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ISSN 1983-697X
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Desculpe alguma coisa PDF Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Perissé   
29-Ago-2008

 

Muitos já comentaram a frase-desafio "você por acaso sabe com quem está falando?", lugar-comum de certa arrogância nacional. Outros já analisaram a expressão idiomática "fazer nas coxas", que denuncia outro comportamento nosso. E o "com certeza", que invadiu nossas conversas, aumentando a desconfiança...

 

Percebi recentemente o valor de outra frase que ajuda a nos definir. O "desculpe alguma coisa", ou o "desculpe qualquer coisa". O dito vem acompanhado de feições contritas. O pobre coitado pede perdão por algo de que não tem plena consciência. Vai saber o que fez...

 

Será essa frase resquício da atitude escrava, do servilismo de quem, antes de ser punido, já vai pedindo desculpas por alguma coisa, por qualquer coisa, pelo pecado que cometeu sem se dar conta?

 

A pessoa cumpriu a tarefa, realizou o serviço, concluiu o trabalho, entregou a encomenda, mas ainda assim sussurra compungida, ao sair, sorriso sem graça: "Olha, o senhor me desculpe qualquer coisa". Ora, como não hei de desculpar ser humano tão perdoável?!

 

A desculpa nasce da culpa. E a culpa não é de todo ruim. Tenho medo dos que jamais se sentem culpados, dos que nunca se arrependem de nada, dos que se consideram infalíveis. Mas me incomoda tanto ou mais ver alguém sentir-se culpado por alguma coisa, por uma qualquer coisa, por essa coisa terrível, genérica, sem causa, sem contornos.

 

Imaginemos que depois de escrever este texto, eu me sinta culpado por algo não ter dito, ou por uma vírgula talvez mal empregada, ou por uma idéia infeliz cuja infelicidade não percebo bem e acrescente, a modo de finalização, "Caro leitor! Prezada leitora! Desculpe qualquer coisa"...

 

Do que sentimos culpa, afinal? Que remorso é este? E há medo? Medo do inferno? Ou de apanhar de invisível palmatória, dolorosa e presente na imaginação? Pedimos desculpas como gesto de boa educação, expletivo sem motivo, maneira de provar que temos boas maneiras, que somos gente boa, pobre, porém honesta?

 

Quantos vivem aprontando e nunca pedem perdão?! Mas há os que pedem desculpa por tudo, por nada e por qualquer coisa. Outro dia, a porta aberta, já se despedindo, já com o pagamento no bolso, o técnico que veio fazer a manutenção dos computadores disse humildemente: "Desculpe alguma coisa, viu?".

 

Não resisti e perguntei: "Que coisa? Do que devo desculpar você?" O rapaz sorriu, pigarreou e... não respondeu.

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

 

Website: http://www.perisse.com.br/

 




  Comentários (1)
 1 incandescência
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 30-08-2008 17:57
Ilumina a escritura do professor Gabriel Perissé. Sim, porque muito do que percebo no meu dia-a-dia das funções, se refletido, teria a propriedade de seu texto sobre a famigerada expressão "desculpe alguma coisa". Observo a pérola "A desculpa nasce da culpa. E a culpa não é de todo ruim.", no texto do autor, e passo a viver melhor. Assim tão eficaz deveriam ser muitos trabalhos intelecutais. Parabéns pela incandescência de sua percepção, professor Gabriel!

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