabedoria:  
Receita de ano novo - Carlos Drummond de Andrade http://www.revista.agulha.nom.br/drumm.html#receita  
 
Abraços e muita paz!

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