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ISSN 1983-697X
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Revitalização do centro de SP premia obras faraônicas e especulação imobiliária Imprimir E-mail
Escrito por João Whitaker   
11-Dez-2008

 

Soube-se recentemente pelos jornais que os suíços Herzog e De Meuron, os festejados arquitetos autores do "Ninho de Pássaro", palco das Olimpíadas de Pequim, foram contratados pelo governo do estado para projetar a futura sede da São Paulo Companhia de Dança e as novas instalações do Centro de Estudos Musicais Tom Jobim.

 

Um imponente projeto, afinado com a política de recuperação do centro que o governo do estado começou a implementar com a Sala São Paulo e a prefeitura vem continuando com o Projeto Nova Luz. Uma política alavancada em obras públicas milionárias, porém sem ações de planejamento que visem coibir a natural valorização da área e a conseqüente expulsão da população mais pobre, que os urbanistas costumam chamar de "gentrificação". Ao lado de tão vultosos investimentos em cultura, não vemos nenhuma ação para promover uma oferta pública de moradia à população pobre que usa e vive no centro, ou para incentivar o mercado privado de habitação de médio e baixo padrão, que corresponde à maior parte da demanda por moradia na região.

 

O projeto proposto prevê a construção de cerca de 20 mil m², para um extenso programa que inclui três teatros, uma sala de espetáculos, salas de ensaio e biblioteca.

 

A notícia repercutiu imediatamente, e de forma polêmica, entre os arquitetos: para eles, a questão é aceitar ou não que, em processo de escolha fechado (embora seja uma obra pública), tenha sido escolhido para o projeto um escritório estrangeiro em detrimento de um brasileiro, com a justificativa, apenas, da sua fama. A reclamação é plausível, não tanto quanto à nacionalidade, mas pelo uso da Lei Federal 8.666/93 para amparar o processo de escolha, que permite que não se faça licitação "quando houver inviabilidade de competição" na contratação de "serviços técnicos de natureza singular", com profissionais "de notória especialização".

 

Fama e sucesso internacional podem até ser uma garantia de que os arquitetos contratados são competentes, mas de forma alguma estabelece que o que eles fazem – projetos de arquitetura – não possa ser feito por outros profissionais. Seus festejados projetos podem ser singulares, porque todo projeto de arquitetura o é, mas o processo projetual em si pode ser feito por todo e qualquer arquiteto. Não há, portanto, "inviabilidade de competição", nem tampouco "notória especialização". O projeto deveria, independentemente da nacionalidade dos vencedores, e por tratar-se de verba pública, ser objeto de um concurso público de arquitetura.

 

Mas não é esse, porém, o verdadeiro escândalo que a notícia traz, mas sim os valores astronômicos em jogo. Estes sim deveriam ser alvo da indignação de todos, arquitetos ou não. O custo total da obra, que será arcado pelo governo do estado, é de R$ 300 milhões. Aos arquitetos, será pago algo entre R$ 19,5 milhões e R$ 25,5 milhões.

 

A título de comparação, a Universidade Federal do ABC, cuja obra já está adiantada, tem em seu programa equipamentos similares aos da nova escola de dança. Porém, sua área construída de cerca de 100 mil m² é cinco vezes maior, e foi licitada por R$ 96 milhões, 3 vezes menos do que o projeto para o centro! Os arquitetos vencedores do projeto receberam R$ 3 milhões! Em outro exemplo, as obras do novo terminal de passageiros do aeroporto de Florianópolis, que incluem a construção da infra-estrutura de circulação das aeronaves e de acesso viário, foram licitadas em R$ 259 milhões, menos do que a escola de dança e seus 20 mil m²! Também nesse caso, consta que o preço de todo o projeto executivo foi de R$ 3 milhões.

 

Como entender que o governo do estado gaste em um prédio de uma escola de dança mais do que o custo de um terminal aeroportuário? Será que não seria mais conveniente um projeto mais modesto, permitindo a destinação de parte desse dinheiro para outros projetos socialmente importantes, como de habitação na área central?

 

Há algo de errado no ar. Ou estamos na Suíça, e ninguém foi avisado, ou há dinheiro sendo jogado fora, em nome de uma suposta "revitalização" do centro que cria obras faraônicas para o deleite do mercado imobiliário, que muito lucrará com a conseqüente valorização da região.

 

João Sette Whitaker Ferreira é arquiteto-urbanista e economista, é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e do Mackenzie, e membro do Conselho Municipal de Política Urbana.

 



ComenteComentários (6)Compartilhe

1. Escrito por Paulo em 12-12-2008 14:55
É de análises que desmascaram a realidade, como essas, que o Brasil necessita - e principalmente os grandes centros.

2. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 12-12-2008 17:07
Revitalização do centro de SP
A população não está carente de infra estrutura habitacional, de saúde, de escolas, de transportes etc. estes são os motivos que permite ao governo tal gastança. Quanta ironia! Pão e circo p/ nós! Na panela de esterco só muda quem está mexendo.

3. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 16-12-2008 17:48
revitalização
Mais uma vez o interesses dos "grandes" prevalece! Como disse Raul certa vez: "toda esta lama que está aí e a gente não faz NADA! NADA!!"

4. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 19-12-2008 16:01
Arquitetura e Espetáculo
Parabéns pelo artigo esclarecedor.  
 
É triste observar como os arquitetos e urbanistas do Brasil são, cada vez mais, vítimas ou atores de um processo falsa modernização dos centros urbanos, em que a espetacularização das obras públicas serve para acobertar grandes negociatas e alimentar o cinismo social. 
 
Nada contra o projeto internacional. Mas sem concurso público? Nada contra a construção dos novos prédios e a revitalização da Luz. Tudo a favor. Mas a custo de uma “gentrificação”?

5. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 19-03-2009 17:26
Revitalização centro X Cracolândia
Olá, moro na região e passo todos os dias na Rua dos Andradas e Santa Efigênia, pois pego metrô Julio Prestes de manhã, também vi estas faixas, fiquei muito decepcionada com nosso prefeito se isso for verdade, por exemplo, vocês lembram do Shopping Luz? A prefeitura Sé fechou as portas do shooping deixando muitos desempregados e agora é palco de mendigos e meninos de rua que assaltam quem passa e o pior, tem um posto móvel da policial civil perto, mas não vemos solução! Caminhando pela rua dos Andradas, tem uma travessa chamada Rua Gusmões, que de manhã e a noite, têm vários traficantes, chega até ser impressionante o movimento dos menores e viciados no local, conversei com uma moradora do local, ela disse que reclamam, os policiais vão, batem em todos mas logo os elementos voltam e nem pensar em passar neste local no domingo quando acaba a feira na Rua dos Andradas, só se quiser ser assaltado. Será que não tem solução? na rua dos Andradas mesmo, tem um ponto de prostituição, uma casa amarelinha, que está lá faz anos e não fecham! Agora também, está história da Santa Efigênia e Rua dos Andradas sobre os comércios, isso é acabar mesmo com o local e trazer ainda mais a cracolândia para perto, esquecendo que na região também a moradores, famílias e é um dos pontos históricos que tem a Luz, o primeiro lugar que os Gringos visitam no centro de São Paulo. Se fosse mais inteligentes? Não é possível, só pode ser político. Só um Desabafo!

6. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 05-10-2009 17:13
PARABENS
Discordo do que aqui muitos falam. Eu acho otimo que escolheram um escritório grande de poderio internacional. O valor pago pela prefeitura está num patamar ok pro mercado internacional pra esse tipo de obra. Não dá pra por esses novos projetos na mão de arquitetos brasileiros que são 99% ruins e 1% menos ruins. Os melhores arquitetos Brasileiros estão em escritorios internacionais. Os que trabalham aqui trabalham na mediocridade...abram as jenelas de suas casas, abram seus olhos qdo passeiam pelas ruas de São Paulo e confiram, a mediocridade está por todo canto. São Paulo é mediocre na arquitetura. Se vc não sacou isso....bom precisa viajar mais e estudar mais.

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