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Um leitor não gostou da idéia que propus do PEC, o Pacote
Ecológico de Crescimento (uma série de alternativas ao PAC nas áreas de energia
elétrica, transportes e agricultura que permitissem ao país crescer, mas sem
produzir os impactos ambientais deste). Ele criticou-me por eu não ter me
posicionado contrariamente à própria lógica do crescimento. Embora a minha
intenção fosse justamente tentar ver o que seria possível e viável dentro do
sistema e da atual conjuntura, o leitor não deixa de ter razão, uma vez que
esta estrutura é inviável já no médio prazo.
Praticamente todos os analistas e planejadores econômicos
possuem uma visão de curtíssimo prazo: olham apenas como as economias podem crescer
o máximo possível de um ano em relação ao anterior; no máximo planejam um
período de 5-10 anos, mas sempre sob a ótica da necessidade quase
esquizofrênica de crescimento (quando não apenas para o enriquecimento próprio
ou de um grupo a que pertençam). Pouquíssimos são capazes de dar um passo atrás
e olhar o quadro geral e as consequências futuras deste comportamento.
Mas é preciso sim fazer tal análise e criticar a lógica
inerente à economia da sociedade contemporânea, que está baseada na necessidade
de crescimento contínuo e no aumento do consumo pelo consumo. Isto porque,
pensando no assunto um pouco, a conclusão a que se chega é tão simples quanto
óbvia: não há como crescer indefinidamente e, a continuarmos assim, o sistema
está fadado ao colapso. A razão é que, para crescer, precisa-se sempre de mais matéria-prima
e oferta de energia. Ambas são finitas, logo o sistema tem um limite
estrutural. Pode-se argumentar que há algum espaço para crescimento por aumento
de produtividade ou via aumento de valor agregado, mas ambas as formas são
limitadas, e para a segunda há também a necessidade de mais energia, embora não
de matéria-prima.
O limite do petróleo e das fontes de energia e matéria-prima
não-renováveis é óbvio. Um dia acabarão, mais cedo ou mais tarde. Mas mesmo as
energias e matérias-primas renováveis têm um teto - que ainda está longe de ser
atingido, é verdade, mas é um limite de qualquer forma. Mesmo que represemos
todas as quedas de água de todos os rios, que destruamos toda a vegetação do mundo
para produzirmos energia de biomassa ou que cubramos toda a superfície
terrestre de placas solares e geradores eólicos, haverá um ponto final, pois
não haverá mais nem quedas e nem espaço para geradores e plantações. E é
justamente por isso que boa parte dos ambientalistas critica tanto a lógica do
sistema, pois até que o mundo se dê conta deste limite óbvio, poderemos ter
feito um estrago muito maior que o que já fizemos, talvez irreversível.
Um outro aspecto extremamente triste do nosso modelo é que mesmo
este crescimento econômico não tem trazido justiça social na proporção do
aumento de riqueza global. Assim, não há distribuição de renda e a disparidade
entre ricos e pobres diminui muito pouco, quando não aumenta.
Contudo, mesmo sendo ambientalmente inviável e socialmente
injusto, sempre há algum ganho social com o crescimento, nem que seja um
aumento na quantidade de papelão disponível aos catadores (ou para servirem de
cama aos moradores de rua). Mesmo em termos menos dramáticos, a sociedade como um
todo ganha qualidade de vida com o crescimento, embora a disparidade social
seja mantida. É aí – e considerando que na atual conjuntura não há muito espaço
para uma forte mudança na estrutura das sociedades, o que só aumenta a
necessidade de ficarmos insistindo em sua importância – que se situa a minha
proposta com esta série de artigos sobre o PEC que encerro aqui, sempre com a
esperança de que seja um crescimento socialmente mais justo.
Olhando-se todas as alternativas que
me esforcei para compilar, fico com um sentimento ambíguo de entusiasmo e
desânimo. Entusiasmo por saber que há possibilidades concretas e viáveis, as
quais inclusive poderiam trazer uma série de benefícios extras, e que há muitas
pessoas preocupadas e pesquisando seriamente estas alternativas. No campo da
energia elétrica e da agricultura, o número de publicações especializadas sobre
o assunto é imenso, e em inúmeros casos os pesquisadores e técnicos descem a
níveis de detalhe impressionantes, analisando a viabilidade econômico-financeira
das alternativas, apresentando sugestões de políticas públicas bastante
específicas, ou descrevendo as barreiras a serem vencidas. Desânimo por sentir
que não só o governo, mas todo o rolo compressor e formador de opinião,
composto pelo empresariado brasileiro e a grande mídia corporativa, farão de
tudo para que usinas hidrelétricas como Belo Monte, no Xingu, e Jirau e Sto.
Antônio, no rio Madeira, saiam do papel o mais rapidamente possível. E isto a
que custo seja, mesmo que atropelando as leis, o IBAMA e a ministra Marina
Silva, que, aliás, está tornando-se cada vez mais meramente decorativa (embora
pudéssemos estar até muito piores sem ela). As recentes declarações de Lula
atestam bem para o fato. Porque tal insanidade se perpetua em nossa sociedade?
Uma boa resposta foi dada por Al Gore em seu filme, “Uma verdade
inconveniente”: “É impossível fazer alguém entender uma coisa, se este alguém é
pago para não entendê-la”.
Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal
pela Universidade de Saint Andrews.
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