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ISSN 1983-697X
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Peço desculpas Imprimir E-mail
Escrito por Frei Betto   
24-Out-2008

 

Estou gravemente enfermo. Gostaria de manifestar publicamente minhas escusas a todos que confiaram cegamente em mim. Acreditaram em meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram em minhas mãos o fruto de anos de trabalho, de economias familiares, o capital de seus empreendimentos.

 

Peço desculpas a quem assiste às suas economias evaporarem pelas chaminés virtuais das Bolsas de Valores, bem como àqueles que se encontram asfixiados pela inadimplência, os juros altos, a escassez de crédito, a proximidade da recessão.

 

Sei que nas últimas décadas extrapolei meus próprios limites. Arvorei-me em rei Midas, criei em torno de mim uma legião de devotos, como se eu tivesse poderes divinos. Meus apóstolos – os economistas neoliberais – saíram pelo mundo a apregoar que a saúde financeira dos países estaria tanto melhor quanto mais eles se ajoelhassem a meus pés.

 

Fiz governos e opinião pública acreditarem que o meu êxito seria proporcional à minha liberdade. Desatei-me das amarras da produção e do Estado, das leis e da moralidade. Reduzi todos os valores ao cassino global das Bolsas, transformei o crédito em produto de consumo, convenci parcela significativa da humanidade de que eu seria capaz de operar o milagre de fazer brotar dinheiro do próprio dinheiro, sem o lastro de bens e serviços.

 

Abracei a fé de que, frente às turbulências, eu seria capaz de me auto-regular, como ocorria à natureza antes de ter seu equilíbrio afetado pela ação predatória da chamada civilização. Tornei-me onipotente, supus-me onisciente, impus-me ao planeta como onipresente. Globalizei-me.

 

Passei a jamais fechar os olhos. Se a Bolsa de Tóquio silenciava à noite, lá estava eu eufórico na de São Paulo; se a de Nova York encerrava em baixa, eu me recompensava com a alta de Londres. Meu pregão em Wall Street fez de sua abertura uma liturgia televisionada para todo o orbe terrestre. Transformei-me na cornucópia de cuja boca muitos acreditavam que haveria sempre de jorrar riqueza fácil, imediata, abundante.

 

Peço desculpas por ter enganado a tantos em tão pouco tempo; em especial aos economistas que muito se esforçaram para tentar imunizar-me das influências do Estado. Sei que, agora, suas teorias derretem como suas ações, e o estado de depressão em que vivem se compara ao dos bancos e das grandes empresas.

 

Peço desculpas por induzir multidões a acolher, como santificadas, as palavras de meu sumo pontífice Alan Greenspan, que ocupou a sé financeira durante dezenove anos. Admito ter ele incorrido no pecado mortal de manter os juros baixos, inferiores ao índice da inflação, por longo período. Assim, estimulou milhões de usamericanos à busca de realizarem o sonho da casa própria. Obtiveram créditos, compraram imóveis e, devido ao aumento da demanda, elevei os preços e pressionei a inflação. Para contê-la, o governo subiu os juros e a inadimplência se multiplicou como uma peste, minando a suposta solidez do sistema bancário.

 

Sofri um colapso. Os paradigmas que me sustentavam foram engolidos pela imprevisibilidade do buraco negro da falta de crédito. A fonte secou. Com as sandálias da humildade nos pés, rogo ao Estado que me proteja de uma morte vergonhosa. Não posso suportar a idéia de que eu, e não uma revolução de esquerda, sou o único responsável pela progressiva estatização do sistema financeiro. Não posso imaginar-me tutelado pelos governos, como nos países socialistas. Logo agora que os Bancos Centrais, uma instituição pública, ganhavam autonomia em relação aos governos que os criaram e tomavam assento na ceia de meus cardeais, o que vejo? Desmorona toda a cantilena de que fora de mim não há salvação.

 

Peço desculpas antecipadas pela quebradeira que se desencadeará neste mundo globalizado. Adeus ao crédito consignado! Os juros subirão na proporção da insegurança generalizada. Fechadas as torneiras do crédito, o consumidor se armará de cautelas e as empresas padecerão a sede de capital; obrigadas a reduzir a produção, farão o mesmo com o número de trabalhadores. Países exportadores, como o Brasil, verão menos clientes do outro lado do balcão, portanto, trarão menos dinheiro para dentro de seu caixa e precisarão repensar suas políticas econômicas.

 

Peço desculpas aos contribuintes dos países ricos que vêem seus impostos servirem de bóia de salvamento de bancos e financeiras, fortuna que deveria ser aplicada em direitos sociais, preservação ambiental e cultura.

 

Eu, o mercado, peço desculpas por haver cometido tantos pecados e, agora, transferir a vocês o ônus da penitência. Sei que sou cínico, perverso, ganancioso. Só me resta suplicar para que o Estado tenha piedade de mim.

 

Não ouso pedir perdão a Deus, cujo lugar almejei ocupar. Suponho que, a esta hora, Ele me olha lá de cima com aquele mesmo sorriso irônico com que presenciou a derrocada da torre de Babel.

 

Frei Betto é escritor, autor de "Cartas da Prisão" (Agir), entre outros livros.

 



ComenteComentários (5)Compartilhe

1. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 25-10-2008 09:16
A escassez neoliberal: uma economia seni
Sempre me perguntei como passar por tantas provações na vida e me manter leal aos meu princípios. Como negar a (pseudo)abundância propalada pelo marketing? Imaginem que em 1845, Marx, suas belíssimas teses sobre Feuerbach, já avisava sobre o caos capitalista. Mas não do caos do sistema apenas, mas das milhares de vidas que ucumbiriam frente ao estado senil do capital. Frei Betto prova cada vez mais que é possível ser homem, viver e criticar os absurdo praticados pelo homem, pois, "não me conscientizo para lutar, lutando me conscientizo" (Paulo Freire).

2. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 25-10-2008 14:08
Alegoria II
O pior foi ter desmerecido e ignorado aqueles que, corajosamente e em prejuízo pessoal, tiveram a coragem de criticar e ser oposição a tudo isso. Coisa que eu não tive coragem nem sapiência em fazer. 
 
Redimo-me de ter mentindo em carta aos fiéis, pedindo votos para a reeleição de um presidente já corrompido, enumerando mentiras como feitos de "um governo popular". 
 
Peço desculpas por ter me mantido governista, mesmo fora do governo. A não ter provocados meus pares e alaidos ideológicos a romperem com o governo que elegemos e pensamos em colaborar, permitindo que os que estavam com a razão fossem execrados e isolados pelos vendilhões dos Templos. 
 
Peço desculpas por não ter coragem de criticar publicamente aquel@s que dizem ser meus seguidores e amigos, além de compartilhar da minha Fé, por eles se passarem para apoiar a reação sem máscara, por retaliação aos que imprimem a miséria, porém travestidos de reação com máscara. 
 
E peço perdão ao bom Deus, em cuja existência acredito, por tê-lo envolvido em assunto tão comezinho e humano, como é a Política. 
 
É isso aí!

3. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 27-10-2008 15:19
Peço desculpas
Brilhante o seu artigo, Betto, permita-me a intimidade. É puramente o supra sumo do que ocorre no mundo hoje, parabéns.

4. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 28-10-2008 14:56
Peço Desculpas
Peço desculpas a todo o povo Brasileiro e a Deus, por ter sido assessor e braço direito do Presidente Lula e não ter a mesma radicalidade de mostar a Verdade como estou tendo agora.

5. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 29-10-2008 18:25
Quando os fundos de pensão se forem...
Quando os fundos de pensão controlados pelo sindicalismo concialiador e dono de muitos papéis que parece, logo, não valerão nada... se forem, aí sim quero ver se o sindicalismo lulista-paz-e-amor vai pedir perdão...

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