Quando Deus fez o mundo, reza um conto de Monteiro Lobato, havia
um lugar onde se acumulavam as belezas naturais a serem distribuídas nos quatro
cantos do planeta. Concluída a obra,
criação perfeita, percebeu-se que sobrara no sítio uma demasia de belezas. Como
era o sétimo dia, reservado ao descanso, Ele houve por bem de deixar tudo lá
mesmo. No Rio de Janeiro, o almoxarifado de Deus.
Por conta da preguiça divina, o carioca experimenta, se
quiser todas as manhãs, a possibilidade sempre renovada de visões do paraíso. O
mar em todas as suas cores e formas, as montanhas e florestas em recortes e
volumes talhados no molde da harmonia. Esta pletora de beleza talvez explique o
exagero de festas. Aniversário, por exemplo, o Rio comemora três vezes a cada
ano. A chegada, o padroeiro, a fundação, em datas aglomeradas em pleno
esplendor do verão, estação propícia aos folguedos.
Foi no primeiro dia do primeiro mês de 1502 que os
portugueses, inebriados, aportaram no que julgaram ser a foz de um rio maior
que o Tejo. Daí nos veio o nome: Rio de Janeiro. No dia 20 de janeiro de 1567,
São Sebastião, na data de seu martírio, nos livrou, milagrosamente, dos
calvinistas franceses. Daí nos veio o padroeiro. Dois anos antes, no primeiro
de março de 1565, o capitão Estácio de Sá fundara o acampamento inicial. Daí
nos veio o aniversário oficial, comemorado neste fim de semana.
O Rio de Janeiro, cosmopolita e acolhedor, foi desde sempre
uma cidade mundial e, ao mesmo tempo, bem Brasil. Freqüenta aquele colar de
cidades que o mundo inteiro conhece, mas se move ao som do pandeiro e do
tamborim. Foi vitrine e palco iluminado para boa parte dos acontecimentos
políticos e culturais mais importantes da nossa história. Foi sede da Corte e capital
da República, por isso carrega no corpo as marcas do tumultuário processo
político brasileiro. A cultura popular ensolarada e as tradições libertárias do
seu povo fazem do Rio, apesar de todos os percalços, um espaço permanente de
experimento e criatividade.
Nem tudo, no entanto, são flores. Entre os males contra o
Rio, o maior de todos é a pequena política que, faz tempo, nos governa. Por
todos os títulos, um desastre: social, ético, ambiental, estético e cultural. A
cidade anda espezinhada na sua beleza e muito maltratada pela crise da política
que, desviada de sua função maior, opera na contramão. Os mercadores do
interesse puro tomaram conta do templo majestoso. Causa espanto constatar que
uma cidade marcada por tamanha vitalidade cultural se deixe aprisionar por
semelhante malha.
Tudo que queremos, na comemoração de aniversário, é ver o
Rio de Janeiro reconciliado consigo mesmo. Com sua beleza, com a sua história e
com a alegria inigualável da sua gente. Apesar das mãos atadas e do peito
coberto de flechas, na imagem do santo padroeiro há um detalhe salvífico: o
olhar mira o futuro no horizonte. O
pulso ainda pulsa, salve o Rio de Janeiro.
Léo Lince é sociólogo.
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