topleft
topright
ISSN 1983-697X
AumentarDiminuirVoltar ao original
A contra-revolução jurídica Imprimir E-mail
Escrito por Boaventura de Sousa Santos   
19-Dez-2009

 

Está em curso uma contra-revolução jurídica em vários países latino-americanos. É possível que o Brasil venha a ser um deles.

 

Entendo por contra-revolução jurídica uma forma de ativismo judiciário conservador que consiste em neutralizar, por via judicial, muito dos avanços democráticos que foram conquistados ao longo das duas últimas décadas pela via política, quase sempre a partir de novas Constituições.

 

Como o sistema judicial é reativo, é necessário que alguma entidade, individual ou coletiva, decida mobilizá-lo. E assim tem vindo a acontecer porque consideram, não sem razão, que o Poder Judiciário tende a ser conservador. Essa mobilização pressupõe a existência de um sistema judicial com perfil técnico-burocrático, capaz de zelar pela sua independência e aplicar a Justiça com alguma eficiência.

 

A contra-revolução jurídica não abrange todo o sistema judicial, sendo contrariada, quando possível, por setores progressistas.

 

Não é um movimento concertado, muito menos uma conspiração. É um entendimento tácito entre elites político-econômicas e judiciais, criado a partir de decisões judiciais concretas, em que as primeiras entendem ler sinais de que as segundas as encorajam a ser mais ativas, sinais que, por sua vez, colocam os setores judiciais progressistas em posição defensiva.

 

Cobre um vasto leque de temas que têm em comum referirem-se a conflitos individuais diretamente vinculados a conflitos coletivos sobre distribuição de poder e de recursos na sociedade, sobre concepções de democracia e visões de país e de identidade nacional.

 

Exige uma efetiva convergência entre elites, e não é claro que esteja plenamente consolidada no Brasil. Há apenas sinais, nalguns casos perturbadores, noutros que revelam que está tudo em aberto. Vejamos alguns.

 

Ações afirmativas no acesso à educação de negros e índios

 

Estão pendentes nos tribunais ações requerendo a anulação de políticas que visam garantir a educação superior a grupos sociais até agora dela excluídos.

 

Com o mesmo objetivo, está a ser pedida (nalguns casos, concedida) a anulação de turmas especiais para os filhos de assentados da reforma agrária (convênios entre universidades e Incra), de escolas itinerantes nos acampamentos do MST, de programas de educação indígena e de educação no campo.

 

Terras indígenas e quilombolas

 

A ratificação do território indígena da Raposa/Serra do Sol e a certificação dos territórios remanescentes de quilombos constituem atos políticos de justiça social e de justiça histórica de grande alcance. Inconformados, setores oligárquicos estão a conduzir, por meio dos seus braços políticos (DEM, bancada ruralista), uma vasta luta que inclui medidas legislativas e judiciais.

 

Quanto a estas últimas, podem ser citadas as "cautelas" para dificultar a ratificação de novas reservas e o pedido de súmula vinculante relativo aos "aldeamentos extintos", ambos a ferir de morte as pretensões dos índios guarani, e uma ação proposta no STF que busca restringir drasticamente o conceito de quilombo.

 

Criminalização do MST

 

Considerado um dos movimentos sociais mais importantes do continente, o MST tem vindo a ser alvo de tentativas judiciais no sentido de criminalizar as suas atividades e mesmo de dissolvê-lo, com o argumento de ser uma organização terrorista.

 

E, ao anúncio de alteração dos índices de produtividade para fins de reforma agrária, que ainda são baseados em censo de 1975, seguiu-se a criação de CPI específica para investigar as fontes de financiamento do movimento.

 

A anistia dos torturadores na ditadura

 

Está pendente no STF Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental proposta pela OAB requerendo que se interprete o artigo 1º da Lei da Anistia como inaplicável a crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de corpos praticados por agentes da repressão contra opositores políticos durante o regime militar.

 

Essa questão tem diretamente a ver com o tipo de democracia que se pretende construir no Brasil: a decisão do STF pode dar a segurança de que a democracia é para defender a todo custo ou, pelo contrário, trivializar a tortura e execuções extrajudiciais que continuam a ser exercidas contra as populações pobres e também a atingir advogados populares e de movimentos sociais.

 

Há bons argumentos de direito ordinário, constitucional e internacional para bloquear a contra-revolução jurídica. Mas os democratas brasileiros e os movimentos sociais também sabem que o cemitério judicial está juncado de bons argumentos.

 

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Fonte: http://leituraglobal.com/

 



ComenteComentários (1)Compartilhe

1. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 25-12-2009 11:08
Povo Na Rua!
Já disseram que as Guerras são muito importantes para ficarem sob as ordens e responsabilidades apenas dos militares.  
 
Assim é o Poder Judiciário. É muito importante para ficar restrita a mandos e dewsmandos dos "sapientes" juristas. 
 
Portanto, voltando à velha e esquecida ex- máxima da esquerda (Como sou antigo...)"a questão é política". 
 
Significa dizer que é na Política que estas qustões vão ser moderadas.  
 
E Política sem Manifestação e sem Protagonismo Popular, é um Balé sem Bailarinas (os), é um quadro de Van Gogh sem cor, isto é, uma música de Beethoven sem notas musicais, um Nada, portanto. 
 
O Povo na Rua, e bem mobilizado, coloca no saco as jurisprudências anti populares do regime burguês, até pela possibilidade da Desobediência Civil Ativa. 
 
A Esquerda que acredita em Papai Noel quer "outra ordem jurídica", mas sem desconstruir a existente.

  • Por favor, o assunto do seu comentário precisa ser relevante ao assunto do artigo.
  • Ataques pessoais serão deletados.
  • Por favor, não use os comentário para fazer propaganda de seu site ou será deletado.
Nome:
E-mail
Homepage
Título:
Comentário:

Código:* Code
Quero ser contactado por e-mail avisando sobre comentários

Powered by AkoComment Tweaked Special Edition v.1.4.6
AkoComment © Copyright 2004 by Arthur Konze - www.mamboportal.com
All right reserved

Compartilhe este texto
Twitter
Facebook
Spurl
NewsVine
Reddit
YahooMyWeb
Digg
Ma.gnolia
Delicious
Furl it!
 
Template desenhada por Joomlashack
Creative Commons License
Joomla Templates by JoomlaShack Joomla Templates