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O
Google é uma ferramenta extremamente útil da Internet. Fazendo uma busca com as
palavras “palmeiras” e “biocombustíveis”, logo depois do meu último texto em que
defendo o cultivo de palmeiras para a produção de biocombustíveis (http://www.correiocidadania.com.br/colunistas/ambiente-e-cidadania/ambcid090407.html), encontrei uma notícia
surpreendente da Folha Online, 27/03/2007 - 09h58, que eu jamais localizaria de
outra forma. Pasmem: “Pesquisa
contesta uso de óleo de palmeira como biocombustível”.
E eu que acreditava tanto na
idéia...
O texto da Folha Online refere-se a um
relatório divulgado no final do ano passado por pesquisadores do Instituto
Wetlands Internacional, da Holanda, que concluiu que a produção de
biocombustíveis a partir do óleo advindo de algumas plantações de palmeiras na
Indonésia e na Malásia (onde são amplamente difundidas) tem um balanço de carbono negativo. Isto porque os
cientistas argumentam que as plantações produzem uma quantidade imensa de
dióxido de carbono, mais do que o uso do biocombustível evita que seja liberado
pelo uso equivalente de combustíveis fósseis. Isso acontece porque estas
plantações são semeadas sobre pântanos drenados, e a perturbação associada ao
cultivo de palmeiras nestas áreas provoca a liberação do depósito resultante da
decomposição de animais e plantas por milhões de anos. Além disso, segundo a
agência
de notícias, um pesquisador daquele instituto alertou que as palmeiras (na
Indonésia e na Malásia, é fundamental que se enfatize) são
plantadas em áreas que eram de floresta e que foram desmatadas para o seu
cultivo.
O
jornalista da
Folha Online destacou corretamente que o óleo de espécies de
palmeiras pode ser utilizado na culinária, na produção de cosméticos,
sabonetes, pães, chocolates e lubrificantes industriais. Além de ser atraente
como bioenergia, visto que é relativamente abundante, barato e facilmente
integrável às estações de energia já existentes. Ainda comentou que sua
produção é considerada “neutra em carbono, ou seja, o carbono emitido durante a
queima do óleo de palmeira é igual ao que é absorvido durante o crescimento da
planta”. Mas deve ter achado que o verdadeiro assunto da notícia que lhe caiu em mãos para
repassar para a rede (o que aparentemente ele fez de primeira) daria
um título longo demais ou desinteressante para o seu público: “Pesquisa contesta uso de óleo de
palmeiras cultivadas
em pântanos e áreas desflorestadas do Sudeste Asiático como biocombustível”.
A
simplificação indevida que ele optou por fazer para contornar este “probleminha
técnico”, ocultando a especificidade geográfica da pesquisa, o conduziu à
manchete equivocada de que a ciência “contesta uso de óleo de palmeira como
biocombustível”, induzindo o leitor e o navegador, que somente vê
manchetes, a crer erroneamente que o problema ocorre com qualquer palmeira em
qualquer lugar. Mais trágica é conclusão geral que tirou daí, de que “o debate
sobre o óleo de palmeira é um exemplo de fatos que esfriam o entusiasmo por
óleos vegetais como substitutos para combustíveis fósseis”. que apenas vê
Na
verdade, o debate
“sobre o óleo de palmeira” é um exemplo de fatos que esquentam (e muito) o
entusiasmo por óleos vegetais como substitutos para combustíveis fósseis. Uma
simples busca no Google pelo célere jornalista revelaria uma série de
iniciativas incipientes de pesquisadores da Embrapa e de universidades por todo o
país defendendo a utilização de espécies de palmeiras para a produção de
alimentos e de biocombustíveis no Brasil. O que falta é a grande imprensa
nacional tratar seriamente a questão das fontes de energias alternativas. E a
problemática ambiental como um todo.
A
informação sobre as emissões de carbono, associadas à perturbação dos
gigantescos pântanos asiáticos (e de seu estoque colossal de matéria orgânica),
causada pelo cultivo de palmeiras para a produção de biocombustíveis, é muito
interessante e necessária. Isso porque ela mostra que nem as palmeiras — que
defendo entusiasticamente — são uma panacéia.
Se
o jornalista da Folha Online se dedicasse um pouco ao assunto das palmeiras e
dos biocombustíveis e suas implicações positivas em potencial para as
especificidades do nosso país, certamente perceberia que não temos em nosso
território pântanos como aqueles estudados pelo Instituto Wetlands
Internacional na Indonésia e na Malásia. Ao invés disto, temos imensas áreas
desflorestadas nos domínios da Mata Atlântica e da Amazônia, que poderiam ser
recuperadas com palmeiras, constituindo-se numa importante fonte de riqueza
para o país na forma de alimentos e biocombustíveis.
Rodolfo
Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East
Anglia, é pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.
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