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Sempre tive dificuldade para entender o que leva um
professor a “dar” nota 4,3 e não 4,8
a um aluno. Tudo bem, nunca fui muito “objetivo”, e
talvez por isso a minha limitação. Sempre intrigante, também, aquela reclamação
do estudante reprovado: “fiquei por meio ponto...”
Pelo menos em
São Paulo parece que esse problema está resolvido, conforme a
notícia divulgada recentemente. Pelo novo padrão de médias bimestrais na rede
pública estadual, as notas serão arredondadas para mais. O aluno que, por
exemplo, obtiver nota 4,1 na média anual terá sua nota arredondada para 5.
As notas são experiência bidirecional. Quando o professor
“dá” nota 2 para o aluno “fraco” está, ipso facto, “dando” nota 2 para si
mesmo! Merece nota 2 o professor “fraco” que não conseguiu que seu aluno
“tirasse” nota melhor.
Esse “dar” notas e esse “tirar” notas — esses verbos
transformam as notas em valores a serem “tirados” de alguém, que,
benevolamente, pode concedê-los. Ou não. Imagino aluno e professor em animado
cabo-de-guerra, cada qual puxando para si o famigerado meio ponto.
Avaliar é uma das tarefas mais difíceis da tarefa docente.
Porque estamos falando em avaliar o conhecimento que uma pessoa adquiriu, que
um jovem, que uma criança assimilou. Avaliar objetos é simples. O sapato está
furado? Nota zero. O computador está lento? Nota 4. O automóvel é novo? Nota
10.
A nota 10 é uma nota curiosa. Há professores que dizem
jamais terem “dado” nota 10, pois ninguém seria capaz de saber tudo. A nota 10
pode representar o fim dos estudos. Excelente, o aluno decorou e “tirou” nota
10. Passou direto. E daí?
Mas a nota 5 também é interessante. “Tirar” nota 5 significa
que eu sei metade de tudo. E já não seria maravilhoso? Talvez por isso, em
geral, os estudantes sejam aprovados com nota 5.
Para alguns sistemas, só passa quem “tira” nota 7, pois
saberá 70% de tudo. Se eu soubesse 70% de Filosofia ou Física eu seria um
Sócrates, um Einstein.
No dia-a-dia praticamos avaliações. Avaliamos um serviço,
uma conversa, uma proposta. Apreciamos. Julgamos. Aprovamos. Reprovamos. Também
no âmbito escolar precisamos exercitar o espírito de avaliação.
Contudo, as notas tentam quantificar algo que me parece
imponderável. E elas nos fazem esquecer a grande contribuição dos erros. A nota
zero vale tanto, ou mais, do que um 10.
Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.
Web Site: http://www.perisse.com.br
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