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ISSN 1983-697X
O novo mínimo ante a justiça social PDF Imprimir E-mail
Escrito por Waldemar Rossi   
04-Mar-2008

 

No início eram R$ 412,40. Depois, como que tomados de uma forte compaixão, passaram para R$ 415,00! Daí que dirigentes das centrais sindicais passam a falar em vitória, "graças às pressões" que os "sindicalistas" fizeram sobre o governo Lula. E lá vem gente em penca a elogiar essa enorme abertura, esse avanço rumo às necessidades dos trabalhadores mais explorados! Tem até estudos para mostrar que o salário mínimo (SM) vem sendo recuperado, embora tais estudos digam também que vai demorar ainda muitos anos até que seja equiparado às exigências legais (bem entendido, não equiparado a qualquer parâmetro de menor injustiça). Tudo muito patético e seria até engraçado se não se tratasse da qualidade de vida do povo trabalhador, porque, dentro de mais alguns anos, como prevêem os tais estudiosos, muitos dos SM já terão vestido "o terno de madeira", vitimados pela fome, desnutrição, doenças e miséria!

 

Basta um simples olhar para a própria história do SM para se entender a verdadeira hipocrisia dessas afirmações ufanistas, cheias de engodo, como uma isca colocada no anzol. Mas com a diferença de que a isca do "novo" SM se destina a milhões de seres humanos - não de peixes - necessitados de quase tudo e que, por extrema carência e desconhecimento, acreditam que suas vidas vão melhorar, ainda que um pouco apenas.

 

Vejamos, então, esse histórico: segundo estudos do DIEESE, para se equiparar ao que manda a lei que o criou, em 1º de Maio de 1940, obra de Getúlio Vargas, o SM deveria ser hoje de R$ 1.924,59. Ainda assim, Getúlio não respeitou a própria criação, pois o decreto daquele ano estabeleceu um SM correspondente a R$ 995,00 atuais e não às exigências legais. Parece que os nossos presidentes sempre foram - e continuam sendo - obstinados por não cumprir a Lei. E ainda assim posam de heróis!

 

Se levarmos em conta o ano de 1959 (ano em que o SM alcançou seu pico), deveríamos estar em R$ 1.434,00. Em outras palavras, em vez de um acréscimo de minguados R$ 35,00, o novo Mínimo deveria ter sido quadruplicado, segundo os cálculos do mesmo DIEESE.

 

É triste perceber que o aumento de escassos R$ 35,00 não acrescenta nada em termos de aquisição de alimentos, nem sequer se comparado com o Mínimo de 2007. Assim, aos milhões de brasileiros que ainda insistem em sobreviver com essa "grana", e que continuam a ter seu padrão de vida rebaixado, resta fazer verdadeiros milagres para permitir que seus filhos tenham o que comer: duplas jornadas de trabalho, bicos nos finais de semanas e feriados etc. Não é por menos que a cada dia aumenta o número de crianças nos cruzamentos das grandes cidades, tentando vender alguma bugiganga para engordar os minguados reais de seus pais; não é por menos que a cada dia milhares de meninas se vêem obrigadas a vender seu corpinho, ainda em formação, abrindo mão de todos os seus legítimos sonhos de construir uma juventude e uma vida adulta feliz.

 

Mas essas coisas não entram nos cálculos dos técnicos em finanças, a serviço dos grandes banqueiros internacionais, nem mesmo nas considerações daqueles que ocupam cargos nos Três Poderes da República. Especialmente não entram nas considerações dos ministros do Executivo, nem do seu chefe-mor, muitos deles oriundos das lutas sociais dos anos 80, pois suas maiores preocupações devem estar voltadas para os cofres dos "Tios Patinhas" da economia mundial hodierna.

 

Que muitos de "boa vontade", portanto, não se deixem iludir pelas bravatas que ainda continuam a ocupar os discursos oficiais, a encher os lares brasileiros de vãs esperanças, de ilusões e miragens. Porque, sem mobilização popular para enfrentamento corajoso dos que manipulam o poder, não haverá um mínimo de justiça social neste país.

 

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

 




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