topleft
topright
ISSN 1983-697X
AumentarDiminuirVoltar ao original
A Revolução Cubana hoje Imprimir E-mail
Escrito por Grupo São Paulo   
13-Ago-2008

 

Fruto de centenária luta por libertação da condição de colônia - da Espanha até o fim do século XIX e dos EUA na primeira metade do século XX -, a Revolução Cubana é essencialmente um processo de construção da nação.

 

O aprofundamento deste processo levou, já no início da década de 1960, à reforma agrária, à nacionalização de petroleiras e usinas de açúcar de capital estadunidense e à campanha massiva de alfabetização em que o povo cubano se libertou da "cultura do silêncio", como o educador pernambucano Paulo Freire se referia à situação em que o oprimido assume critérios e valores do opressor para se enxergar no mundo. Em resposta, o governo dos EUA impôs bloqueio econômico a Cuba que dura até hoje.

 

O caráter socialista da Revolução é, portanto, fruto da radicalização do sentido nacional-democrático que impulsiona a superação da dependência e do subdesenvolvimento em Cuba. E Fidel Castro, que anunciou em fevereiro deste ano que não mais aceitará mandato como presidente e comandante-em-chefe do país, é expressão singular deste meio século de resistência ao imperialismo e de contribuição à construção da civilização latino-americana.

 

Com pouco mais de onze milhões de habitantes e escassos recursos naturais disponíveis, Cuba conquistou, desde o triunfo revolucionário, em janeiro de 1959, níveis de universalização no acesso à educação, saúde e trabalho que nenhum país da América Latina – incluindo Brasil e México, as maiores economias industriais da região – ou da África conseguiu ainda. Assim como os resultados esportivos de Cuba nas Olimpíadas, o atual nível de vida da população só pode ser comparado ao dos países mais ricos do mundo, sobretudo na Europa.

 

O colapso da União Soviética, na última década do século passado, obrigou o governo cubano a adotar reformas econômicas emergenciais, uma vez que a URSS era o sustentáculo do Conselho de Assistência Econômica Mútua (Comecon), organização de cooperação que reunia os países do bloco socialista e promovia trocas comerciais a preços favoráveis. De 1989 a 1993, Cuba perdeu 80% do seu comércio exterior e 34% do Produto Interno Bruto. A produção de açúcar, então o principal produto de exportação, caiu de 8 milhões de toneladas para pouco mais de um milhão atualmente.

 

Foram implantadas medidas drásticas para racionalizar o uso de energia e derivados de petróleo e diversificar a produção agrícola, adotando métodos baseados na agroecologia e na recuperação do solo. Outras fontes de divisas foram buscadas no turismo, na biotecnologia (produção de remédios e vacinas) e na mineração de níquel, cuja produção saltou de 27 mil toneladas em 1993 para 100 mil este ano.

 

O governo abriu espaços limitados à iniciativa privada e ao trabalho por conta própria, além de permitir aos agricultores vender legalmente no mercado a produção que ultrapassasse as cotas estabelecidas. Áreas de fazendas estatais foram distribuídas a famílias que quisessem se mudar da cidade para o campo e se tornarem pequenos produtores, organizadas em cooperativas. Aquelas que permaneceram na cidade foram estimuladas a criar hortas em terraços, estacionamentos e jardins, num programa hoje difundido em diversos países latino-americanos e asiáticos.

 

Para facilitar a captação de divisas pelo turismo, em 1993 foram criadas lojas estatais que vendiam produtos de melhor qualidade em dólares. Isso criou o que os próprios cubanos denominaram de "economia dual", isto é, diferenciação entre os cubanos que continuavam a receber em moeda nacional daqueles que, trabalhando em atividades ligadas ao turismo, ganhavam em dólares e podiam usufruir de um padrão de consumo diferenciado.

 

Estas medidas emergenciais foram sendo parcialmente revertidas à medida que a recuperação econômica começou a mostrar seus efeitos, já no final da década de 1990. A Alternativa Bolivariana para os Povos das Américas (ALBA), iniciativa dos governos de Cuba e da Venezuela, e que hoje inclui ainda Bolívia, Equador e Nicarágua, também contribuiu para aliviar as dificuldades para a importação de combustíveis, ao promover a troca direta de petróleo venezuelano por trabalho de médicos cubanos nas favelas de Caracas.

 

Novas licenças para trabalho por conta própria deixaram de ser emitidas e tantas outras foram revogadas, resultando numa queda expressiva no número de trabalhadores nesta situação: de 200 mil em 1997, hoje são pouco mais de 120 mil. Somados aos cerca de 150 mil trabalhadores agrícolas autônomos, representam pouco mais de 6% da população economicamente ativa, 75% da qual continua empregada pelo Estado.

 

A principal reforma do governo cubano desde que as perspectivas da economia melhoraram foi no sentido de superar a dualidade econômica. Em 2004, as lojas estatais deixaram de aceitar moeda estrangeira e, embora a posse de dólares continue permitida, o governo criou uma taxa de 10% sobre o câmbio do dólar que não é aplicada a outras moedas, estimulando o uso do Euro no turismo e antecipando a intensa desvalorização da moeda estadunidense nos últimos anos.

 

Em continuidade ao processo de aperfeiçoamento da economia e já sob a presidência de Raul Castro, eleito sucessor de Fidel, o governo cubano anunciou em maio deste ano medidas para reformar o sistema salarial, eliminando o teto dos pagamentos e ampliando os prêmios por produtividade, vinculando os salários a metas de produção ou de qualidade na prestação de serviços.

 

Nos últimos anos, as taxas de crescimento da economia cubana têm sido das mais altas da América Latina e do mundo, devendo fechar 2008 com expansão acima de 5,5%, a despeito do bloqueio econômico que o governo dos EUA, à revelia das sucessivas condenações na ONU, segue mantendo contra o povo de Cuba.

 

A resistência ao imperialismo pela superação do subdesenvolvimento segue encontrando importantes lições no processo revolucionário de Cuba, que há quase 50 anos constrói uma alternativa política e econômica ao capitalismo liberal, fundando no socialismo os alicerces de uma nação soberana.

 

Thomaz Ferreira Jensen, Alejandro Buenrostro y Arellano, Elisa Helena Rocha de Carvalho, Guga Dorea, José Juliano de Carvalho Filho, Marietta Sampaio, do Grupo de São Paulo - um grupo de 10 pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ.

 

Contato: mailto: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

 

Artigo publicado na edição de julho de 2008 do Boletim Rede.

 



ComenteComentários (3)Compartilhe

1. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 14-08-2008 16:25
Alguma coisa errada- A Revolução Cubana
Apos passear por alguns sitos cubanos tenho visto muitos comentários a respeito da situação cubana hoje: Muito pouco se fez para melhorar o cotidiano do cubano,afirmam esses sitios que muita corrupção em Cuba,os salários continuam muito baixos e na área tecnológica nem todos conseguem acessar a internet, para ficarmos somente nestes patamares.Será que este sitios mentem e são financiados pela máfia cubana de Miami,ou de fato a situação cubana é de estrangulamento social e economico?.

2. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 18-08-2008 15:38
A Ilha que Incomoda
A Ilha de Cuba na segunda metade do século XX, deixou dois legados importantes no inconsciente coletivo latino-americano, o de libertação e de resitência aos assédios dos exploradores capitalistas. Ela conseguiu não só manter a revolução no país até os dias atuais, como, também tem encontrado saída, ainda que precária para sobreviver a qualquer embargo econômico. A educação atingiu aos altos índices mundiais, ao ponto de fazer com que os seus médicos e professores contribuissem para programas humanitários em países hispano-americanos. Isso tem incomodado ao império estadunidense que tentou minar todo o sucesso da autonomia política cubano. E pensou que promovendo o embargo e abrigando capitalistas cubanos refugiados do regime de Fidel Castro, fosse ocasionar uma crise séria que pudesse corromper o povo cubano. Com o objetivo de facilitar a entrada dos cubanos direitistas de Miami e retomando a sua antiga extensão de quintal que tinha no mundo. No momento a oportunidade que Cuba tem para se estabilizar e manter o seu programa revolucionário que criou benéfices à nação cubana, é juntar-se de modo organizado com as nações vizinhas através da ALBA - Alternativa Bolivariana para os Povos da América. Se mesmo sofrendo dos problemas existentes na nossa Confederação, pôde levantar a dignidade dos seus habitantes conforme o seu alcance, porque, não podemos eliminar as longíquas fronteiras da desigualdade social geradas pela injusta distribuição de renda? E ao contrário do que se imagina, ela é o exemplo que serve como resposta para essa questão lançada em nosso continente.

3. Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email em 08-08-2009 16:54
Gosta de ler e oivir a respeito Cuba.
Admimro a determinação do povo cubano na resistencina revolucionaria, lamento somente a não costrução de um parque fabril na ilha mais impotante do Caribe.

  • Por favor, o assunto do seu comentário precisa ser relevante ao assunto do artigo.
  • Ataques pessoais serão deletados.
  • Por favor, não use os comentário para fazer propaganda de seu site ou será deletado.
Nome:
E-mail
Homepage
Título:
Comentário:

Código:* Code
Quero ser contactado por e-mail avisando sobre comentários

Powered by AkoComment Tweaked Special Edition v.1.4.6
AkoComment © Copyright 2004 by Arthur Konze - www.mamboportal.com
All right reserved

Compartilhe este texto
Twitter
Facebook
Spurl
NewsVine
Reddit
YahooMyWeb
Digg
Ma.gnolia
Delicious
Furl it!
 
Template desenhada por Joomlashack
Creative Commons License
Joomla Templates by JoomlaShack Joomla Templates