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É verdade que ainda temos companheiros que, ao pensar no
socialismo, pensam nele como um desejo, uma vontade profunda, uma utopia. Como
tenho dito, prefiro pensar o socialismo como uma possível solução para os
problemas do desenvolvimento econômico, social, cultural e político do
capitalismo. Em outras palavras, acho que pensar no socialismo sem pensar no
capitalismo real é quase como pensar numa viagem espacial sem foguete lançador.
Tomemos o caso do Brasil. Tem gente que vive reconhecendo que
nosso país tem enormes desigualdades, é injusto e desumano. Mas é incapaz de
dizer que o Brasil é um país capitalista. E que, como a maioria dos países
capitalistas, possui enormes desigualdades, é injusto e desumano. Afinal, as
leis gerais que regem o capitalismo são as mesmas para todos os países ou
regiões onde esse modo de produção se implantou e criou raízes.
No entanto, essa generalidade pode dizer tudo, e não dizer
nada. Simplesmente porque o capitalismo brasileiro não é igual aos capitalismos
ianque ou francês. A forma como aquelas leis gerais atuam difere de país para
país, porque o legado histórico de cada um deles obriga as leis gerais do
capitalismo a adaptar-se, a moldar-se, e a criar características próprias, que
o distinguem dos demais. O que faz com que alguns dos aspectos fundamentais do
capitalismo demorem mais tempo para realizar-se plenamente, em alguns desses
países ou regiões, do que em outros.
Só para relembrar um aspecto. Na maior parte dos países
capitalistas maduros, o capitalismo viu-se obrigado a lutar ferozmente contra as
relações feudais ou as relações escravistas de propriedade. A revolução
gloriosa, na Inglaterra, a revolução burguesa, na França, e a guerra de
secessão, nos Estados Unidos, são episódios marcantes e revolucionários da
história do capitalismo para tornar-se o modo de produção predominante.
No Brasil, o capitalismo não nasceu em luta contra o sistema
semi-escravista e semi-feudal prevalecente na agricultura e na sociedade.
Nasceu promovido pelos latifundiários mercantilistas das plantations de café, diante das oportunidades abertas pela
industrialização européia, a partir da segunda metade do século 19. Apresentou
um salto evolutivo entre os anos 1910 e 1920, substituindo importações nas
brechas da primeira guerra mundial. Porém, só foi tomar impulso tardiamente,
nos anos 1930. Mesmo assim, também sob a tutela do setor latifundiário que
assumiu o poder de Estado, criou empresas estatais, e promoveu um pacto entre o
capital estatal e os capitais privados.
Esse nascimento em berço esplendido tem marcado a história do
capitalismo brasileiro com características conservadoras e dependentes muito
próprias.
Wladimir Pomar é escritor e analista político.
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