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É verdade que os capitais das potências coloniais já haviam
transferido, durante a onda de globalização imperialista do século 19,
elementos do modo capitalista de produção e circulação para os países
dominados, ou sob sua influência, como o Brasil. Haviam implantado estradas de
ferro, portos, oficinas de reparos pesados, e mesmo algumas indústrias. Tudo
com o objetivo de transportar as matérias-primas minerais e agrícolas
demandadas por seus centros industriais e, em sentido contrário, transportar os
produtos industriais de suas fábricas, e distribuí-los nos mercados daqueles
países e regiões.
Foi no jogo das disputas entre os países industriais que uma
parte dos latifundiários brasileiros começou a transformar-se em capitalista,
em geral sem abandonar seu monopólio territorial. Mas tais brechas eram
estreitas. Os países capitalistas impediam, por todos as maneiras, a
transferência de elementos mais consistentes do modo de produção capitalista,
como tecnologias e indústrias de base, para fora de seu território imperial.
Assim, para dar um salto em seu desenvolvimento capitalista, foi preciso que
uma parte ilustrada da classe
latifundiária brasileira tomasse o Estado, e o pusesse a serviço da
industrialização, a marca principal do capitalismo nos séculos 19 e 20.
Sob a hegemonia daquele setor latifundiário, durante os anos
1930 e 1940, o Estado brasileiro planejou, financiou e atuou diretamente na
implantação industrial, inclusive de base, construindo as indústrias química,
metalúrgica e siderúrgica, e indo muito além dos elementos de capitalismo já
instalados no país pelos capitais franceses, ingleses, alemães e
norte-americanos. Para tanto, implantou um engenhoso pacto patrimonial entre os
capitais estatais, os capitais privados estrangeiros e os capitais privados
nacionais, de modo a reduzir a resistência dos estrangeiros, e criar o
capitalismo nativo.
A consolidação do pacto entre os capitais estatais e os
capitais privados, nacionais e estrangeiros, criou as condições para a nova
onda de industrialização brasileira dos anos 1950. Mesmo porque, foi no
processo de descolonização e emergência de novas nações, que se seguiu à
segunda guerra mundial, impondo a substituição do domínio territorial pela
disputa e domínio econômico, que os capitais das principais nações capitalistas
começaram a fluir mais intensamente para os países e regiões periféricas,
participando nos diversos aspectos de sua industrialização.
Foi a partir de então que o Brasil começou a parecer
capitalista, embora já fosse injusto e desumano.
Wladimir
Pomar é escritor e analista político.
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