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ISSN 1983-697X
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A volta de Deus Imprimir E-mail
Escrito por Maria Clara Lucchetti Bingemer   
24-Jun-2009

 

Não chega a ser uma novidade o fato de estarmos assistindo, já há algum tempo, a certo "reencantamento do mundo", isto é, a uma inversão do processo de secularização deslanchado com a modernidade e sua crise. Essa tendência começou a visualizar-se com a nova consciência religiosa trazida pela Nova Era, o esoterismo, o culto das pirâmides de cristal, o I-Ching, o tarô, o retorno dos anjos e duendes. A razão banida permanecia oculta pelo deslumbramento com um além povoado de deuses maiores e menores, porém fluidos e sem consistência. E o resgate da transcendência sem absolutos expressou-se até mesmo, mais recentemente, em livros de grande tiragem que falavam sobre meninos bruxos e anéis mágicos.

 

Os atentados de 11 de setembro de 2001 trouxeram novos e terríveis exemplos para completarem esse panorama. O fanatismo fundamentalista em todos os campos, e não somente no islâmico, semeou o estupor e o medo, mas também trouxe uma mudança de perspectiva para enxergar o mundo. No entanto, ao mesmo tempo em que crescia a aversão da opinião pública ocidental pelo fundamentalismo, assistia-se ao aumento de receptividade para com a atitude religiosa como tal. Não se pode mais dizer que Deus não é um tema atual.

 

A idéia da incompatibilidade de princípio da secularização com a religião entra decididamente em declínio. E os sintomas do que poderíamos chamar de uma volta de Deus aparecem como sinais visíveis de novos tempos. "Aquilo que muitos acreditavam que destruiria a religião – a tecnologia, a ciência, a democracia, a razão e os mercados –, tudo isso está se combinando para fazê-la ficar mais forte", escreveram John Micklethwait e Adrian Wooldridge, ambos jornalistas da revista britânica The Economist, no livro "God is back". Para muitos e bem concretamente para os jovens, como diz o título do livro, Deus está de volta.

 

A recente reportagem de revista de grande circulação analisa a relação da juventude de hoje com a religião. E a conclusão não deixa de ser surpreendente: os jovens são religiosos. Não como seus pais ou avós, mas de outra maneira, própria, fazendo uma nova síntese entre a experiência da fé e sua expressão. E a internet é um dos recursos que mais intervêm na sede de transcendência do jovem que vai para diante do computador buscar interlocução para seus anseios espirituais.  

 

A modernidade, com efeito, significa uma humanização do divino, a ascensão irreversível da secularidade. Foi um extraordinário progresso para o espírito humano, porque permitiu ao homem, enfim, pensar por si mesmo. Mas a modernidade também comporta um movimento oposto, que eleva e diviniza o humano. A humanização do divino implica o fim das transcendências "verticais", autoritárias, situadas fora e acima do sujeito. Nesse sentido, a modernidade é o reino da imanência.

 

No entanto, hoje se percebe ser possível, também, nas entranhas da imanência - da razão, do conhecimento e da ciência -, pensar algo que a transborda, que a extravasa e a faz autotranscender-se. A força motriz dessa nova transcendência é o amor, que leva os seres humanos a ultrapassar sua interioridade solitária para alcançar o Outro e com ele entrar em relação.

 

Tal experiência e tal atitude não significam o banimento da razão; ao contrário, dão à ciência estatuto pleno de cidadania quando se trata de pensar esse Deus que volta a ser elemento constitutivo do conhecimento e do pensar humanos. A constatação da volta de Deus traduz, por outro lado, a certeza de que nenhuma sociedade pode sobreviver sem a religião, já que a maioria dos homens considera insatisfatórias as respostas dadas pela ciência às perguntas existenciais sobre a vida e a morte.

 

Como impulso utópico e como consciência vigilante dos limites, a fé e sua expressão religiosa têm hoje um lugar assegurado na sociedade do conhecimento e na comunidade científica. Deus está de volta e muito concretamente ali onde menos se esperava que estivesse: entre as novas gerações, filhas da ciência e da técnica. É preciso abrir os ouvidos para entender como esses novos crentes percebem o sujeito maior de sua crença. 

 

Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós" (Editora Paulinas), entre outros livros. (www.users.rdc.puc-rio.br/agape)

 



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1. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 25-06-2009 13:26
Fé&Ciência
A senhora escreve que "a maioria dos homens considera insatisfatórias as respostas...". 
Não será porque aprendemos a considerar o pensamento científico mais 'humano' do que o religioso e por isso, para fugirmos do humano, estamos, outra vez, fugindo de nós mesmos? 
O Deus que a Senhora relata tão brevemente, pois o espaço é pequeno, é exatamente o Deus do medo. medo da compreensão do que é difícil pensar, que é a Ciência, e do apego, pelo mesmo medo, àquilo que não preciso compreender mesmo (dogmatismo). 
Por uma espécie de preguiça ficamos com a "maioria" que nunca aprendeu e não aprenderá a pensar em Deus e MUITO MENOS na ciência. 
Esse Deus da fuga e a Ciência do capitalismo são tão parecidos que desconfio que são obra da mesma espécia de humanidade.

2. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 27-06-2009 03:08
?
Muitas das respostas que os homens deram e darão para uma infinidade de questões serão sim insatisfatórias, visto que a realidade, o mundo, nós mesmos, Deus, são mais \"ricos\" do que aquilo que se pode afirmar sobre elas. O que me entriga é o fato de que quando os homens de ciências não conseguem explicar certas questões, aparecem os religiosos recorrendo ao sagrado, ao mistério e ao sobrenatural para explicar questões naturais, mesmo sabendo que esses elementos escapam do plano da compreensão humana.

3. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 04-07-2009 15:31
O ipê desafia as regras do inverno e se
Gostei muito do texto e vejo que mais de uma constatação é abertura a uma meditação no silêncio frutuoso que nos ajuda a dizer algo, pois mais que respostas precisamos de perguntas que facilite a conviver as incertezas e/ou não respostas encontradas.

4. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 06-07-2009 15:51
Deus X ciências: o grande equívoco
Muito bons os comentários acerca do artigo. Como diria Nietzsche "interpretar Deus, defini-lo, criar uma ciência como a teologia, é ofendê-lo. O silêncio em torno de seu nome é mais nobre." (Vontade de potência). Ora, uma vez que a ciência é falha, por que criar a teologia, que também é uma ciência dos homens, para explicar o divino? Não seria um grande equívoco. E O que dizer do Cristianismo Nazareno em contraposição ao Cristianismo Paulino? No caso para, Nietzsche, "Deus é assim um 'sentimento' para ser 'vivido' e não uma idéia para ser pensada, nem para ser medida". Um grande perigo se encontra na cultura de massa, na comercialização da palavra divina. Acredita-se que meramente se afastando dos problemas sociais, políticos, científicos entre outros e participando de certos cultos religiosos a problemática da humanidade estará resolvida. E não é bem assim. 
Devemos refletir mais acerca das idéias de ciência (que se utiliza da lógica racional humana) e de Deus enquanto um ser divino (fora da lógica humana, da ciência, da racionalização). Como Nietzsche chamou a atenção ao afirmar que deus estava morto e, que teria sido o homen quem o matou, uma vez a humanidade atribuindo-lhe suas qualidades tornando racional, falho, demasiadamente humano... 
Pensemos...

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