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O ministro
Geddel Vieira Lima agora é um defensor da transposição, ele que foi sempre
contra. Afirmou que era contra porque não conhecia. Portanto, ou era
superficial antes, ou é superficial agora. Esse não é o problema da sociedade
civil que há quase 15 anos debate esse projeto e praticamente o conhece até em
seus pontos e vírgulas.
Geddel
diz que vai fazer o projeto, embora queira debater antes com a sociedade
opositora. Diz também que haverá uma compensação para o São Francisco,
abastecendo as comunidades a uma distância de dois kms que até hoje não têm
água. O programa vai chamar-se “Água para Todos”.
É
importante, mas é mais uma saída pela tangente do governo federal. O governo
gira em torno do rabo para não enfrentar o problema. A questão não é mais uma
compensação, mas arquivar esse projeto que já consumiu mais de 500 milhões de
reais em elaborações de projetos, consultorias, reuniões, salários, o diabo a
quatro, mas nunca saiu do papel. Tem gente vivendo profissionalmente desse
projeto, quase a se aposentar. Portanto, virou forma de vida. E o Ministério da
Integração virou esse ninho de cobras da transposição há mais de 15 anos, desde
Itamar. Entra ministro, sai ministro e esse projeto é praticamente pauta única
desse Ministério.
Quanto
mais debate, mais o governo perde aliados. O problema não é de conhecimento, é
de convencimento. Hoje a lista de entidades nacionais contra o projeto quase
não tem fim: OAB, SBPC, ASA, Comitê de Bacia do São Francisco, CPT, MST, Via
Campesina, Frente Cearense pela Nova Cultura da Água etc. A CUT vai decidir agora.
Para
complicar a vida do ministro Geddel e do governador Wagner, o mito da água para
sede humana na transposição está totalmente descartado. Sem combinar com o
governo – parece que foi por acaso –, a Agência Nacional de Águas lançou ao
final do ano passado o Atlas do Nordeste. Simplesmente propõe 530 obras que
atingem 1.112 núcleos urbanos acima de cinco mil pessoas e mais 244 abaixo
desse número. O Atlas contempla todos os nove estados do Nordeste e mais o
Norte de Minas. Pode beneficiar 34 milhões de nordestinos, porque vai além do
semi-árido e pensa os grandes centros urbanos do Nordeste, inclusive Salvador.
Finalmente, custa apenas 3,6 bilhões de reais, metade do que será gasto para
iniciar a transposição.
Tem
um detalhe baiano no Atlas. Ele alcança 312 municípios da Bahia, beneficiando
mais de seis milhões de baianos. Só a obra complementar para Salvador custaria
aproximadamente 99 milhões de reais. Deixa o ACM saber disso. Geddel e Wagner,
ao optarem pela transposição e desprezarem a Bahia, não estarão apenas
entregando as próprias cabeças para ACM, estarão devolvendo a Bahia para esse
grupo que é tudo, menos burro.
Portanto,
se Geddel quer mesmo resolver os problemas hídricos do Nordeste, inclusive os
de 312 municípios da Bahia, já tem as alternativas nas mãos. Somadas com as
obras da ASA para o meio rural – 1 milhão de cisternas para beber e mais 1
milhão de cisternas de 50 mil litros para irrigação sustentável, sem falar na
terra –, o Nordeste poderia mesmo ser outro. E nem adianta vir dizer que
transposição e obras da ANA e ASA são complementares. Tornou-se definitiva a
palavra do presidente da ANA, José Machado: “a transposição tem finalidade
econômica, o Atlas, de abastecimento humano”. Portanto, a prioridade é humana.
Diante
das propostas da ASA e da ANA, a proposta da transposição parece ridícula, já
que não tem sequer a metade dos benefícios e possui todos os malefícios
possíveis, inclusive o de dividir o Nordeste. Diante dos benefícios do Atlas do
Nordeste para a Bahia, o “Água para Todos” vai parecer piada.
É
bom Geddel saber o quanto antes que não existe mais saída honrosa para os
governos federal e estadual. É tarefa do governador e do ministro prepararem a
Bahia para o pior que virá. O mal menor é arquivar a transposição e a saída é
implementar as obras da ASA e da ANA, realmente preparar o Nordeste para a
mudança climática e escassez de água que se agravarão até 2015, inclusive na
Bahia.
Roberto Malvezzi, o Gogó, é coordenador da CPT.
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