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ISSN 1983-697X
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A vida não ouvida PDF Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Perissé   
11-Mar-2008

 

Ex-refém das Farc, Luis Eladio Pérez passou seis anos e sete meses longe do seu mundo. Muitas vezes incomunicável, falava com as árvores: "Eu estava sozinho havia dois anos; falava com as árvores"!

 

Não é loucura, é sanidade. As árvores falam.

 

O que falam, o que dizem as árvores? Conversam as árvores sobre temas seculares: as raízes da paciência, os frutos do sofrimento, as folhas do passado. Talvez até mesmo sobre a questão das células-tronco, sobre o início da vida, a semente, a mensagem da vida não ouvida...

 

Quando começa a vida?

 

Todos se sentem capacitados para responder: cientistas e bispos, advogados e jornalistas. E há quem peça plebiscito, como se a discussão dependesse da leitura de um artigo da Veja ou da Superintessante! Questão sujeita à profundíssima pesquisa jornalística, à embasada opinião popular, liberdade absoluta, democracia de alto nível... Milhões de pessoas que nunca ouviram as árvores.

 

Não sou autoridade em coisa alguma, somente um leitor atento. Não pertenço a nenhum Tribunal — sou apenas um sobrevivente. Aprendi sozinho que ter nascido é um milagre. Ter vivido até agora, outro milagre. As árvores sabem disso. Não há escolas que nos ensinem a ouvir árvores e embriões.

 

Diferentes posições científicas põem em xeque a minha ignorância. Segundo a teoria genética, a vida começa no primeiro momento. Afirma a teoria embriológica que a vida começa na 3ª semana de gestação, quando o embrião adquire individualidade. A tese neurológica diz que a vida começa com a atividade cerebral (8ª semana de gestação).

 

Para a visão ecológica, quando o feto pode viver fora do útero (6° mês de gestação). Para a visão fisiológica, o indivíduo está vivo quando nasce e pode respirar por conta própria.

 

E lá está o Supremo Tribunal Federal encarregado de decidir quando começa a vida. Pobre Tribunal. O artigo 5º da Lei de Biossegurança menciona as pesquisas com células-tronco de embriões. Se definirem que a vida humana não começa na fecundação, mas na nidação, quando o embrião se aconchega no útero materno lá pelo 40° dia, essas pesquisas serão autorizadas. Contudo, outra questão virá à tona.

 

A discussão sobre o aborto. Pois estará estabelecido pelo Tribunal que abortar é eliminar uma vida. As possibilidades de aborto hoje previstas em lei serão questionadas. Se a vida humana não começa na fecundação, quando uma árvore começa a viver?

 

Gabriel Perissé é Doutor em Educação pela USP e escritor

 

Website: http://www.perisse.com.br/

 




  Comentários (5)
 1 A VIDA COMEÇA QUANDO COMEÇA AVIDA
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email website, em 12-03-2008 05:32
Quanta minha ignorância. Será que estou vivo? 
Pois tenho consciência que antes dessa minha consciência já vivia. Se penso logo existo, mas se existo muitas vezes não penso, porémn estoo vivo. A questão é muito séria,concordo integralmente com o articulista, sobre este assunto VIDA nem eu, tão pouco Supremo Tribunal Federal,tem poder decisório de definir alguma coisa. A vida existe desde que possamos compreender o que é a vida. Um embrião? 
Confuso não é? Absolutamente perceptível. Estamos chegando lá, basta que nos deixem viver.  
Hélio Mendes Cazuquel.
 2 A VIDA NÃO ESCRITA, por Gabriel Perissé
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 12-03-2008 18:35
tenho lido sobre o assunto e compreendi que a vida começa na fecundação. Assim, aborto é crime. 
Concordo com a frase" Pobre Tribunal." pois essa tarefa além de difícil, creio q/ ñ deveria estar, apenas, nas mãos desse tribunal, será q/ ñ há instâncias mais habilitadas p/ essa tarefa? Espero q/ esse tribunal seja intuido p/ decidir bem e certo sem degradar a vida.
 3 a vida
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 12-03-2008 18:36
Preocupados com a sobrevivência imediata, com as contas a pagar e com os filhos para criar, a amiga ciência nos interpela mais uma vez com uma discussão de vida inteira. Meus filhos já faziam parte da minha história mesmo antes de serem concebidos. Meu amor por eles não está ligado ao Cronos. Decidir quando começa a vida...é a grosso modo achar que o bolo só é bolo depois de assado. Sei lá, e os ingredientes, e a mão de quem cria e acaricia a massa...sei lá. Sou uma romântica e sei que existem questões que vão além da nossa mera filosofia. Obrigada pelo belo artigo. 
Fique em paz, Vera.
 4 Ouvindo árvores
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 12-03-2008 08:38
Texto preciso para pessoas que acham que já sabem tudo sobre quando a vida começa. Parabéns.
 5 Pastor
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 13-03-2008 18:12
Pobre senhor Perissé, que tem que definir o que é vida. Então, não há vida antes da fecundação? O que é um espermatozóide; o que é um óvulo? Não são vidas? Não tiveram que entregar-se para que outra vida surgisse? Não se entragariam por uma vida já existente que necessita deles? Acho que sim. 
Obrigado pelo artigo instigante.

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