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ISSN 1983-697X
Nossos governantes não querem um modelo de desenvolvimento nacional PDF Imprimir E-mail
Escrito por Waldemar Rossi   
18-Mar-2008

 

O professor Carlos Lessa, em seu artigo para a Folha "Brasil, nação evanescente?" (18/03/08, pg. 3) analisa momentos de nossa história econômica e leva-nos a entender que, do seu ponto de vista, carecemos de um projeto de desenvolvimento nacional amplo, que contemple toda nossa potencialidade. Partindo do longo período de nossa colonização e da escravatura, caminha para o nacional-desenvolvimentismo iniciado por Getúlio, mostrando que sua principal falha foi não contemplar o desenvolvimento no campo (podemos interpretar que faltou uma ousada Reforma Agrária).

 

Carlos Lessa não comenta, porém sabemos que esse projeto nacional-desenvolvimentista foi interrompido com o golpe militar de 1964, quando os militares iniciaram a entrega do Brasil, "de mãos beijadas", para o controle do capital multinacional. Foi o início da fase do "boom" industrial sob o comando das indústrias estrangeiras, que provocaram uma profunda reviravolta no Brasil urbanizando-o, porém, sem a infra-estrutura necessária nos grandes centros para garantir qualidade de vida aos migrantes internos. Seus objetivos eram trazer mão de obra abundante do campo para a cidade e provocar o esvaziamento das terras férteis de fácil acesso. O primeiro objetivo visava alimentar a indústria de mão de obra barata e de reserva; o segundo, abrir espaço para a entrada do capital internacional visando à produção agrícola exportável.

 

Hoje, estamos pagando um preço excessivamente caro por essa traição nacional: somos dependentes dos humores do capital internacional, contamos com um estado de desemprego, trabalho precário e baixíssimos rendimentos para os trabalhadores em geral, enquanto que se avoluma a concentração de terras nas mãos de poucas grandes empresas e os trabalhadores rurais não têm terra disponível. Escasseia a produção agrícola para consumo interno enquanto cresce para a exportação; cresce a economia dos grandes grupos enquanto vai-se tornando miserável a vida de mais de cem milhões de brasileiros. De resto, a ditadura militar nos deixou um salgado caldo de corrupção institucional.

 

Voltando ao artigo do professor Lessa, entendemos, de sua leitura, que os governantes que vieram como sucessores dos militares não tiveram e não têm a menor preocupação com a construção de uma nação livre e soberana, criativa e capaz de assumir papel importante no processo revolucionário mundial. Vai mostrando como avança desmesuradamente a desnacionalização da nossa economia, da nossa intelectualidade, da nossa juventude, num processo que nos deixa reféns das forças econômicas e políticas internacionais: "Nossos cérebros estão indo cada vez mais para o exterior. Estamos nos convertendo num país de emigração. Nossos capitais se refugiam em aplicações no Caribe. A juventude é mobilizada para o mercado. A degradação das instituições republicanas, a perda do prestígio do homem público, o repúdio à política como exercício de cidadania guardam relação perversa de realimentação com o cenário supra-descrito".

 

Temos que lamentar que até mesmo governantes que antes se diziam de esquerda – alguns intelectuais e com grande conhecimento das mazelas do capital - preferiram esquecer seu glorioso passado, se esquecer do povo em nome do qual se elegeram e aprofundar a alienação do país, iniciada pelos golpistas de 1964. Nenhum deles ousa pôr em prática um projeto de desenvolvimento nacional (sem o "ismo" detestável).

 

Preferem fazer o jogo do capital e gozar do prestígio e da companhia fugaz dos donos do poder econômico mundial. Fica a pergunta popular: "E o povo, como fica?" A resposta vem acontecendo a cada nova eleição, desde que se introduziu o sistema eleitoral no Brasil!

 

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

 




  Comentários (4)
 1 Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 19-03-2008 14:25
bravo Waldemar
 2 Brasil dependência do sistema financeiro
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 20-03-2008 20:26
Prezado articulista: 
 
O debate sobre a macroeconomia brasileira se faz sempre necessários, pois devido as amarras com o sistema financeiro estamos sujeitos a perder um momento propício da economia mundial para amparar a crise norte-americana evidenciada pela detenção de metade da dívida interna por investidores estrangeiros, inclusive o homem considerado mais rico do mundo em 2007. 
 
Saudações 
Trajano Gracia
 3 Nossos governantes não querem um modelo
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email website, em 24-03-2008 13:32
Nossos governantes? Nos últimos 40 anos não tivémos um único eleito para os cargos chave da federação que mereça o título de governante. Todos eles resignaram-se a seguir a cartilha de Washington via FMI e foram atolando o Brasil nesta situação que nem ilusória é mais! O Povo necessita acordar antes que lhe coloquem os grilhões novamente e falta muito pouco!
 4 De 4 em 4 anos...
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 28-03-2008 11:01
O que o Waldemar nos coloca brilhantemente é fato e acontece diariamente bem ao nosso redor. 
Observe o comportamento de um candidato ao cargo do legislativo e/ou executivo de um pequeno município do interior de SP (para não dizer de todos os municípios do brasil) e veja com os próprios olhos. 
Obs: O fenômeno é mais comum no período de 4 em 4 anos. 
Abraço à todos.

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