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Um grupo de 44 juízes do
trabalho e ministros do Tribunal Superior do Trabalho aproveitou o feriado
prolongado para realizar, em Natal, Rio Grande de Norte, o “14º Ciclo de
Estudos de Direito do Trabalho”. Até aí, tudo bem. Um dado, no entanto,
transforma o evento em suspeitosa função. As despesas de transporte,
hospedagem, alimentação e lazer dos magistrados, acompanhados dos respectivos
consortes, foram integralmente bancadas pela entidade do patronato financeiro.
O evento, no mais luxuoso e
caro hotel da região, foi aberto pelo vice-presidente do TST que, com inusitada
propriedade, falou sobre ética e moral. E o presidente da FEBRABAN, também
presente no ciclo de estudos, brindou a platéia, formada por magistrados e seus
familiares, além de representantes dos bancos, advogados e outros convidados,
com uma palestra montada a partir da instigante indagação: “para que servem os
bancos?”. A julgar pela descrição do
jornal (luxuoso lazer, boca livre farta e palestras substanciosas), todos
saíram enriquecidos do encontro.
Entrevistado, o
vice-presidente do tribunal afirmou não ver incompatibilidade entre a atividade
do juiz de trabalho e a participação em eventos pagos pelos bancos. Considera
natural: “Os médicos vão a congressos patrocinados pelos laboratórios, mas nem
por isso eu acredito que meu médico vá me receitar um remédio que não seja
compatível com o que eu preciso, só para agradar um laboratório”. Sobre a presença dos esposos e esposas: a
dele não foi, mas considera positivo, “até para evitar maledicências, porque
muitas pessoas, às vezes, pensam erradamente que um congresso destes pode ter
um sentido menos nobre”.
A nobreza do encontro também
foi defendida pelo presidente do sindicato dos bancos. Revelou que o patrocínio
é antigo: “faz 14 anos que esse ciclo existe”, e que não há, por parte da
FEBRABAN, nenhuma expectativa em melhorar o desempenho dos bancos nos tribunais
com a realização do evento. Ele acha
normal no setor financeiro “e em vários outros da economia que haja uma
aproximação entre as partes para que se debata um tema de relevância para o
futuro das próprias relações, da economia e da sociedade”. Interesse geral e generosidade pura. Faz até
lembrar aquele slogan, onde a malícia publicitária revela no contrapelo a
imagem pública da categoria: “nem parece ser banco”.
A casta financeira, que já
manda no Banco Central, possui bancada poderosa no Parlamento e tece malhas de
cumplicidades no Judiciário, está tranqüila nas suas convicções. E os ventos
que sopram da operação furacão ainda não foram suficientes para abalar as
convicções do juiz. “Cidadãos acima de qualquer suspeita”, aliás, é o título de
um artigo publicado na página de opinião do mesmo jornal e no mesmo dia, onde
um desembargador paulista emite indagações terríveis: “quer dizer então que o
crime organizado são as estruturas do bingo, do jogo do bicho, do contrabando,
mas nada tem a ver com as estruturas do poder de Estado, do tráfico de
entorpecentes, do cassino financeiro? É mesmo?”. O rega-bofe de Natal não oferece a resposta
inteira, mas reforça no cidadão comum a convicção sumarizada no ditado popular:
“a justiça é cega, mas tateia”.
Léo
Lince é sociólogo.
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